Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo - 2019


1 – Quem ama não pode senão dar-se, entregar-se, partilhar a vida, gastar-se por aquele ou aqueles que ama. Amar é isso: é encontrar o outro e confiar-lhe a vida, na certeza que o amor nos faz querer o melhor. O amor tende a esgotar-se, não a poupar-se, tende a consumir-se e, consequentemente, ainda que pareça contraditório, a multiplicar-se, a reproduzir-se. O amor gera amor, gera vida como, ao invés, o ódio gera ódio, e a vingança multiplica o mal, provocando a morte do outro, senão fisicamente, pelo menos, dentro de nós.

Ao encarnar, Jesus traz-nos o Amor de Deus, evidenciado neste mistério em que a eternidade passa a caber no tempo, a divindade no humano, a omnipotência na fragilidade, o Infinito no finito, no limitado, na pequenez. Nas palavras e nos gestos, Jesus não faz outra coisa que não seja falar de amor, de bênção, da gratuidade do amor que se dá, inteiramente, sem esperar nada em troca, a não ser uma resposta, no dizer de Bento XVI. Ao sair de Si, dando-Se por inteiro, Deus espera que o Homem, de algum modo, Lhe responda, positiva ou negativamente, mas não com indiferença. Essa resposta, vemo-lo agora, há de ser dada, como nos lembra o nosso Bispo, D. António, para a frente, amando os outros. É este o mistério da Cruz, a verticalidade do amor de Deus que do Céu desce à terra, para nos abraçar como irmãos, para que nos reconheçamos como tal.

Esta é a força e a fraqueza de Deus. O amor. É esta a realeza que hoje celebramos, o amor de Deus para connosco, para que aprendamos a dar a vida uns pelos outros.

 

2 – As vozes zombeteiras desafiam Jesus: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito... Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».

Em nenhum momento se vislumbram em Jesus traços de irritação, de revolta, de inimizade para com a multidão ou para com os malfeitores crucificados com Ele. A suas palavras voltam-nos para o alto, para o Pai, suplicando, mas também intercedendo por nós, pedindo ao Pai que nos perdoe todo o mal que fazemos e todo o bem que, por preguiça, por distração ou por birrice deixamos de fazer.

O trono de Jesus, como se vê, é uma Cruz, a coroa é tecida de espinhos cravados na Sua cabeça, as vestes já foram repartidas pelos soldados. Está despido de roupas, sem fios nem anéis nem adornos, está revestido de humanidade. É visível a inscrição: «Este é o Rei dos judeus». Para alguns mais um motivo de chacota ou irritação pelo gesto de Pilatos que, de algum modo, quis "compensar" a fraqueza em travar a condenação.

Amar é querer bem ao outro, é dar-se, é perder-se para que o outro seja salvo. A sociedade do nosso tempo, de uma forma clarividente, mas visível também em outras épocas e civilizações, preza muito o "salve-se a si mesmo". Daí se conclua com facilidade que o contrário de amor não é o ódio, mas o egoísmo. O ódio, como sabemos, tem as marcas do amor, do amor invertido, ferido, doente, atraiçoado. Amar é querer que o outro se sinta e seja feliz. No amor predomina o outro, o tu, o nós. No egoísmo, só conta o “eu”, endeusado. O egoísmo é fazer tudo para que os outros me façam feliz. As coordenadas do coração são amar e ser amado. O equilíbrio pode não ser fácil, mas alguém terá que tomar a iniciativa. Ora Deus faz isso connosco, toma a iniciativa de nos amar totalmente, antes de tudo, sem antecipar a nossa resposta.

Até ao fim. Até à eternidade.

 

3 – Um dos malfeitores, crucificado com Jesus, tem o timbre do egoísmo e do escárnio: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».

Mas o outro afina pela justiça, pela verdade, pela compaixão: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável».

E, por outro lado, percebe a soberania d'Aquele que está na Cruz, crucificado por inveja: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».

A esta esta oração suplicante, Jesus responde com uma certeza: «Hoje estarás comigo no Paraíso».

Por certo, será a mesma resposta que hoje Jesus nos dá, se também hoje quisermos estar com Ele no paraíso e deixar que a Sua realeza se manifeste na nossa vida.

 

4 – "Hossana ao Filho de David! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!" Aclamação das multidões que entram com Jesus em Jerusalém no início da semana em será condenado à morte e crucificado. O ideal da realeza vem de longe, a nostalgia de um reinado justo remonta ao grande Rei David e, que alguns já vislumbram, em Jesus.

David torna-se Rei de Israel, unindo todas as tribos, todo o povo. A valentia, mas também a sabedoria e o amor que David tinha demonstrado a favor do povo, além da proximidade ao Senhor, fazem dele o eleito para ocupar a realeza.

David não se impõe, são as tribos de Israel que lho pedem: "«Nós somos dos teus ossos e da tua carne. Já antes, quando Saul era o nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. E o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás rei de Israel’». Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron. O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor e eles ungiram David como rei de Israel".

O salmo que hoje nos é proposto, por sua vez, sublinha a alegria de subir a Jerusalém, a cidade de David, ali se faz justiça nos tribunais da casa de David. David nunca se esquecerá que a sua realeza assenta em Deus. O seu pastoreio é derivado, só o Senhor é o seu Pastor.

 

5 – A soberania de Jesus é pintada de paixão e de misericórdia, de vida partilhada, dada, entregue, de amor esbanjado por nós, por mim e por ti, e por todos, não às prestações, não com reservas, mas inteiramente. O poder da sua realeza é o Seu amor e a Sua ternura, por mim e por ti, por nós, por todos.

O Apóstolo sublinha a reconciliação "ecológica"; a humanidade e a criação inteira residem agora na Sua plenitude. "Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados".

Em Jesus, torna-Se visível o amor do Pai. "Cristo é a imagem de Deus invisível, n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e para Ele tudo foi criado. Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo subsiste".

É uma soberania que se revela também na Igreja. "Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus".

Como discípulos missionários, cabe-nos partilhar a soberania de Jesus, fazendo com que a realeza do Seu amor se espalhe por todo o mundo e chegue a todas as pessoas. Para isso, teremos que O imitar, no amor, na compaixão e na bondade, no serviço e no cuidado aos irmãos. Sempre. Sem reticências!

 

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (C): 2 Sam 5, 1-3; Sl 121 (122); Col 1, 12-20; Lc 23, 35-43.


Todos os direitos reservados © PARÓQUIA DE TABUAÇO 2017
Realizado por Terra das Ideias

Política de Privacidade