Solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu - ano A - 15 de agosto de 2017


1 – O que não mata engorda. O que não nos derruba fortalece-nos. O que nos nos liga no tempo e na história, ligar-nos-á, por vontade de Deus, na eternidade. Deus precede-nos chamando-nos à vida, para vivermos em comunhão com Ele. Família que se alarga e se aprofunda. O amor gera vida. O Amor de Deus explode e cria o universo, a humanidade. Deus cria-nos, como diria Bento XVI, para a grandeza e para a beleza, como filhos bem-amados, para sermos e nos sentirmos em casa e cuidarmos uns dos outros e do mundo que nos envolve.

Os nossos pais querem o melhor para nós. Sempre. A não ser que se esqueçam de ser pais. Como poderia Deus deixar de ser Pai? Como poderia Deus, que é Pai e é mais Mãe (João Paulo I), deixar de nos amar? Poderia inverter os seus desígnios de amor e destruir a obra das suas mãos? Poderia, mas então seria um Deus preservo, um Pai pouco Mãe, mais juiz que Pai, mais tutor que familiar!

A liberdade com que Deus nos criou engrandece-nos e responsabiliza-nos. Não somos, em definitivo, marionetas nas Suas mãos, somos autónomos, com a capacidade de fazer escolhas e, dessa forma, a vida é dom, porque a recebemos, e tarefa a cumprir, pois cabe-nos decidir sobre o que somos e o que queremos ser, além e apesar de todas as condicionantes e circunstâncias. Às vezes dói, porque nem tudo é como sonhamos. Dói àqueles que nos geraram para a vida e para a felicidade, porque nos veem sofrer e pouco podem fazer. Não nos podem substituir. Se assim fosse, a vida não era nossa, mas deles. O mesmo de Deus se Ele nos substituísse nas dificuldades.

Porém, como os nossos pais, também Deus não desiste de nós. Nunca. Nunca desiste da humanidade por mais cambalhotas, pecados e distanciamentos que esta possa provocar. Não desiste de fazer tudo o que Lhe é possível, sem ferir a nossa liberdade, as nossas opções. Envia mensageiros, profetas e juízes, réis e sacerdotes. Dá-nos o Seu próprio filho, envia-no-l'O para caminhar connosco. Aqui entra Maria e José, família sagrada que acolhe, protege e guarda Jesus.

 assuncao

 

2 – A solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu – verdade de fé confirmada pelo Papa Pio XII, a 1 de novembro de 1950, a partir da sensibilidade, do sensus fidei, do povo de Deus, que há muito considerava que Àquela que acolheu o Filho de Deus, gerando-O e dando-O ao mundo, sem nunca se desligar do filho, teria que estar onde está o filho, na eternidade do Pai, sem experimentar, nem no início (Imaculada Conceição) nem no fim (ressurreição, Assunção) a corrupção do corpo – celebra a certeza que Deus não desiste de nós e não nos quer perder nem no tempo nem na eternidade.

Jesus, o Filho bem-amado do Pai, encarna, é enxertado na história, com a fragilidade e as limitações espácio-temporais, para caminhar connosco e nos fazer caminhar com Ele, faz-Se humano para nos fazer participar em definitivo na vida divina. No Sacramento do Batismo sublinhamos precisamente esta inserção a Cristo, esta participação na vida divina.

Sem forçar, Deus conta connosco. Desafia Maria e espera a sua resposta. Ao responder ao chamamento de Deus, Maria torna possível um novo avanço na Aliança de Deus com o Seu povo. Já não mensageiros, já não à distância, mas na própria carne humana. Deus torna-Se, com propriedade, Emanuel, Deus connosco.

O Sim de Maria compromete-a e compromete-nos. É um SIM que se traduz em muitos sins, repetidos, atualizados, renovados, novos. A vida também é assim, quem diz sim, di-lo para cuidar, para proteger, para servir. Não se ama num sim que se esvai na memória, ama-se num sim que se renova em gestos, em palavras, em cuidado e ternura, e nas carícias do olhar e do sorriso, do beijo e do afago e do abraço. É essa a resposta de Jesus a uma mulher que o interpela – «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito» – «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 27-28).

 

 

3 – O privilégio de Maria não é meramente pessoal, mas instrumental, na medida em que visa a salvação da humanidade inteira. E Jesus, em Maria, Sua e nossa Mãe, dá-nos as credenciais, a matriz, para podermos almejar a felicidade: escutar a Palavra de Deus a pô-la em prática, como escutávamos no Evangelho da vigília. E, desse jeito, a pertencer-Lhe: minha Mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade de Deus. Maria cumpre no primeiro sim e cumpre em cada momento da sua vida como se vislumbra no Evangelho desta solenidade.

Depois da anunciação a Maria e da Sua resposta a Deus, através do Anjo, Ela corre veloz para a montanha, em direção a Ain Karin, cidade da Judeia onde vive a Sua prima Isabel. E aqui pode visualizar-se a missão primeira de Maria: dar-nos Jesus, envolver-nos na alegria da salvação. Isabel interpreta essa alegria: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».

Maria é a Aurora da Salvação, a Estrela da Manhã que antecipa a chegada do Messias de Deus. Nela transparecem as maravilhas do Senhor e se preanuncia a última palavra: Deus e a Sua misericórdia para com todos. No belíssimo hino, o Magnificat, Maria remete-nos para a Aliança de Deus com o Seu povo e para as obras prodigiosas que realizou ao longo do tempo, vislumbrando-se também nesta oração a opção preferencial pelos pobres, pela humildade, pelo serviço ao outro. Ela é a nova Arca da Aliança. David com todo o mundo dançou e cantou pela chegada da Arca da Aliança. O coração de Isabel dança de alegria pela chegada de Maria, porque n’Ela está em gestão a Nova Aliança, o Filho do Deus Altíssimo.

Mas na Visitação também se insinua o serviço, o cuidado e a atenção de Maria.

 

4 – A vida eterna inicia com a vida terrena. Não há quebras, ainda que haja novidade. A vida é gerada desde sempre para não se perder. Essa é a vontade de Deus e de quem ama. Quando se ama quere-se que perdure o amor, a pessoa amada e a ligação, fortalecendo-se constantemente.

Jesus precede-nos como primícias (as primícias são os primeiros frutos da terra). Ele ressuscita primeiro, depois nós. Em Maria, começa-se a cumprir a promessa. Ela é assumpta por Deus para sempre. Ela que nunca Se afastou de Jesus, até ao Seu último suspiro, é elevada para junto d'Ele na eternidade, no coração do Pai. Para nós fica a postura de Jesus em todo o tempo: alimentar-Se da vontade e da presença do Pai. Para nós fica o exemplo de Maria: em tudo procurar enaltecer as maravilhas do Senhor, dando Jesus, apontando para Jesus: Fazei tudo aquilo que Ele vos disser. É feliz todo aquele que escutar a Palavra de Deus e a traduzir em vida, em serviço, em amor, em ternura. Assim, inicia no tempo o que será na eternidade: a comunhão plena com Deus.

Com fé, rezemos para que Deus, que elevou «à glória do Céu em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria» nos conceda «a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória».

Com os olhos fitos em Jesus e na Bem-aventurada Virgem Mãe, com os pés bem assentes neste chão e nesta terra, com o coração bem ligado à vida e aos outros, com as mãos livres para abençoar, para abraçar, para trabalhar, para levantar; para acolher (a bênção e os dons de Deus) e para partilhar (tudo quando recebemos de Deus como dom, para que se multipliquem na dádiva); com as mãos livres e estendidas para Deus, com as mãos abertas e libertas para os irmãos.

 

Pe. Manuel Gonçalves


Textos para a Eucaristia: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45); 1 Cor 15, 20-27; Lc 1, 39-5.


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