Reflexão e enquadramento


A dimensão caritativa é intrínseca ao cristianismo, à vivência da fé, ao seguimento de Jesus Cristo.

Seguir Jesus não é um capricho, um passatempo, um momento. Seguir Jesus implica a vida toda, por inteira. Não é como seguir um qualquer líder político enquanto está na mó de cima. Seguir Jesus em todas as horas e não apenas quando convém. Seguir Jesus implica imitá-l’O em tudo, seguindo os seus passos, fazendo como Ele. Viste como Eu fiz, fazei vós também. Eu que Sou mestre e Senhor lavei-vos os pés. Também vós deveis lavar os pés uns aos outros (cf. Jo 13, 1-20).

O Papa Francisco tem vindo a insistir no cuidado, na atenção e nos gestos concretos para com os pobres, os marginalizados pela economia, as crianças e os idosos, os doentes, os refugiados e os estrangeiros. É preciso construir pontes em vez de muros. É preciso globalizar a caridade (concreta, diária, com as pessoas que vivem à minha beira), desglobalizando a indiferença. Esta acentua-se com a repetição infinda de imagens chocantes que pouco a pouco deixam de ferir. Se a Bolsa de Valores desce um ponto percentual, é uma calamidade, morre uma pessoa à fome, é encontrado um homem caído na estrada, uma granada mata uma dezena de crianças e deixa outras deformadas… e isso já não nos toca a alma, não mobiliza nem a classe dirigente, os poderosos do mundo, nem a comunicação social.

A América latina, de onde o Papa Francisco é originário, fez emergir a Teologia da Libertação.

O papa Francisco prefere a Teologia da Redenção. A inclusão das pessoas na solução dos seus problemas, uma pastoral pensada não para, mas com as pessoas, com os pobres. No pontificado de João Paulo II houve algum receio da instrumentalização da fé e da Igreja, e da marxismação do Evangelho. O Evangelho era lido em dinâmica revolucionária, no empenho pela transformação social e na intervenção política e, até mesmo, partidária. Vindo do leste, da Polónia, o Papa experimentou o silenciamento perpetrado pelo comunismo, a perseguição, a luta de classes à custa da escravização de pessoas, que ficam sem voz nem vez, numa obediência quase cega do líder. O próprio Papa favoreceu o primeiro movimento sindical na sua Polónia, Solidarność (Solidariedade), como clara contraposição ao comunismo. A Teologia da Libertação propunha-se libertar as populações de ditaduras de direita. Pensando nas perseguições comunistas, era difícil pensar que a libertação chegasse agora da esquerda!

O então Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, dará à Teologia da Libertação uma fundamentação cristológica, evitando que o Evangelho fosse apenas um movimento social e/ou político-partidária. Com efeito, Cristo faz-Se pobre (cf. 2 Cor 8, 9). Ele é o fundamento da opção preferencial pelos mais pobres. Aio longo da Sua vida pública, Jesus aproxima-se e rodeia-se de pobres, de mulheres, de doentes, de maltrapilhos, de publicanos, de pecadores. Os Seus discípulos são, na maioria, das classes mais desfavorecidas. Jesus vem para salvar, para elevar, para remir. Vem para reabilitar, para integrar. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a mim que o fazeis (Mt 25, 31-46).

No juízo final, as obras de misericórdia servirão de “avaliação” para o caminho percorrido: «tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo» (Mt 25, 35-36).

Aqui nascem precisamente as Obras de Misericórdia corporais:

  1. Dar de comer a quem tem fome;
  2. Dar de beber a quem tem sede;
  3. Vestir os nús;
  4. Dar pousada aos peregrinos;
  5. Assistir aos enfermos;
  6. Visitar os presos;
  7. Enterrar os mortos.

Esta última obra de misericórdia corporal pode ser encontrada na passagem de Tobias (2, 1-9), em que Tobite dá sepultura aos mortos, apesar da proibição das autoridades invasoras.

Às obras de Misericórdia corporais são apostas as espirituais:

  1. Dar bons conselhos;
  2. Ensinar os ignorantes
  3. Corrigir os que erram;
  4. Consolar os tristes;
  5. Perdoar as injúrias;
  6. Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
  7. Rogar a Deus por vivos e defuntos.

Dar pão é importante, mas sem descurar a educação e a cultura!

No Cântico do Magnificat (Lc 1, 46-55), Nossa Senhora faz transparecer a opção de Deus: derrubou os poderosos e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Não é uma questão moral, ajudamos porque são bons e merecem. Jesus não pergunta às pessoas se têm pecados, mas o que querem, o que precisam. A opção preferencial pelos mais pobres é a escolha de Jesus. Se nos recordarmos da parábola de Lázaro, perceberemos que deixar ao portão, sem acesso a casa e ao alimento, os pobres e os famintos, é pecado que brada aos céus e clama por justiça, pela justiça de Deus.

Nossa Senhora, nossa Padroeira, além do cântico de louvor, apressa-nos para ajudar. Quando corre apressada para a montanha ao encontro de Isabel, levando-lhe a alegria de portar consigo o Salvador do mundo, mas também, por certo, para lhe prestar a ajuda necessária. A caridade começa, desde logo, por darmos Deus aos outros, levando o melhor de nós, procurando nos outros o melhor, a presença do amor de Deus.

Sublinhe-se que a dinâmica espiritual e afetiva, da escuta e da palavra amiga, da presença solícita, não dispensa também a ajuda concreta e material, lembrando as palavras de São Tiago: «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (Tg 2, 15-17).

Parafraseando o Papa Francisco, diríamos que a caridade é artesanal, implica que usemos as mãos, que abraçam e que se estendem para dar, para levantar, para segurar o outro.

Nas Bodas de Caná (Jo 2, 1-11), Maria mostra a delicadeza e a atenção às pessoas que a rodeiam. Está numa festa, mas ainda assim não deixa de intervir, para ajudar. O Filho bem pergunta: Mulher, que temos a ver com isso? Mas a resposta é inequívoca para os discípulos, que hoje somos nós: «Fazei tudo o que Ele vos disser».

A caridade envolve-nos a todos e todos somos responsáveis por todos. Porém, também se organiza para se tornar mais eficaz, chegar mais rápido, ajudar quem realmente precisa, nos diferentes níveis, necessidades básicas, cuidado e atenção, disponibilidade para escutar, aconselhar, apontar caminhos, encaminhar para as Instituições.

A Cáritas é uma das respostas da Igreja, é o Seu rosto, não dispensando ninguém e incluindo e interagindo com outros movimentos e instituições: Conferências de São Vicente, IPSS, Misericórdias, centros sociais paroquiais, Instituto de Solidariedade Social, Grupos de jovens, grupos de visitadores de doentes.

 

Vale a pena ler o documento da Cáritas Portuguesa: AQUI


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