Solenidade de Pentecostes - ano C - 9 de junho de 2019


1 – Jesus cumpre a Sua promessa. E o último momento desse comprometimento ainda acontece nos nossos dias: Ele estará connosco. Sempre que nos reunimos em Seu nome. De cada vez que fazemos o bem ao mais pequeno dos irmãos. Quando e sempre que assumimos a nossa pertença à Igreja, Seu Corpo, do qual somos membros, e deixamos que a Sua graça nos acaricie o coração, para que uma vez redimidos, possamos transparecer aos outros o Seu amor.

Eu vou partir, mas não vos deixarei órfãos. Vou preparar-vos um lugar, em casa de Meu Pai, há muitas moradas, para que onde Eu estiver vós estejais também. Por ora ficareis tristes, mas então a vossa tristeza converter-se-á em alegria, duradoura, que ninguém vos poderá tirar. É bom que Eu vá, para vos enviar o Espírito Santo, o Paráclito, o Consolador. Ele vos revelará toda a verdade. Não precisais de preparar a vossa defesa, o Espírito Santo inspirar-vos-á o que haveis de dizer! Não tenhais medo. Eu estarei convosco até ao fim dos tempos.

 

2 – Ele dá-nos o Espírito Santo em abundância, mas como sói dizer-se, com o poder vem a responsabilidade. No Evangelho de São João, a dádiva do Espírito Santo acontece ao domingo, naquele domingo, o primeiro dia da semana. Jesus regressa, como prometido, e regressa colocando-Se no MEIO deles. Independentemente das portas e janelas fechadas, dos muros e das paredes, Jesus vem para nos ligar a partir do centro. Ele está ao meio.

A mensagem já a conhecemos: a paz! A paz que Ele nos deixa, uma paz que é cozinhada pelo amor, revestida de perdão, de serviço e do cuidado ao semelhante; a paz que nos faz querer ser como Ele, apostando na ternura e na compaixão, e na proximidade aos mais frágeis. Paz que se constrói a partir de dentro, a partir do coração, a partir de cada um de nós. A paz entre nós será possível quando e sempre que estivermos reconciliados connosco, com a nossa identidade e a nossa pertença. Não esqueçamos, pertencemos uns aos outros. A nossa identidade irmana-nos a Jesus, porque assim Ele o quis, e irmana-nos aos outros, onde Ele Se esconde e onde O poderemos encontrar.

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Jesus não Se apresenta só, mas com o Pai (e com o Espírito Santo). É em Nome do Pai que anuncia e realiza prodígios. Eu e o Pai somos Um. A nossa vocação, discipulado e missão decorrem desta comunhão trinitária. Somos enxertados em Jesus Cristo, no batismo, pela ação do Espírito Santo. E, por conseguinte, somos discípulos missionários, não por autorrecreação, mas na dependência estreita com Jesus. Quando esquecermos esta ligação, seremos como ramos decepados (cortados da cepa) que logo secam e só servirão para queimar.

 

3 – E se o chamamento vem de Deus, então a missão levar-nos-á a anunciar a vontade, a vida e a Palavra de Deus. Não nos anunciamos. Anunciamos Aquele que nos chama e nos envia. E como sabermos qual a vontade de Deus? Com as nossas limitações e fragilidade?

Olhemos para Jesus, para a Sua vida, e para a Sua entrega a favor de todos, especialmente dos pobres, dos despojados, dos pequeninos! E como Ele faz, façamos nós também. Eu que Sou Mestre e Senhor, lavei-vos os pés, para que, assim como Eu vos fiz, o façais uns aos outros. «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

A ternura, a compaixão e o perdão, a bondade, a delicadeza, o amor e a proximidade são a marca de Jesus que passa pelo mundo fazendo o bem. A marca de Jesus será a marca obrigatória dos Seus discípulos, dos cristãos, a marca da minha e da tua vida.

A oração convoca-nos para este caminho de santificação, acolhendo, desenvolvendo e partilhando os dons que Deus nos dá: «Deus do universo, que no mistério do Pentecostes santificais a Igreja dispersa entre todos os povos e nações, derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo, de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho».

A oração compromete-nos na realização daquilo que pedimos a Deus.

 

4 – A oração no Espírito Santo converte-nos a Jesus e ao Seu evangelho, faz-nos discípulos missionários, chamados e enviados a levar a Boa Nova a toda a parte, a todas as pessoas. Sem o Espírito Santo, corremos o risco de nos anunciarmos, de falarmos bem e até fazermos coisas humanamente interessantes, mas sem substrato. Mais tarde ou mais cedo endeusar-nos-emos ou deixaremos que outros o façam.

São Paulo diz-nos como o Espírito Santo é essencial na vida das comunidades cristãs, sem O qual não é possível sequer pensar-se em comunidade, em Igreja ou em Corpo de Cristo. Com efeito, "ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela ação do Espírito Santo".

É o Espírito Santo que suscita os dons, os ministérios e os serviços em Igreja, em cada um, mas em prol da comunidade. "Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum".

E logo o Apóstolo apresenta a Igreja como um Corpo, com os seus membros: "Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito".

 

5 – No relato de São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo irrompe no lugar onde se encontram os discípulos, num rumor que não deixa ninguém indiferente, qual forte rajada de vento. "Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem".

A ação do Espírito Santo atua nos discípulos. Perdem o medo, deixam-se envolver pelo Espírito e destemidamente anunciam Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Exprimem-se nas línguas do Espírito. Iremos perceber que esta língua é só uma: a do amor!

O mesmo Espírito atua nos ouvintes: "Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus".

Terão os discípulos ficado poliglotas? Poderia ser, mas tudo indica que os ouvintes é que "escutam", percebem na própria língua. O Espírito Santo age nos que proclamam a Palavra e nos que a acolhem. Santo Agostinho, em algumas pregações, começava por invocar o Espírito Santo, para que através dele e da sua reflexão a Palavra de Deus se tornasse acessível, mas igualmente para que o Espírito inspirasse os ouvintes dando-lhes a paciência da escuta e a compreensão do coração.

Rezemos nós também: «Vinde, ó santo Espírito, vinde, Amor ardente, acendei na terra vossa luz fulgente. / Descanso na luta e na paz encanto, no calor sois brisa, conforto no pranto. Luz de santidade, que no Céu ardeis, abrasai as almas dos vossos fiéis».

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 2, 1-11; Sl 103 (104); 1 Cor 12, 3b-7. 12-13; Jo 20, 19-23.


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