Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo - ano B - 31 de maio de 2018


1 – Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: «Tomai: isto é o meu Corpo». Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. Disse Jesus: «Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».

Em quinta-feira santa, Jesus chama à festa os Seus discípulos. À volta da mesa e da refeição, Jesus tem uma mensagem importante a comunicar-lhes. No ar sente-se a seriedade do momento, a gravidade do que está a chegar. Jesus tem consciência que não lhe restam muitas horas. Tudo se vem a precipitar e acelerar. Isso mesmo faz notar aos discípulos, dando-lhes pistas, indícios, sinais. Vai ser entregue às autoridades, vai ser condenado e vai ser morto. É preciso que saibam que a Sua morte não é em vão, mas é para cumprir, em tudo, a vontade do Pai, oferecendo-se até ao fim, até ao último fôlego, até à última gota de sangue. Jesus não guarda nada para Si, dá-Se por inteiro. É o Meu Corpo, é o Meu sangue entregue por vós. Um pouco mais e será arrastado para a Cruz. Antes, porém, que O matem, Ele entrega-Se. A vida ninguém ma tira, Sou Eu que a dou!

Ele que era de condição divina não Se valeu da Sua igualdade com Deus, mas assumiu a nossa carne, a nossa humanidade, assumindo-nos por inteiro, sujeitando-Se às leis físicas, sob as coordenadas do tempo e do espaço. O Verbo encarnou e habitou entre nós. Deus não nos salva a partir de cima, a partir do exterior, mas faz-Se um de nós. Vem habitar connosco. Habitar-nos. Caminhar connosco, embrenhando-Se na nossa história, identificando-Se com as nossas dores e carregando-as, para nos libertar, para nos elevar conSigo para Deus. Mas não o faz simbolicamente num gesto de simpatia, fá-l'O visível e realmente, com o Seu corpo, com a Sua vida entregue ao Pai por nós, por nosso amor, para nossa salvação.

 

2 – O quadro da Última Ceia enquadra o simbolismo da entrega, como antecipação da morte e da ressurreição de Jesus, fixando o Seu desejo e a Sua oferenda. A Cruz realiza o que Jesus antecipa na Ceia Pascal. Ele dá-Se, entrega o Seu Corpo, entrega o Seu sangue, entrega a Sua vida. A Cruz é a expressão e a certeza do Seu amor, de um amor encorpado (materializado) nas Suas palavras, nos Seus gestos, no suportar da Cruz e no oferecimento ao Pai da Sua vida, corpo, alma e espírito: Pai nas Tuas mãos entrego o Meu espírito! É o Meu corpo. É o Meu sangue. É a minha vida. Podia ser uma expressão simbólica e romântica, mas é real, física, carnal, Jesus nasce, vive e é morto na Cruz, depois de um processo apressado por aqueles que O viam como uma ameaça.

A Eucaristia, sacramento por excelência do mistério pascal, atualiza, torna presente o Corpo de Jesus, a Sua entrega, a Sua morte e ressurreição. O símbolo – o pão e o vinho – realiza o que significa. A crucifixão não se repete, Jesus oferece-Se uma vez para sempre. Os sacramentos, especialmente a Eucaristia, por ação do Espírito Santo, em Igreja (Corpo de Cristo), fazem com que a morte e ressurreição aconteçam (sacramentalmente) no nosso tempo, na nossa vida. Jesus torna-Se nosso contemporâneo. Está ali, como prometeu – Eu estarei convosco até ao fim dos tempos – está ali não às migalhas ou às prestações, mas presente totalmente, com o Seu corpo e com o Seu sangue!

 

3 – Chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu filho ao mundo para que o mundo fosse salvo por Ele, a partir de dentro, a partir da humanização da humanidade, marcada pelo pecado, pela treva e pela morte. Todavia, não foi do pé para a mão. Deus criou-nos por amor e confiou em nós, criou-nos livres e depois deixou-nos à nossa sorte, afastando-Se, deixando de Se preocupar!? Como Se um Pai que nos ama como Mãe pudesse em algum momento esquecer-se dos filhos que gerou?!

Radica aqui um dos pecados, um dos equívocos do nosso tempo, a independência em relação a Deus e em relação ao próximo. Abdicamos dos pais e de Deus, abdicamos da sabedoria dos outros, mesmo que vivamos confortavelmente graças à criatividade, ao engenho e ao sacrifício de muitos que vieram antes de nós. A autonomia é desejável e defensável, a independência (como a autossuficiência e a prepotência) isola-nos, desagrega-nos, desumaniza-nos. Ao tornar-nos independentes, tornamo-nos órfãos e depois filhos únicos, sem irmãos, sem família, sem casa paterna/materna, sem amigos! E o risco é mortal, pois se ninguém nos pertence e não pertencemos a ninguém podemos destruir, excluir, matar quem nos possa fazer sombra, pois não temos nada a perder, não temos nada a ganhar!

O pecado de Adão e Eva não impede Deus de Se manter por perto e de guardar a Sua obra-prima. O fratricídio de Caim, que matou o seu irmão Abel, não impede Deus de o proteger, marcando-o com o Seu selo, para que ninguém lhe faça mal. Na provação, Deus aponta uma saída, uma esperança. Nada está perdido em definitivo, Deus não nos desampara. A história do povo de Deus é uma história de encontro, de Aliança/s de Deus com a humanidade através dos Patriarcas, dos Juízes, dos Profetas, dos sacerdotes e dos próprios acontecimentos.

 

4 – Moisés é um dos intermediários da Aliança de Deus com o Seu povo, num dos momentos mais significativos da sua história em que se opera a libertação do povo, escravizado há muito em terras do Egipto. A gesta heroica de Moisés deve-se ao chamamento de Deus que o envio ao Seu povo porque ouviu o Seu clamor desde o Egipto.

Após a libertação nem tudo correu como esperado, mas Deus faz saber que é possível uma história diferente. Moisés é o intermediário da vontade de Deus. A Aliança é selada e significada pelas oferendas. Moisés ergue um altar e manda que os jovens israelitas ofereçam holocaustos, imolando novilhos, como sacrifícios pacíficos. Metade do sangue é para deitar sobre o altar, metade é para aspergir sobre as pessoas, como sinal da Aliança. «Este é o sangue da aliança que o Senhor firmou convosco, mediante todas estas palavras».

O ser humano, desde sempre, precisou de símbolos, gestos, algo palpável, visível, materializável, também para evocar as realidades invisíveis, sobrenaturais. Somos assim, não somos aguados, seres meramente espirituais, precisamos do contacto físico, sólido, corporal. O corpo somos nós. Não é meramente uma carcaça dispensável ou um cárcere para a nossa alma. Somos um todo e é com este todo que nos relacionamos, nos envolvemos e comunicamos uns com os outros.

 

5 – O culto assinala a presença de Deus: os sinais relembram-nos a nossa origem e Aquele que nos garante na vida, e faz-nos tomar consciência da interdependência que nos irmana, nos humaniza e nos faz sentir ligados aos outros e ao mundo.

Para selar uma amizade, oferece-se um presente, cria-se uma linguagem própria, inventam-se gestos que só são percetíveis pelos próprios; num matrimónio, as alianças, um presente, uma surpresa! Algo que evoque, recorde, torne presente os sentimentos, a ligação, a pertença. Mas o importante é o que liga, o que nos liga, o abraço, o sorriso acolhedor, as palavras que nos aproximam, a carícia!

Assim no culto, antes os sinais, os gestos, as oferendas, os novilhos, finalmente o abraço, a oferta duradoura e definitiva, o sangue, o corpo, a vida de Jesus. Já não são sinais que remetem para uma outra realidade, é a própria realidade que vem até nós, o próprio Deus que nos assume, que vem em Corpo e Alma. E, desta forma, também o culto se modifica e transforma. Já não se oferecem novilhos, holocaustos, mas o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo. N'Ele se realiza o encontro perfeito entre o Homem e Deus, entre Deus e a humanidade.

A Epístola aos Hebreus recorda-nos que «Cristo veio como sumo-sacerdote dos bens futuros… e entrou de uma vez para sempre no Santuário. Não derramou sangue de cabritos e novilhos, mas o seu próprio Sangue, e alcançou-nos uma redenção eterna... Por isso, Ele é mediador de uma nova aliança, para que, intervindo a sua morte para remissão das transgressões cometidas durante a primeira aliança, os que são chamados recebam a herança eterna prometida».

 

6 – A vida é um dom. Para nós crentes, é um dom de Deus. E é Deus que sustenta a existência do mundo no qual habitamos. A oração e o louvor fazem-nos gratos para Quem nos criou, mas simultaneamente comprometidos em desenvolver os dons recebidos.

«Senhor Jesus Cristo, que neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão, concedei-nos a graça de venerar de tal modo os mistérios do vosso Corpo e Sangue que sintamos continuamente os frutos da vossa redenção». A gratidão faz-nos mais audazes na procura em traduzir e concretizar a redenção que nos vem de Jesus Cristo, pelo Seu mistério pascal, dando Sua a vida para nós que tenhamos vida abundante.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 24, 3-8; Sl 115; Hebr 9, 11-15; Mc 14, 12-16. 22-26.


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