Solenidade da Páscoa do Senhor Jesus - 1 de abril de 2018


1 – Jesus é a nossa Páscoa. A vida toda se encaminha para este grande e admirável mistério da nossa salvação. Tudo acontece e tudo parte da Páscoa de Jesus, da Sua paixão redentora, da Sua ressurreição e ascensão aos Céus, para junto do Pai, que Ele nos revela e que n'Ele e por Ele Se nos dá na oferenda do Seu corpo, da Sua vida por inteiro.

É o grande Dia, o Dia do Senhor, da Vida Nova que germina, florescendo e frutificando! A morte, diante da Ressurreição, é, afinal, um momento provisório. Sério, intenso, dramático, desolador, mas ainda assim passageiro, momentâneo, pois o que é definitivo é a vida, a vida em Deus. Se tudo tivesse ficado naquele sepulcro, onde 40 horas antes foi depositado, então a dispersão seria completa, a vida incompleta, o vazio encheria e destruiria a esperança que n'Ele muitos colocaram. Veja-se como os discípulos de Emaús falam a Jesus, sem saberem que é Ele, da Sua morte e da destruição dos sonhos que começavam a ter! Tristes e acabrunhados, regressam a casa, cabisbaixos, desolados com os acontecimentos dos últimos dias. Há três dias que foi morto, algumas mulheres revelaram que lhes apareceu, mas deve ser mais a vontade (que Ele esteja vivo) do que a veracidade!

Depois do sábado, dia sagrado para os judeus, Maria Madalena, na versão joanina, ainda escuro, vai ao sepulcro, vê a pedra retirada e imediatamente corre para avisar Sião Pedro e o discípulo amado: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». A desolação continua! Pedro e o discípulo amado correm para ir ver o que aconteceu. Ao entrarem no túmulo e, vendo a disposição das ligaduras e do sudário, percebem que algo de extraordinário aconteceu, conforme o Mestre predissera e segundo as Escrituras, Jesus já não Se encontra no túmulo, mas está vivo, ressuscitou!

 

2 – A condenação de Jesus, a Sua crucifixão e a Sua morte são geradoras de dispersão, de abandono, de desolação. A Sua Páscoa, a ressurreição de entre os mortos, algo de inusitado e ao alcance somente de Deus – «A ressurreição é um acontecimento dentro da história, que, todavia, rompe o âmbito da história e a ultrapassa» (Joseph Ratzinger/Bento XVI) –, gera conforto, alegria, esperança, gera comunidade e encontro.

Na estrada de Emaús, os dois discípulos expressam bem o desconforto que provocou a morte de Jesus, as esperanças que n'Ele tinham depositado e como tudo se esboroou! Com o Seu regresso ao convívio dos vivos, a proximidade, os elos que ligavam os discípulos, a motivação para estarem juntos regressa em força. Claro que nem tudo foi desperdício, pois, como se vê, os discípulos mantêm alguns laços, talvez garantidos pela presença de Maria, a Mãe de Jesus, em casa do discípulo amado. Perante a sua perda violenta, o conforto dos amigos de Seu Filho Jesus. Nas últimas palavras na Cruz, Jesus dá-nos Maria por Mãe, e faz-nos filhos d'Ela, para A recebermos em nossa casa, na nossa vida.

Neste primeiro dia da nova criação, o Dia do Senhor (= Domingo), cada passo nos aponta a comunidade, tudo nos conduz a Jesus. Procuramos agora rever e reatualizar o que antes nos tinha dito com as Suas palavras, gestos e prodígios! Maria Madalena (na versão joanina) vai sozinha ao túmulo, mas logo regressa ao encontro dos discípulos, Pedro e discípulo amado. Por sua vez, os dois correm juntos... juntos devem caminhar os discípulos... O outro discípulo, porém, antecipou-se, pois corria mais depressa, mas aguardou a chegada de Pedro, deixando que este entrasse primeiro. Pedro precisa de retomar o fôlego, retemperar a sua postura, de emendar a sua negação. Cada um de nós tem o seu próprio ritmo, caminhamos em conformidade com as nossas forças e com as nossas limitações, mas ainda assim não devemos dispersa-nos dos outros. O discípulo amado espera à porta do túmulo. Até à morte, até ao sepulcro, as distâncias podem centuplicar-se, mas da morte à vida, tornamo-nos, em definitivo, discípulos e somente com os outros passaremos além da morte!

 

3 – Pedro corre atrás do prejuízo! Comprometeu-se com muito – eu não, eu não Te negarei – mas quando chegou a hora do aperto, sacudiu a responsabilidade – eu não, eu não conheço Esse Homem! Não uma, nem duas, mas três vezes! Ele e o discípulo amado iniciaram juntos o percurso, mas Pedro "perdeu-se", negou-se e negou o Mestre. Precisa agora de tonificar os músculos, sobretudo o coração, reintegrando-se na comunidade.

Quando Jesus aparece aos discípulos à beira do lago, há de lhe perguntar pelo amor, pela fidelidade no amor, pela firmeza em amar! A consistência da sua pregação vem-lhe da confiança em Jesus, do amor a Jesus, da proximidade a Jesus. A ressurreição não deixa margem para as trevas ou para a hesitação, para as dúvidas ou para a inconstância: «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n'O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se».

A identidade de Jesus, morto e ressuscitado, compromete cada um de nós, compromete Pedro, Tiago e João, compromete-me a mim e a ti! Cada um com a sua missão e com a sua responsabilidade. Os primeiros enviados são precisamente aqueles que com Ele partilharam a refeição, que comeram e beberam com Ele, pois são testemunhas privilegiadas porque O acompanharam na história e nos caminhos da Judeia, da Galileia e da Samaria. Por conseguinte, depois da Ressurreição, Jesus envia-os a «pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos».

Agora é connosco, também nós comemos com Ele, melhor, nós comungamos o Seu Corpo e Sangue e, por conseguinte, tornámo-nos testemunhas e, nessa condição, somos enviados a pregar, em palavras e obras, a todas as pessoas que encontrarmos, em todo o tempo e em todos os lugares.

 

4 – O mistério pascal, morte e ressurreição de Jesus, redime-nos de todo o pecado e de todo o mal, através da ação do Espírito Santo na Igreja e nos Sacramentos, desde logo, no do Batismo, pelo qual fomos sepultados com Cristo, para com Cristo sermos novas criaturas.

Jesus morreu de uma vez para sempre e ressuscitou. Porém, Ele quis ficar connosco, no memorial da Eucaristia e da Igreja, para que sempre que fizermos o que Ele faz, seja Ele a oferecer-Se por nós ao Pai, a oferecer connosco a nossa vida e a fazer-nos Seu Corpo! Incorporados n'Ele possamos com Ele levedar toda a massa, todo o mundo.

O Apóstolo São Paulo, nas duas leituras propostas, uma em alternativa à outra, recorda-nos como fomos (somos) salvos em Cristo e reintroduzidos na vida divina, pelo que devemos procurar viver segundo a nossa nova identidade. «Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória». Ainda estamos a caminho, porquanto caminhamos para irmos tomando as feições de Cristo e assim nos habituarmos a viver em ambiente de vida eterna!

É necessário purificar-nos do velho fermento, deixando que o Pão vivo que é Cristo nos purifique de toda a malícia e perversidade. Celebremos a festa «com os pães ázimos da pureza e da verdade». É um caminho de vivência e de santificação permanente, plenizado no dia em que seremos levados à Sua presença na eternidade do Pai.

 

5 – Em auxílio da nossa fragilidade, das nossas dúvidas e hesitações, a inspiração do Espírito Santo que reza connosco ao Pai: «Senhor Deus do universo, que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito, vencedor da morte, nos abristes as portas da eternidade, concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida».

A oração dilata o nosso coração, compromete-nos com a súplica que fazemos, isto é, predispõe-nos a agir em conformidade com o que pedimos.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia: Atos 10,34a.37-43; Sl 117 (118); Col 3,1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8; Jo 20,1-9.


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