Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria - 2018


1 – «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre».

A solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, em corpo e alma, dogma católico, proclamado pelo Papa Pio XII, com a Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, a 1 de novembro de 1950, consagra uma verdade de fé reconhecida, aceite e professada, desde o início, pelas comunidades cristãs. Esta verdade de fé, como outras, está enraizada na fé mais popular, simples, genuína do povo de Deus, sancionada com a reflexão teológica e sob o magistério da Igreja.

As primeiras palavras que aparecem nos Evangelhos referidas a Maria falam-nos que Ela é a cheia de Graça e que o Senhor está com Ela. É a saudação do Anjo. No encontro com Isabel a saudação é semelhante, mas desta feita incluindo já Jesus: bendita és tu, bendito é o fruto do teu ventre! Neste encontro sobrevém a alegria do encontro com Jesus e o primeiro anúncio da proximidade do Filho de Deus. A fé é a chave que nos possibilita a busca, a descoberta e o encontro com Deus. «Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».

N'Ela, como em nós, o fim está incoativamente presente no início e ao longo da vida, em conformidade com as escolhas feitas. Se escolhemos, dentro das nossas limitações e fragilidade, fazer a vontade de Deus, deixar que Deus nos ilumine e nos conduza, por certo seguiremos no Seu encalço até à eternidade. Jesus relembra isso mesmo aos seus discípulos: quem der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante de Meu Pai que está nos Céus (cf. Mt 10, 32).

«Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática». É a resposta dada por Jesus a uma mulher que do meio da multidão Lhe diz: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». A bem-aventurança está em escutar a palavra de Deus, procurando concretizá-la, traduzi-la na vida do dia-a-dia. Dessa forma nos predispomos a seguir o mandato de Maria – Fazei tudo o que Ele vos disser – que implicará que configuremos a nossa vida à vida de Jesus e ao Seu jeito de amar, de servir e de Se entregar a favor dos outros.

 

2 – «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações».

Maria corporiza a humildade disponível para manifestar a grandeza de Deus e das Suas maravilhas no meio dos homens. O Magnificat assume a história da salvação contada e cantada através das gerações, em que Deus Se manifesta na proximidade aos pobres, aos simples, a todos quantos se abrem à Sua graça e se predispõem a seguir/viver os seus preceitos. Estes visam a inclusão de todos, fazendo sobressair o que une e faz deles, de nós, uma só família de Deus. Em contraponto, estão todos aqueles que na prepotência e no egoísmo se fecham à graça de Deus, sobrepondo a própria vontade, apetites e ganância a todos os outros, relacionando-se com eles em atitude de violência, de inimizade e de separação, deixando na terra marcas de sangue, de destruição e de morte.

Em Maria, Deus faz-Se um de nós. Com Jesus Cristo, Deus humaniza-Se, encarna, assume a nossa condição humana, frágil, finita. Daí que o SIM de Maria seja decisivo, caucionando a vontade de Deus em Se tornar tão próximo da humanidade, nascendo como um de nós, respeitando, ao mesmo tempo, a nossa liberdade, expressa na proposta a Maria e na resposta livre e firme que Ela dá a Deus: Faça-se… cumpra-se… a Tua palavra.

Ao tempo David, Deus está presente no meio do Povo de uma forma muito especialíssima, através da Arca da Aliança, que contém a Lei, os Mandamentos de Deus revelados através de Moisés. Acolher as Leis de Deus, ainda que na sua plasticidade material, significa acolher e respeitar Deus. Daí as honras e os cuidados que David presta à Arca da Aliança.

A Virgem Maria é, para nós cristãos, a Nova Arca da Aliança, pois Ela nos traz a Lei em Pessoa, nos traz o próprio Deus.

 

3 – «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido».

O Livro do Apocalipse (= Revelação) propõe-nos esta belíssima imagem de uma Mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de 12 estrelas e que está próxima de ser Mãe ao ponto de serem manifestas as dores e as ânsias da maternidade.

Depois da morte e da ressurreição de Jesus, os discípulos experimentam a assistência do Espírito Santo, reagrupam-se, anunciam o Evangelho, multiplicando-se o número daqueles que aderem ao Evangelho e à Igreja. Cedo, porém, as comunidades cristãs passam por diversas vicissitudes. A primeira comunidade a ser perseguida e dispersa é a de Jerusalém. Com as perseguições, os cristãos espalham-se e outras comunidades hão de florescer. São João vive exilado na ilha de Patmos. Aí escreve o Apocalipse para animar as comunidades, para lhes/nos recordar que a salvação já chegou, com o nascimento de Jesus, o Salvador do mundo. A imagem da Mulher é, antes de mais, referida à Igreja, mas também a Nossa Senhora. Aquele Mulher – a Igreja, Maria – gera Jesus e dá-O ao mundo, para que este seja salvo por Ele. A Igreja faz no tempo após a morte e ressurreição o mesmo que fez Maria ao tornar-se Mãe do Filho de Deus, tornando-O visível ao mundo.

A Virgem Maria disse sim a Deus e nasceu Jesus. Sempre que a Igreja diz sim a Deus, sempre que os cristãos procuram acolher e viver segundo as Suas palavras, Jesus  vem salvar-nos, vem em nosso auxílio. É, no entanto, sempre uma tensão dialógica entre a salvação JÁ manifesta no mistério pascal, no qual somos introduzidos pelos Sacramentos, e AINDA NÃO da eternidade, o encontro definitivo com Deus. Pelo meio vamos experimentando as dores da maternidade, com as nossas limitações e sofrimentos. O importante é que não percamos o Norte, não deixemos de estar com o olhar, o coração e a vida fixados em Deus, como rezamos na Eucaristia: «Deus eterno e omnipotente, que elevastes à glória do Céu em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, concedei-nos a graça de aspirarmos sempre às coisas do alto, para merecermos participar da sua glória».

 

4 – O papa Pio XII põe em evidência o sensus fidei, recorrendo à tradição da Igreja, às reflexões dos estudiosos cristãos, concluindo que «a augusta Mãe de Deus, unida de modo misterioso a Jesus Cristo desde toda a eternidade pelo mesmo e único decreto de predestinação, imaculada desde a sua conceição, sempre virgem na sua divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que triunfou plenamente sobre o pecado e suas consequências, como suprema coroa dos seus privilégios foi por fim preservada da corrupção do sepulcro e, tendo vencido a morte como seu Filho, foi elevada em corpo e alma à glória do Céu, onde resplandece como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos».

O dogma nunca é uma arbitrariedade da hierarquia da Igreja, como visto anteriormente, mas resulta da sensibilidade na fé de todo o Povo de Deus, da reflexão teológica-eclesial, e da ponderação do magistério da Igreja, mas sempre com a preocupação de fidelidade à Palavra de Deus, onde se fundamentam todas as "verdades de fé" que nos identificam como cristãos e como católicos.

A segunda leitura proposta para a solenidade da Assunção e para a Vigília trazem-nos textos de São Paulo que sublinham a nossa inserção a Cristo, à Sua morte e sobretudo à Sua ressurreição. Ele morre por nós e ressuscita-nos com Ele. «Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida. Cada qual, porém, na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias; a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda». Assenta aqui a ressurreição-assunção de Nossa Senhora ao Céu. Pela íntima proximidade de Maria a Jesus na história, Deus coloca-A novamente próxima na eternidade junto ao Seu Filho.

Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe garante-nos que a promessa de Deus se cumprirá também para nós. Com efeito, «a morte foi absorvida na vitória» de Nosso Senhor Jesus Cristo, como primícias e antecipação do nosso fim último. 

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Vigília: 1 Cr 15, 3-4.15-16; 16, 1-2; 1 Cor 15, 54b-57; Lc 11, 27-28; Missa do dia: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sal 44 (45); 1 Cor 15, 20-27; Lc 1, 39-56


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