Solenidade de Pentecostes - 20 de maio de 2018


1 – A vida, a nossa vida, é muito mais do que aquilo que está visível. O que se vê, o que se escuta, o que se saboreia, o que se toca, o que inebria o nosso olfato é só uma parte ínfima de nós. Somos um mistério que a ciência procura desvendar e/ou justificar, mas, na verdade, está apenas a bater à porta da humanidade. A tecnologia e a ciência permitem desvendar uma parte da nossa biologia. Contributos importantes para a vida, dignidade, saúde das pessoas! Mas como nem tudo se reduz à dimensão física, a contribuição de outros saberes e outras áreas de conhecimento, filosofia, psicologia, história e sociologia, espiritualidade.

Há todo um mundo que nos escapa, mas que intuímos e se insinua em muitas situações. É o nosso mundo interior, o que nos vai na alma, o que nos diz o coração, a voz que ressoa nosso íntimo, no nosso coração. O que nos rodeia é importante. O que os outros nos dizem é importante. O que ouvimos e o que vemos é importante. Mas precisamos de nós! Precisamos de nos escutarmos, de perscrutarmos a alma, ouvir-nos, ouvir a voz da nossa consciência. Por conseguinte, quando isso acontece, fazemos silêncio, rezamos, meditamos, isolámo-nos, criamos um ambiente tranquilo e sereno, em que só nos queremos ouvir a nós próprios. O contrário também é manifesto. Sabemos o que sentimos, mas perguntamos uma e outra vez a ver se há um outro caminho mais fácil e/ou menos assustador. Tentamos não nos isolarmos, mas ocupar-nos com muitas coisas, com muitos afazeres, com muito ruído para abafarmos o que nos vai na alma. Marta e a Maria revolvem-se dentro de nós!

Esta necessidade de silenciarmos o nosso íntimo ou de criar as condições para que a nossa voz interior clarifique o caminho a seguir, remete-nos para o Espírito Santo que nos habita, Deus que nos fala no mais íntimo de nós próprios!

 

2 – Durante um tempo, Jesus fez-Se acompanhar por um grupo de discípulos, falando-lhes de Deus, do reino de Deus e do que era necessário fazer para que esse reino chegasse a todos. Muitos momentos e muitas histórias para contar. O Jovem galileu percorreu montes e vales, cidades e aldeias, pelo campo e à beira mar, espalhou um sonho, o sonho de Deus de reunir a todos numa só família, em que todos possam sentar-se à volta da mesma mesa, sob o mesmo teto, sentindo-se em casa. Aqueles discípulos puderam acompanhá-l'O, segui-l'O, escutá-l'O, puderem ver como Ele agia, qual a Sua postura diante das autoridades, perante as pessoas mais simples, em relação aos mais pobres e frágeis. Puderam testemunhar a Sua intimidade com o Pai, a Sua delicadeza com todos, a sua proximidade aos doentes e aos pecadores, a predileção para com as crianças e os estrangeiros, as mulheres (ainda que algumas tivessem um vida duvidosa) e os publicanos. Escutaram discursos, mas sobretudo diálogos e pequenas estórias desafiando ao melhor, à inclusão, ao amor, ao perdão, à partilha, à confiança em Deus que é Pai e nos ama daqui até ao infinito, nos ama como Mãe.

Humano e finito como nós, Jesus sujeita-se às nossas coordenadas espácio-temporais. Não estará para sempre (fisicamente) no meio de nós. Antes, porém, previne e prepara os Seus discípulos, não os deixará órfãos, enviar-lhes-á, de junto do Pai, o Espírito Santo. Anuncia-O e comunica-O: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

A continuidade é assegurada pelo Espírito Santo. A presença de Jesus faz-Se notar. Aos discípulos mostra-lhes as marcas da paixão: as mãos e o lado com as chagas da crucifixão. É Páscoa. Vida nova, ressuscitada! Ele está no meio de nós! Vive em nós e através de nós. Vivamos na Sua paz!

 

3 – A Páscoa, ressurreição de Jesus e ascensão aos Céus, implica-nos, compromete-nos, responsabiliza-nos com a ação missionária. Como víamos no Domingo passado, não podemos ficar a olhar para Céu, pasmados à espera que a vida se resolva. Somos chamados a seguir Jesus, a amar Jesus, a viver Jesus, a testemunhar e transparecer Jesus. Em todos os momentos! Em todas as circunstâncias! Em toda a parte! Onde estiver um cristão está a ressurreição, melhor, há de estar o Ressuscitado e, nessa perspetiva, o modo de agir de Jesus, em dinâmica de amor e de perdão, de doçura e verdade! Ele dá-nos o Seu Espírito de Amor, para nos deixarmos plasmar por Ele, deixando que nos transforme a partir de dentro.

Em dia de Pentecostes, diz-nos São Lucas na primeira leitura, os Apóstolos estão reunidos. Os receios da primeira hora ainda não desapareceram. E, como víamos anteriormente, os discípulos ainda não estavam suficientemente amadurecidos na sua fé, esperando que a manifestação final e última de Jesus transformasse por completo o mundo onde vivemos, possivelmente com a destruição do mesmo e com o surgimento de um mundo novo, diferente! Ao ascender para Deus, a mensagem que volta é do comprometimento com o mundo: Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura, fazei discípulos de todas as nações! Não fiqueis aí a olhar para o Céu, ide, Jesus virá do mesmo modo que O viste partir. Antes, no mistério da Encarnação, veio incógnito, na simplicidade e pobreza da família de Nazaré, homem entre os homens, passando despercebido! Agora está da mesma forma no meio de nós, homem entre os homens, escondido mas presente em cada pessoa que encontramos no nosso caminho.

Nesta missão, que nos identifica com Jesus, a partir do nosso Batismo, da nossa inserção ao Seu Corpo que é a Igreja, não estamos sós, pois Ele nos dá o fogo do Espírito Santo, para que possamos falar e compreender novas línguas, melhor, para que possamos ouvir a linguagem do amor e do perdão e falar do mesmo jeito! Desta forma, a falar a mesma língua nos entenderemos!

 

4 – Na segunda leitura, o apóstolo São Paulo relembra-nos como a ação do Espírito Santo é imprescindível em nós para acolhermos Jesus, para acreditarmos em Jesus, para nos predispormos a integrar o Seu Corpo, como membros, procurando constituir uma só família, um só rebanho. Com efeito, o Espírito Santo que recebemos permiti-nos encontrar Jesus na nossa vida e agir para que a Sua vida e a Sua mensagem continuem a germinar no mundo. É por Ele que fomos/somos salvos. É n'Ele que tudo se renova, aparecendo os novos céus e a nova terra.

O Espírito Santo revela-nos a verdade que há em Cristo, toda a verdade, a verdade que nos salva, nos aproxima uns dos outros e nos faz participantes da vida divina, procurando no tempo e na história deixar marcas que transformem a humanidade. O projeto de Cristo, o sonho de Deus, o reino dos Céus já começou em Cristo Jesus e continua em mim e em ti, comigo e contigo, connosco. Os dons que Deus nos dá só o são verdadeiramente enquanto e na medida em que beneficiam todo o Corpo. Será disfuncional e destrutivo se um membro não "puxar" com todo o corpo!

«Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum... fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo».

 

5 – Nem sempre é fácil colocar-nos sob a mesma sintonia, procurando a mesma paz que nos vem de Cristo, para construirmos um reino fraterno, fundado no amor, na verdade e na justiça. Mas, pelo menos ponhamo-nos a caminho, para que o resquício do "homem velho" vá desaparecendo e o "homem novo" ganhe terreno, e, o que somos pelo Batismo – filhos amados de Deus, irmãos em Jesus Cristo – se efetive e traduza nas nossas palavras e nas nossas obras.

A oração será o primeiro passo para tomarmos consciência da nossa condição de peregrinos e da certeza que Deus age em nós, se essa for a nossa vontade: «Deus do universo, que no mistério do Pentecostes santificais a Igreja dispersa entre todos os povos e nações, derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo, de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho».

O que pedimos com fé corresponda ao nosso propósito, firme, de criar as condições para que se realize!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia: Atos 2, 1-11; Sl 103 (104); 1 Cor 12, 3b-7. 12-13; Jo 20, 19-23.


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