Solenidade de Todos os Santos - 1 de novembro de 2017


1 – A santidade, diz-nos o Papa Francisco, "é um caminho que se deve fazer com coragem, com a esperança e com a disponibilidade de receber esta graça... é um dom, é o dom que nos dá o Senhor Jesus, quando nos toma consigo e nos reveste de Si mesmo, torna-nos como Ele... não é uma prerrogativa somente de alguns: a santidade é um dom que é oferecido a todos, ninguém está excluído".

É a vocação universal à santidade, sublinhada no concílio Vaticano II. Inclui-nos a todos, a todos compromete. Seguir Jesus. Amar Jesus. Viver Jesus, procurando imitá-l'O, gastando a vida a favor de todos, indo ao encontro dos mais frágeis, pugnando pela justiça, pela paz, por um mundo renovado pelo amor, pelo perdão e pelo serviço.

A condição de batizados agrafa-nos à santidade de Jesus. Fomos sepultados com Cristo na Sua morte e com Ele ressuscitámos para uma vida nova. Tornamo-nos novas criaturas, pela água e pelo Espírito Santo. Socorrendo-nos novamente das palavras do Papa Francisco, «o Senhor só pede isto: que nós estejamos em comunhão com Ele e a serviço dos irmãos... Alguns pensam que a santidade é fechar os olhos e fazer cara de imagem. Não! Não é isto a santidade! A santidade é algo maior, mais profundo que Deus nos dá. Antes, é justamente vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho cristão nas ocupações de cada dia que somos chamados a nos tornar santos... cada estado de vida leva à santidade, sempre! Na sua casa, na estrada, no trabalho, na Igreja, naquele momento e no teu estado de vida foi aberto o caminho rumo à santidade».

2 – O primeiro dia de novembro evoca todos os santos, "cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel... uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas... que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro".

É uma multidão incontável. Não é, como por vezes escutámos, um número excludente, pelo contrário, é um número que nos inclui a todos. Foi para a todos salvar que Jesus nos confiou a Sua vida, gastando-a, oferecendo-Se. Esta multidão que só cabe a Deus contar e que nos abarca, a mim e a ti, que nos desafia, a mim, a ti, a nós. Sempre. Em toda a parte. Em todas as esferas da vida humana.

A santidade de Deus é visível em Jesus, é uma santidade que se exprime nas palavras e nos gestos, na delicadeza, na aproximação a todos, a começar pelos aflitos, pelos mais pequenos. É luminoso o texto das bem-aventuranças e que nos remete para a prioridade de Jesus: «Bem-aventurados os pobres em espírito... Bem-aventurados os humildes... Bem-aventurados os que choram... Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça... Bem-aventurados os misericordiosos...  Bem-aventurados os puros de coração... Bem-aventurados os que promovem a paz... Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça…».

Bem-aventurados todos quantos dispõem da sua vida para louvar a Deus, construindo fraternidade, um mundo onde prevaleça o amor sem limites, a paz, a concórdia. Bem-aventurados os que não se centram em si mesmos e deixam que o amor, a benevolência e a misericórdia transpareça nas palavras, nos gestos, no compromisso com os outros. Ainda que estejam sujeitos à injúria, à perseguição e até à própria morte. Como o próprio Jesus. «Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

3 – Os nossos olhos estão postos em Deus. O nosso auxílio vem do Senhor, que fez os céus e a terra. O Senhor esteja connosco, que está sempre no meio de nós. Corações ao alto! Os nossos corações, o nosso olhar, a nossa vida fixa-se no Senhor, Deus do Universo, que em Jesus Cristo antecipou a vida nova que desfrutaremos junto d'Ele para sempre. É uma garantia dada por Jesus: para onde Eu vou, vos levarei a vós também, em casa de Meu Pai há muitas moradas.

Quando a Igreja reconhece a santidade de uma pessoa, e a propõe como exemplo a seguir, fá-lo porque crê que essa pessoa levou uma vida consentânea com o Evangelho, ainda que no percurso tivesse tido dúvidas ou cuja fragilidade a identificaram com o pecado, sublinhando não tanto os seus méritos como a graça de Deus que nela operou maravilhas. Conseguimos ouvir a oração crente de Maria: a minha alma exulta de alegria, em Deus meu salvador, que «fez em mim maravilhas». Ela engrandece o Senhor com a Sua vida, melhor, a grandeza de Deus é visualizável na sua vida.

Os santos são lampejos de luz que nos permitem ver melhor Jesus, a Luz do mundo. Se os nossos olhos estão ofuscados pelas trevas, se o nosso coração está atolado na escuridão, na incerteza, na dúvida, no marasmo, os santos podem ajudar-nos a caminhar para Jesus. Se outros passaram por dificuldades iguais a nós e continuaram a confiar em Deus, então também nós podemos seguir-lhes o exemplo. Como não lembrar Santa Teresinha: posso perder a fé mas o amor conduzir-me-á a Deus.

Nestes dias, de todos os santos e dos fiéis defuntos, evocamos todos os que partiram antes de nós, confiamos que Deus os guarda para sempre e “um para sempre” que nos há de também chamar a nós. Muitos santos nós conhecemo-los, pois estão esculpidos em imagens, esculturas, pinturas e pagelas, muitos outros estão gravados no coração de Deus e no coração das comunidades cristãs. Todos nós já nos deparámos com pessoas que nos falam do amor de Deus, que transparecem a paz e a alegria de Deus, que respiram a santidade de Deus, que acreditam e vivem apostadas na simplicidade, na misericórdia, na caridade.

 

4 – Somos estrangeiros. A nossa pátria está no Céu. A nossa pátria é Deus. Somos estrangeiros, mas não órfãos, pois temos Pai, que nos ama com amor de Mãe, e temos Mãe (palavras de Francisco em Fátima), porque Deus nos condia Maria por Mãe, para cuidar de nós, para nos guiar a Jesus, para nos dar Jesus, para nos mostrar o Seu olhar e o Seu sorriso, e o Seu rosto, para nos interpelar a fazer a Sua vontade: fazei tudo o que Ele vos disser.

Estamos a caminho. Os santos apontam-nos a direção, tornam o Caminho mais luminoso, deixam marcas, deixam pontos de luz, são lampejos de claridade que nos orientam para a Luz verdadeira, que nos alertam para os desvios, que nos ensinam como ultrapassar dúvidas e obstáculos, como perseverar e ser resiliente perante o mal, como nos deixarmos converter pela graça de Deus, apesar das nossos pecados e das nossas trevas.

Somos Seus filhos amados. É Jesus quem no-lo diz, é Ele que nos reconhece e nos assume como irmãos. Ele que era de condição divina, assumiu a nossa condição, tornou-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado. Veio para o meio de nós como um de nós, sujeitando-se às limitações espácio-temporais. Mas vivendo como um de nós, foi-nos conduzindo pela mão, por um caminho de serviço e de amor, de compaixão e de ternura. Já estamos a caminho. Ele é o nosso Caminho, a Verdade que nos reconcilia connosco e com os outros, com o mundo, é a Vida que pulsa em nós e nos eleva para Ele. «Ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro».

O caminho que percorremos, se animado na esperança, vai-nos formatando para chegarmos a ser o que já somos pelo batismo: filhos amados, filhos para sempre, daqui até ao Céu.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Ap 7, 2-4. 9-14; Sl 23 (24); 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a.


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