Solenidade da Santíssima Trindade - ano B - 27 de maio de 2018


1 – Como cristãos, iniciamos as orações, as celebrações, os encontros com a invocação da Santíssima Trindade. Do mesmo modo concluímos, ora suplicando, ora agradecendo, ora louvando, ora invocando a graça, a benevolência, a bênção de Deus, Pai e Filho e Espírito Santo. A primeira impressão é que estamos perante um mistério, e um mistério que escapa à nossa compreensão. É isso que o diferencia de um segredo! Este desvenda-se quando é revelado. O mistério acolhe-se, vive-se, reza-se, enquadra-se nas escolhas que fazemos, e também se racionaliza, mas continua a ser mistério. Jesus é o Logos (Verbo, verdade, Palavra, razão, Sabedoria do Pai), é Luz que nos guia, que clarifica o mistério de Deus, que traz Deus até nós tornando-O acessível, visível à história e ao tempo.

Quem Me vê, vê o Pai! Eu e o Pai somos Um! Ninguém vai ao Pai senão por Mim! Eu vou para o Pai e vou enviar-vos o Espírito Santo, o Paráclito, o Espírito de Verdade que vos revelará toda a verdade, Ele vos recordará o que Eu vos disse, «Ele não falará por Si próprio, mas há de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há de vir. Ele há de manifestar a Minha glória, porque receberá do que é Meu e vo-lo dará a conhecer. Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: ‘Receberá do que é Meu e vo-lo dará a conhecer’» (Jo 16, 13-15). Nos capítulos finais do evangelho de São João (14,15,16), Jesus explicita as interações entre as três Pessoas da Santíssima Trindade.

O prefácio da Eucaristia para este dia assume as palavras de Jesus: «Com o vosso Filho Unigénito e o Espírito Santo, sois um só Deus, um só Senhor, não na unidade de uma só pessoa, mas na trindade de uma só natureza. Tudo quanto revelastes acerca da vossa glória, nós o acreditamos também, sem diferença alguma, do vosso Filho e do Espírito Santo. Professando a nossa fé na verdadeira e sempiterna divindade, adoramos as três Pessoas distintas, a sua essência única e a sua igual majestade».

O mistério da Trindade santíssima é visualizável na vida e na missão de Jesus Cristo. Basta olhar para Ele, acreditar n'Ele, segui-l'O, amá-l'O, vivê-l'O, transparecendo-O, para estarmos por dentro do mistério trinitário, ou melhor, para a vida divina nos apossar com a Sua presença e com a Sua graça misericordiosa.

 

2 – Deus é Amor. Quem ama a Deus permanece no amor e Deus permanece nele. Se Me amardes guardareis os Meus mandamentos. Então permanecereis no Meu amor. E quem Me ama será amado por Meu Pai e Eu amá-lo-ei (cf Jo 14, 15-21). Então apelarei ao Pai que vos enviará outro Paráclito, o Espírito da Verdade. Não vos deixarei órfãos.

Ao longo da Sua vida, Jesus vive em dinâmica de doação, de entrega, de serviço, de cuidado aos outros, de atenção aos mais desfavorecidos, mulheres e publicanos, crianças e estrangeiros, pecadores e doentes (surdos, mudos, leprosos, coxos, cegos, endemoninhados). Este é o mistério da Trindade: o amor levado ao limite do possível, até ao último fôlego; oferecido, em sacrifício, eternizando-o, confiando a Deus Pai. A finitude e a fragilidade humanas, os limites do tempo e do espaço são integrados no Infinito, na eternidade de Deus, são elevados às alturas, ressuscitam com Jesus Cristo!

Deus é Amor! Este é o mistério da Santíssima Trindade! Deus são três Pessoas! Faz parte do ser-pessoa a relação com os outros e com o mundo. É o que nos revela Jesus: o amor de Deus que Ele concretiza com a Sua vida. Deus é mistério, mas é um mistério que em Cristo Se revela, Se dá, amando-nos! Será impossível saber quem é Deus em Si mesmo! Mas também é impossível saber quem é cada pessoa em si mesma! Conhecemo-nos pelo que revelamos, pelo que dizemos e pelo que fazemos (ainda que sejamos mais do que isso)! É também assim que conhecemos Deus, através da Sua Palavra, Jesus, Deus humano, e em Jesus é visível o amor de Deus. Ser assumidos pelo mistério da Santíssima Trindade é deixar-se conduzir e enformar pelo amor como oblação, entrega, serviço, mas também como amizade, como partilha e como comunhão, integrando as diferenças e a identidade de cada um!

 

3 – A oração (de coleta) da Eucaristia predispõe-nos para a nossa profissão de fé trinitária: «Deus Pai, que revelastes aos homens o vosso admirável mistério, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito da santidade, concedei-nos que, na profissão da verdadeira fé, reconheçamos a glória da eterna Trindade e adoremos a Unidade na sua omnipotência».

Professar a fé implica vivê-la. Não se trata de acreditar em algo, trata-se de acreditar e confiar em Alguém e querer que a Sua vida seja visível também na nossa! Queremos identificar-nos com Aquele que amamos ou, no mínimo, fazermos o que está ao nosso alcance para Lhe agradarmos! Vale na nossa relação com Deus, mas também vale na nossa relação com os outros!

Como o Pai me amou, também Eu vos amei! Como o Pai me enviou também Eu vos envio! «Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

A resposta ao amor de Deus, que nos inclui na Sua família – somos Seus filhos no Filho Jesus – faz-se para a frente, amando os nossos semelhantes, levando-lhes alento e conforto, ajuda e esperança. "Amor com amor se paga" (São João da Cruz). Ao amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, no mistério da Cruz, havemos de Lhe responder amando-O, mas amamo-l'O se e quando amamos todos os Seus filhos, a começar pelos que estão perto.

 

4 – Deus, no Seu Amor Infinito, criando-nos por amor, nunca esteve nem está longe de nós. Em Jesus Cristo, Deus fica tão mais próximo que Se torna Um connosco, da mesma carne que nós! Mas ao longo da história da salvação, entranhada na história humana, Deus manteve-Se perto, enviando sinais, revelando-Se nos acontecimentos do tempo, chamando e enviando mensageiros, juízes, profetas e reis, para descobrir caminhos, para apontar direções, para construir pontes, para gerar comunidades, para formar um Povo em que todos se tornassem irmãos e tivessem assento à volta da mesma mesa.

Moisés relembra isso mesmo ao Povo. «Que povo escutou como tu a voz de Deus a falar do meio do fogo e continuou a viver? Qual foi o deus que formou para si uma nação no seio de outra nação, por meio de provas, sinais, prodígios e combates, com mão forte e braço estendido, juntamente com tremendas maravilhas, como fez por vós o Senhor vosso Deus no Egipto, diante dos vossos olhos?»

O questionamento de Moisés expressa a fidelidade de Deus, mostrando que o cumprimento dos mandamentos visa a felicidade e a vida: «Cumprirás as suas leis e os seus mandamentos, que hoje te prescrevo, para seres feliz, tu e os teus filhos depois de ti, e tenhas longa vida na terra que o Senhor teu Deus te vai dar para sempre».

Podemos ter tiques de adolescência no que a regras, normas e compromissos diz respeito, entendendo que nada nos deve impedir de fazermos o que nos der na real gana, mas vamos percebendo que as leis são orientações que recolhem a sabedoria dos nossos antepassados e dos nossos conterrâneos e que nos permitem avançar seguros por um caminho integrador, inclusivo, promotor da vida e da dignidade. Muito mais quando estas leis se regem pela verdade, pela vida, pelo bem (comum), inspiradas na oração e na fidelidade ao eterno Deus.

 

5 – Vivendo em sociedade, estamos sujeitos às suas leis, que resultam de consensos, de maiorias, da consulta popular, da interpretação do bem comum e/ou da vontade das pessoas, que se enquadram na cultura, com as suas tradições e com os seus costumes.

Todavia, como cristãos, não sendo do mundo mas estando no mundo, não devemos perder de vista tudo quanto Jesus nos disse, tudo quando vimos fazer a Jesus. É Ele mesmo quem no-lo diz: vai e faz tu também do mesmo modo! É isso que nos relembra o Apóstolo, dizendo-nos que «todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas o Espírito de adoção filial, pelo qual exclamamos: «Abá, Pai». O próprio Espírito dá testemunho, em união com o nosso espírito, de que somos filhos de Deus. Se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo; se sofrermos com Ele, também com Ele seremos glorificados». Por outras palavras, tudo quanto fizermos seja para louvor e glória de Deus, e a glória de Deus é o homem vivo, é a vida em abundância. Morramos com Cristo para o pecado, para o egoísmo, para o mal, e com Ele ressuscitemos para o bem, a verdade, o serviço compassivo a todos, especialmente aos mais frágeis.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano B): Deut 4, 32-34. 39-40; Sl 32; Rom 8, 14-17; Mt 28, 16-20.


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