Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo - ano A - 26 de novembro de 2017


1 – Um Rei que vem para servir, que Se assume como Pastor, Irmão, como Filho. Um reino cuja marca registada é o amor, o serviço, a caridade, a atenção e o cuidado aos mais frágeis, aos mais pequeninos. É um Reino frágil pois assenta os seus pilares na bondade, na misericórdia e na ternura. Não tem armas nem exércitos treinados. Não tem mestres nem comandantes. É um reino forte porque não está dependente de negociatas, das circunstâncias sociais, políticas e económicas ou de equilíbrios de poder, não se alimenta para agradar, mas vive para cuidar, sempre, em todas as circunstâncias.

A coroa deste Rei há de ser tecida de espinhos. Melhor, a Sua coroa é tecida de amor, de compaixão, de delicadeza. O Seu trono é uma "abençoada" Cruz. Melhor, a Seu trono é a vontade do Pai. É o Seu alimento, a Sua ligação mais profunda. Por nada Se afasta dos desígnios paternos. É um Rei obediente, até à morte e morte de Cruz. Governa transparecendo as palavras do Pai, as obras do Pai, a Verdade que vem do alto, do Céu e que está inscrita no coração. A sua fragilidade é o amor. A Sua grandeza é o amor que ama, que serve, que se gasta a favor de todos, a começar pelos últimos.

Este é o nosso Rei e Senhor, é Jesus, o Filho Bem-amado do Pai que nos resgata do egoísmo, das trevas e da morte e nos assume como irmãos. Agora temos Pai, não somos órfãos. Nunca mais seremos órfãos. Temos Pai, sabendo que no final de tudo, da nossa vida humana, seremos julgamos pelo Pai, e não por um Juiz desconhecido, estranho, distante, imparcial, frio, vindicativo, seremos julgados pela misericórdia do Pai, através do Filho, no Espírito Santo.

2 – Esse dia, tremendo e sobretudo glorioso, chegará para todos, como um ladrão noturno, como temos vindo a ouvir no Evangelho mateano. Assusta-nos? Sim, todo o fim nos assusta. Vamos andando, mas e depois, o que virá depois? Como será o nosso encontro com o Rei? Será Juiz ou será Pai?

Em Jesus é visível um Deus misericordioso, próximo, misterioso, sempre, mas que vem, que Se aproxima, que Se torna palpável, que Se deixa ver, amar, perseguir, e que até Se deixa matar. Ninguém vai ao Pai senão pelo Filho, no Espírito Santo. A Deus jamais alguém o viu, é o Filho que no-lo dá a conhecer. Quem Me vê, vê o Pai, diz Jesus a Filipe. Vendo o Filho vislumbramos o Pai. Em Jesus não se nota arrogância, prepotência, egoísmo, inveja, sobranceria. Jesus passa bem como um maltrapilho. O filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. Não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela humanidade. Mistura-Se, esconde-Se entre os mais pobres de nós!

Os Seus ajudantes, os Seus ministros (servidores), os Seus seguidores só têm que O imitar. Fazer do mesmo modo. Novamente o lema da nossa Diocese (Lamego) retirado da parábola do Bom Samaritano: Vai e faz o mesmo, faz tu também do mesmo jeito. O Samaritano vê, para, aproxima-se para ver melhor, desce, debruça-se, ajuda, trata das feridas, levanta aquele que está caído como morto, leva-o até um lugar seguro, agrafa outros para dele cuidarem, assegurando-se que será bem tratado.

Em Jesus conhecemos o Pai, pois no-l'O mostra nas palavras, nos gestos, na proximidade, na compaixão e na ternura para com todos. Cabe-nos seguir no Seu encalço e fazer do mesmo modo.

 

3 – A última chamada acontece todos os dias para 175 mil pessoas. Qualquer dia será a nossa vez. Como lidamos com esta certeza? E se fosse hoje o nosso dia? Como estamos a preparar-nos?

Jesus alerta-nos que o Filho do homem virá em glória, com todos os Seus Anjos e todas as nações serão levadas à Sua presença. Será a hora de separar as ovelhas dos cabritos. Nem precisamos de tentar saber quais as perguntas que este Rei de bondade nos fará, pois Jesus di-lo de forma clara. É a fé que nos salva, que nos predispõe para amar, servir e perdoar, dilata o nosso coração para acolher Deus e nos acolhermos ao Coração de Deus. Mas, chegados aqui, não termina o caminho! Está só no começo, em Deus, temos o mundo todo para cuidar. Não é tarefa de um dia. Não é tarefa para uma só pessoa. É para todos os dias, é missão de todos. A mim e a ti cabe começar, semeando migalhas de esperança e de alegria, levando Deus a toda a parte, a todas as pessoas que encontrarmos, a todas as horas do dia.

«Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me». Mas quando é que isso aconteceu? «Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes». Não vivemos às escuras, a luz da fé, a luz de Jesus ilumina o nosso peregrinar.

Em contraponto, se recusarmos a luz que vem de Deus e nos esquecermos da nossa origem e da nossa meta, da nossa missão no mundo e do sentido da nossa vida, então as contas a ajustar serão diferentes: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar». Quando é que isso aconteceu? Quando nos esquecemos de Deus nos irmãos mais necessitados: «Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer».

Antes do fim, que não sabemos quando, existe o tempo que Deus nos dá, confiando-nos os outros e este mundo grande e belo. Não podemos simplesmente ignorar! Estas palavras são para nós, para mim e para ti. Não assobiemos para o lado! Só temos uma vida e não sete como os gatos!

 

4 – Quem vive em Deus nunca está só. É o próprio Jesus que o diz em palavras e com a Sua vida. O Papa Bento XVI, em diversas ocasiões, falou dos santos que não nos deixam sós, fazem-nos companhia, ensinam-nos o caminho, intercedem por nós, atraem-nos para o grupo de amigos de Jesus. São uma maioria – os santos – que garantem a fidelidade a Deus e nos garantem a proximidade de Deus.

O próprio Deus nos dá essa garantia: «Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei de encontrá-las. Como o pastor vigia o seu rebanho, quando estiver no meio das ovelhas que andavam tresmalhadas, assim Eu guardarei as minhas ovelhas, para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram num dia de nevoeiro e de trevas».

É uma vez mais a imagem do Bom Pastor, com as suas preocupações e o seu zelo. É assim Deus. Não deixará à sua sorte nenhuma das ovelhas, pois todas Lhe pertencem. Como os pais em relação aos filhos, em relação ao filho doente, ou numa situação de maior dificuldade, assim Deus cuidará da ovelha que anda ferida, buscará a ovelha que anda tresmalhada, velará pela ovelha enfraquecida. Proverá a que nenhuma se perca, mas todas entrem no redil. E, no final, há de «fazer justiça entre ovelhas e ovelhas, entre carneiros e cabritos».

A Palavra de Deus dá-nos esta certeza, à qual nós respondemos, salmodiando: «Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome. Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo». Se Ele está por nós, quem estará contra nós?

 

5 – Para onde Eu vou, vós sabeis o caminho. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Em casa de Meu Pai há muitas moradas. Vou preparar-vos um lugar, para que onde Eu estou vós estejais também. É a promessa de Jesus! É uma promessa que se funda na Sua realeza, na realeza da Cruz: a vida ninguém ma tira, Sou Eu que a dou pela humanidade. Sabemos o Caminho: a Cruz, a dádiva, a entrega, a compaixão, o serviço, o cuidado, a ternura, a misericórdia, a caridade, o perdão, a partilha solidária, a comunhão fraterna, a proximidade aos mais frágeis.

Ele veio até nós, tão grande que Se fez pequeno, ao ponto de nos lavar os pés! Foi morto! Mas não mataram o Seu amor por nós. Deus sancionou a Sua vida, ressuscitando-O. Primeiro Ele. Depois nós. Como nos diz o Apóstolo São Paulo. «É necessário que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. E o último inimigo a ser aniquilado é a morte. Quando todas as coisas Lhe forem submetidas, então também o próprio Filho Se há-de submeter Àquele que Lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos».

Mas, não esqueçamos, até chegar a nossa vez, é tempo de arregaçar as mangas e deitar mãos às obras, procurando que as palavras e as obras de Deus sejam visíveis nas nossas palavras e nas nossas obras, na nossa voz e na nossa vida. Ao modo de Jesus, o Rei que é Bom Samaritano!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (A): Ez 34, 11-12. 15-17; Sl 22 (23); 1 Cor 15, 20-26.28; Mt 25, 31-46.


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