Solenidade do Nascimento de São João Batista - 2018


1 – São João Batista é, entre nós, um dos santos mais populares, não tanto pela sua biografia mas sobretudo pela popularidade dos festejos em diversas cidades, vilas e aldeias de Portugal, sendo o Padroeiro de muitos municípios que têm neste dia o seu feriado municipal!

Mas que relação tem João Batista – uma figura sóbria, que vive no deserto e se alimenta frugalmente, que prega o arrependimento, a mudança de vida, que faz "ameaças" proféticas para levar à conversão – com as danças e os bailes, os fogos e os arraiais, a música e as marchas? Talvez pouco, ainda que o próprio tenha sido vítima da descontração de um banquete, de um baile, no palácio de Herodes. As festas, por vezes, promovem os excessos da bebida e da comida, das palavras, das promessas e das inconfidências. Quando se dá por ela, já é tarde! As promessas de Herodes à filha de Herodíade que, com a sua dança agradou aos convivas, leva a um pedido surrealista e à sua concessão, e João Batista perde a cabeça, ou melhor, é decapitado por um capricho (cf. Mt 14, 3-12).

O cristianismo, desde os primeiros séculos, procurou inculturar-se nos contextos humanos e sociais. Em vez de procurar concorrer com as festas mais populares, procurou dar-lhes uma "roupagem" mais cristã. A colocação da celebração do nascimento de Jesus, a 25 de dezembro, por ocasião do solstício de Inverno, festa do deus Sol, corresponde a essa feliz estratégia. Seis meses antes, por ocasião do solstício de Verão, o nascimento de João Batista passa a ser a referência religiosa para as festividades pagãs que então se celebravam!

É possível conciliar a festa com a conversão, a alegria com a penitência, a sobriedade com o convívio! Um cristão há de sê-lo em todos os ambientes e contextos!

 

2 – Jesus convida-nos para o banquete, a sentar-nos à Sua mesa, à Sua volta. Com efeito, Ele come com pecadores e publicanos, mas também vai, como convidado, a casa de alguns doutores da Lei e de fariseus bem colocados. De notar que para Ele não há barreiras ou impedimentos cultuais, religiosos, políticos ou sociais. Todos têm lugar à mesa. Todos são convidados para o Seu banquete.

Jesus inicia a Sua vida pública, na versão joanina do Evangelho, numas bodas, na festa de um casamento, em Canaã da Galileia. É também durante uma refeição, a Última Ceia, que Jesus institui a Eucaristia, na qual, depois da Sua Morte e Ressurreição, Se tornará presente com o Seu Corpo e o Seu Sangue, pela ação do Espírito Santo a atuar na Igreja. Através dos sacramentos, especialmente do banquete eucarístico, Jesus torna-Se nosso contemporâneo e conterrâneo.

Já o Antigo Testamento fala no banquete preparado no alto do monte e para o qual todos serão convidados. A Eucaristia cumpre, inovando, as promessas feitas por Deus ao Seu povo, antecipando o banquete na eternidade, fazendo-nos já saborear "em família" a refeição dos anjos e dos santos!

Visto desta forma, o cristianismo promove a festa, o encontro, o convívio, a refeição fraterna! E quem se senta à mesma mesa sabe que é para partilhar o pão e a vida, é para formar família, é para se comprometer com quem está ao lado, à frente, ou com quem ainda não entrou.

Porém, João Batista é uma pessoa excêntrica. O próprio Jesus sublinha essas diferenças ao dizer que o Filho do Homem come e bebe e que João Batista não come pão nem bebe vinho! Seja como for, João aponta para Jesus e Jesus envolve-nos no festim que nos assume como irmãos.

 

3 – Mais à frente será Jesus a dar testemunho de João: «Entre os nascidos de mulher não há profeta maior do que João; mas, o mais pequeno do Reino de Deus é maior do que ele». Até lá, é João que nos mostra Jesus, que nos revela o Messias de Deus e que nos encaminha para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Desde o início que o nascimento de João se reveste do mistério de Deus. Uma nova vida que está a caminho já é bênção. Para nós ocidentais, cada nova vida pode ser um estorvo e um transtorno. Mas bem sabemos que uma sociedade que se torna estéril é uma sociedade condenada a morrer. Naquele tempo e para aquele povo, um filho é um milagre, uma bênção de Deus. Isabel e Zacarias já há muito esperavam ser recompensados por Deus, por serem pessoas boas e justas diante de Deus e dos homens. Chegaram a uma idade em que a esperança começa a escassear. Um casal sem filhos, é olhado de lado, é posto sob "desconfiança": talvez não sejam tão justos como parecem! Se Deus não lhes concedeu ao menos um filho, alguma coisa hão ter feito de errado!

Não admira que Zacarias se tenha assustado e ficado sem fala! Desde logo a aparição de um Anjo suscita temor. E, depois, se não foi achado digno para ter filhos, como pode um Anjo vir à sua presença?! Logo o Anjo o interpela: «Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de grande alegria e muitos hão de alegrar-se com o seu nascimento, porque será grande aos olhos do Senhor».

 

4 – Quando nascemos, já cumprimos uma missão. Desde sempre, como sublinha Bento XVI, existimos no pensamento de Deus, que nos chama à vida e mesmo antes de o sabermos nos envia aos outros a levarmos o melhor de nós mesmos!

Jeremias ao narrar a história da sua vocação revela como Deus já o havia escolhido. «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações».

A primeira vocação, diríamos, é para a grandeza, não para aquela grandeza soberba, prepotente e sobranceira, mas para a grandeza de transparecer o rosto, a vida de Deus em nós. A primeira vocação é sermos felizes. Deus que nos ama, quer que sejamos felizes. Como Deus, que a todos criou, como Pai, que a todos ama, envia-nos aos outros. Aos receios de Jeremias, Deus garante: «...irás ao encontro daqueles a quem Eu te enviar e dirás tudo quanto Eu te mandar dizer. Não tenhas receio diante deles, porque Eu estou contigo, para te salvar... Eu ponho as minhas palavras na tua boca. Hoje dou-te poder sobre os povos e os reinos, para arrancar e destruir, para arruinar e demolir, para edificar e plantar».

Deus revela a Zacarias a vocação/missão futura de João: «...será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor».

Algumas semanas depois, João começa a cumprir a sua missão. No encontro de Nossa Senhora, Mãe de Jesus, com Isabel, Mãe João Batista, a inspiração do Espírito Santo transborda e o menino (João) exulta no seio de sua Mãe com a proximidade de Jesus, alegrando-se com a vinda do Messias. Já aponta para Aquele a quem não será digno de desatar a correia das sandálias!

 

5 – Admiráveis as palavras de Pedro, que fala da alegria da fé, exemplarmente visível na vida intrauterina de João Batista: sem ver Jesus, pressente-O, através da voz de Nossa Senhora, quando ecoa nos ouvidos e no coração de sua Mãe, Santa de Isabel. É um contacto que vai muito mais além daquilo que a vista alcança!

É uma primeira lição eloquente de João Batista: conduzir-nos à alegria da fé e do testemunho, mesmo antes de vermos ou sem vermos. Mas ouçamos São Pedro: «Vós amais Cristo Jesus sem O terdes visto, acreditais n’Ele sem O verdes ainda. Isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque conseguis o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas». O Apóstolo fala para pessoas que já não conviveram temporalmente com Jesus Cristo, mas que acedem a Ele pela fé. Fala para ti e para mim, fala para nós. Deixemo-nos interpelar pela voz daqueles que nos anunciam Jesus, para que, aderindo a Ele de todo o coração, pela fé, nos tornemos Seus anunciadores, ou como João Batista sejamos precursores daqueles que hão de acreditar em Jesus pela firmeza da nossa voz e pela bondade da nossa vida. Só chegaremos a Deus pelo amor, pela bondade e pela ternura. Só abriremos o caminho dos outros a Deus se vivermos pela compaixão e pelo serviço!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano B): Jer 1, 4-10 ; Sal 70 (71); 1 Pedro 1, 8-12; Lc 1, 5-17.


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