Solenidade da Epifania do Senhor - ano C - 6 de janeiro de 2019


1 – Na Sua sabedoria e misericórdia, Deus enviou ao mundo o Seu Filho Unigénito. Fazendo-Se Carne no seio virginal de Maria, Jesus veio para nos assumir por inteiro, assumindo a nossa condição finita e mortal, a nossa fragilidade e o nosso sofrimento, manifestando-Se na história, com as suas dores e esperanças, com as suas lutas e sucessos, com as suas perdas e tristezas, com as suas buscas e os seus desencontros. E assumindo-Se como Homem, tornou visível, em Si mesmo, o Rosto do Pai, deixando-Se ver, amar, tornando-Se acessível, mesmo que mantendo o mistério que nos trouxe do Céu. Os primeiros a vê-l'O e a adorá-l'O foram os simples, Maria e José, os pastores, as pessoas mais insignificantes do povo. Os pobres. Agora é necessário que nos façamos pobres para também O encontrar, para também O reconhecermos.

Quem Me vê, vê o Pai. A simplicidade, a abertura do coração, a humildade da procura, feita silêncio e oração, é possível a todos. Os Magos vindos do Oriente, dos confins da terra, estranhos, desconhecidos, estrangeiros, mostram que é possível encontrar Jesus, com abertura da mente e do coração, deixando-se interpelar pelos sinais que Deus vai deixando no próprio universo, deixando-se guiar por uma luz que vem do alto, que vem de Deus, e que os guia até Àquele Menino.

Vale a pena meditar nas palavras do Cardeal Robert Sarah: «A pobreza corresponde a uma ideia que Deus tem do homem. Deus é pobre e ama os homens pobres. E Deus é pobre porque Deus é Amor, e o Amor é pobre. Aquele que ama só pode ser feliz numa total dependência da pessoa amada. Deus é pobreza absoluta; n'Ele não há vestígios de posse. A pobreza é um sinal de amor. Ela liberta-nos de tudo o que nos pesa e trava a nossa marcha para o essencial. Na pobreza ficamos absolutamente dependentes do outro». Os Magos desprendem-se do que têm e da ciência que possuem para ir ao encontro de Jesus, o pobre de Nazaré, nascido numa gruta em Belém, no espaço da casa reservado aos animais! Para os Magos, a ciência e a sabedoria não são um empecilho, mas uma oportunidade e um compromisso.

 

2 – Os Magos transparecem atitudes que, como cristãos, convém ter sempre presente:

  • atenção aos sinais do tempo, ao que nos rodeia, aos sinais que despontam no horizonte. Não basta olhar para o seu mundo, para o seu umbigo, mas em redor, olhar para o alto!
  • Decisão. Não basta querer ou saber, é necessário agir em conformidade com o que se sabe e com os desafios propostos.
  • Perguntar. Os sinais podem ser eloquentes, mas nem todos os sinais nos conduzem ao bem e à verdade. Perguntar pode ajudar a clarificar dúvidas, dissipar incertezas, corrigir direções.
  • Seguir as convicções. Perguntar sim, mas quando as informações são contraditórios ou duvidosas, há que prosseguir, confiando-se ao Senhor, na oração e na entrega.
  • Retomar o caminho. Muitas luzes e confusão, muitas vozes e agitação, podem desviar-nos dos nossos bons propósitos e do encontro, no silêncio e na oração, do encontro com o Senhor Deus, no nosso coração. Há que voltar a procurar o silêncio e a luz, e o Rosto de Deus, além de todas as adversidades e contradições.
  • A alegria do encontro. Quando encontramos o nosso amor maior, façamos d'Ele amor único e então será grande a nossa alegria. Um amor único permite-nos recentrar a vida no essencial, permite-nos dar qualidade a tudo o que fazemos. É a experiência dos pais. Até essa altura eram felizes os dois, a partir do nascimento de um filho tudo se modifica e tudo faz mais sentido e é feito com mais alegria, também o trabalho, as canseiras e as dores!
  • Diante do mistério, não há muitas palavras. Há a adoração, a oração e o silêncio. Assim os Magos quando se encontram diante do mistério, quando veem o Menino e Sua Mãe. Prostram-se, adoram-n'O. Não há outra atitude.
  • A Deus não damos momentos, tempos, algumas coisas. A Deus, tudo ou nada. É certo que estamos a caminho. É o caminho da santidade. Mas o ponto de partida é dar-nos por inteiro, como Ele fez por nós, assumindo-nos, carregando os nossos sofrimentos, e entregando-Se até à morte e morte de Cruz. Os magos dão a Jesus as suas maiores riquezas.
  • Ouro, Incenso e Mirra. Realeza, Divindade e Humanidade. Deus exerce a Sua realeza assumindo a nossa humanidade.
  • A adoração (a oração diante) do Menino transforma-os, e a nós também. Podemos regressar à nossa vida anterior, a nossas casas, às nossas famílias, ao nosso trabalho, mas por outro caminho, com outro olhar, com outra atitude. Quem se deixa plasmar pela graça de Deus deixará que Ele faça novas todas as coisas, mesmo as coisas antigas.

 

3 – O encontro com Jesus gera conversão e vida nova. Implica-nos, faz-nos mendigos, faz-nos pobres, despojados, humildes, sem artifícios nem máscaras. Os magos voltam por outro caminho. Encontraram uma Luz maior que os transforma.

Na primeira leitura, surge o mesmo desafio a toda a comunidade: “Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. Vê como a noite cobre a terra e a escuridão os povos. Mas, sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina. As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços. Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações. Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá. Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando as glórias do Senhor”. O desafio e a promessa cumprem-se com o nascimento de Jesus, adorado pelos Magos que vem de toda a parte, representando toda a humanidade que caminha para o Senhor, adorando-O.

A adoração terrena levar-nos-á à contemplação gloriosa na eternidade de Deus, como rezamos: “Senhor Deus omnipotente, que neste dia revelastes o vosso Filho Unigénito aos gentios guiados por uma estrela, a nós que já Vos conhecemos pela fé levai-nos a contemplar face a face a vossa glória”.

 

4 – A proximidade de Deus significa salvação, vida, ressurreição, que nos envolve e nos compromete. Chamados e enviados em missão. O salmo faz-nos levantar o olhar, o coração e a vida para Deus, agradecendo e suplicando, louvando e glorificando-O por tantas maravilhas com que continua a prendar-nos. 

Diante de Deus, o mistério do silêncio, da oração e da adoração: “Florescerá a justiça nos seus dias e uma grande paz até ao fim dos tempos. Ele dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra. Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes, os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas. Prostrar-se-ão diante dele todos os reis, todos os povos o hão de servir. Refrão Socorrerá o pobre que pede auxílio e o miserável que não tem amparo. Terá compaixão dos fracos e dos pobres e defenderá a vida dos oprimidos”.

Com Jesus, com a Sua vida, morte e ressurreição, o mistério é-nos desvelado. Ele cumpre cabalmente as promessas feitas ao Povo Eleito. Com efeito, recorda São Paulo, “já ouvistes falar da graça que Deus me confiou a vosso favor: por uma revelação, foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo. Nas gerações passadas, ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens como agora foi revelado pelo Espírito Santo aos seus santos apóstolos e profetas: os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho". A salvação é para os Pastores e para os Magos. É para mim e para ti. De quê precisamos? De abrir os olhos e o coração para acolhermos o mistério de Deus que Se revela na Palavra proclamada, nos Sacramentos, especialmente da Eucaristia, e no serviço aos irmãos.

 

5 – Ou como Herodes, podemos ficar no nosso palácio, no nosso canto, no nosso mundo e deixar que outros atuem, que outros vão ver. Como ele, podemos ficar na sombra, escondidos, com medo do bem e da luz, prontos a destruir qualquer "brilho" de bem, de verdade e de justiça.

A opção é nossa. Deus, em Jesus Cristo, salva-nos. E nós, acolhemos ou recusamos a salvação que Ele nos dá?

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Is 60, 1-6; Sl 71 (72); Ef 3, 2-3a. 5-6; Mt 2, 1-12.


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