Solenidade da Ascensão do Senhor - ano C - 2 de junho de 2019


1 – A Ascensão do Senhor, que hoje celebramos, sublinha que a missão de Jesus conta connosco.

Jesus parte para o Pai sem nos deixar! Como é que isso é possível? Através do Espírito Santo. Encarnando, Jesus submete-se às coordenadas espácio-temporais, isto é, está sujeito à finitude, a fragilidade e às limitações humanas. Se está em Tabuaço, não pode estar em Penude. Se nasceu no ano 2000 não vai estar no mundo daqui a mil anos! Se não comesse e não bebesse, Jesus acabaria por morrer por inanição, como qualquer mortal.

Durante a Sua vida pública, Jesus alerta os discípulos dessa partida, dessa separação. Vou partir. E por vos dizer que vou partir, ireis ficar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria, pois vou para o Pai e virei de novo até vós. Então a vossa alegria será completa e ninguém vo-la poderá tirar.

A partida de alguém que estimamos gera desconforto, tristeza, incerteza. Há hoje muitas formas de atenuar a distância física, e obrigamo-nos a acreditar e a fazer acreditar os outros que nada muda, tudo permanece como antes, basta telefonar, fazer uma videochamada! Mas não é a mesma coisa. Nós sabemos isso. Olhar para um ecrã não é a mesma coisa que olhar olhos nos olhos a meio metro de distância. E ficará a faltar o beijo, o abraço, a carícia, o odor que nos liga, o tato da pele na pele do outro. Queiramos ou não. E por isso a tristeza, mesmo que o que nos liga ao outro permaneça! E, todavia, há relações que simplesmente não funcionam à distância.

Quando a partida é provisória, por alguns dias ou meses, por motivos de férias ou de trabalho, começam a fazer-se contas aos dias que ficam a faltar para o regresso. Alimenta-nos mais a certeza do regresso, do encontro e da festa, do que a distância, e esta justifica-se pela necessidade. Problema maior é quando a partida é definitiva, para sempre, ou porque as condições e as opções de vida o exigem, ou por morte (e aqui o definitivo tem um carácter avassalador).

A partida de Jesus é definitiva! Previamente o anuncia, mas também a promessa do Seu regresso. Não um regresso ao "antes", físico, mas a partir de Deus, pela ação do Espírito Santo. Ele dá-nos, envia-nos de junto do Pai, o Espírito Santo. O Espírito Santo fá-l'O presente mormente nos Sacramentos. Agora é para sempre. Agora não há limites. Ele que veio para todos, pode agora chegar efetivamente a todos.

 

2 – "Vós sois testemunhas destas coisas". Ontem eles, hoje nós, discípulos missionários deste tempo, ano de 2019, onde nos encontramos, na família, nos estudos, no trabalho, na festa como no luto, de manhã ou ao entardecer do dia e da vida. Somos testemunhas da Boa Notícia que nos é revelada em plenitude por Jesus Cristo e no Seu mistério de entrega e oblação. Ele entregou-Se inteiramente por nós, com a Sua vida oferecida, gasta, dada até ao último fôlego, por nós, por mim e por ti, para que tenhamos vida e vida em abundância (Jo 10, 10), sabendo, de antemão, que a vida se cumpre connosco, com o nosso compromisso, esforço e dedicação.

O discípulo segue as peugadas do Mestre. «Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém».

Vendo a vida de Jesus, podemos antecipar como será a nossa vida uma vez a Ele convertidos. Se Ele, qual manso Cordeiro, foi injustiçado, perseguido, maltratado, morto, como não o seremos nós também se ousarmos persistir na verdade, no amor e no serviço ao próximo?!

Mas não há que temer. «Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos com a força do alto… Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra».

 

3 – Não nos ocupemos em saber os tempos, comprometamo-nos a evangelizar todas as situações. «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade».

Na Galileia, Jesus encontra-Se com os discípulos, uma vez mais, sempre O podemos encontrar, "elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos". A primeira reação é de estranheza. Os discípulos ficam estupefactos. Não querem ainda acreditar que Jesus já não está fisicamente entre eles! Foi tão pouco tempo! Um instante! Três anos preenchidos de bondade, compaixão, de serviço aos mais pobres, de anúncio permanente do Evangelho. Um instante e logo Jesus é preso, acusado de malfeitor e é crucificado. Um instante! Jesus volta, ressuscitado, com as marcas da paixão, o amor levado até ao fim e mostra-lhes que estará no meio deles, mas de uma forma totalmente nova, pelo Espírito Santo, já não limitado pelo tempo ou pelo espaço. Estará ao alcance de todos.

Num misto de alegria e de tristeza, veem-n´O partir. Não há lugar ao engano ou ao faz-de-conta, Jesus afasta-Se em direção ao Pai. Sabemos onde Ele Se encontra! À direita do Pai. E, por conseguinte, o nosso olhar terá de ser peregrino do Céu, a nossa pátria verdadeira, mas com os pés bem assentes neste mundo: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu». Cidadãos do Céu – «Recebei, Senhor, o sacrifício que Vos oferecemos ao celebrar a admirável ascensão do vosso Filho e, por esta sagrada permuta de dons, fazei que nos elevemos às realidades do Céu» – mas comprometidos no anúncio do Evangelho, na transformação do mundo que Deus nos dá como morada provisória, mas ainda assim para a tornarmos bela, cuidada, fazendo-a nossa casa, a minha e a tua casa, lugar em que nos encontramos, nos descobrimos e nos tratamos como irmãos.

 

4 – Jesus é a nossa Esperança. Traz-nos o Céu. Eleva-nos para a direita do Pai. Com Ele, também a nossa natureza (humana) se senta junto do Pai. «Deus omnipotente, fazei-nos exultar em santa alegria e em filial ação de graças, porque a ascensão de Cristo, vosso Filho, é a nossa esperança: tendo-nos precedido na glória como nossa Cabeça, para aí nos chama como membros do seu Corpo».

N'Ele encontramos a luz e a sabedoria, a graça e o amor para com Ele vivermos e testemunharmos a vida nova que recebemos d'Ele no Batismo, na dinâmica do Espírito Santo, imersos na Sua morte e ressurreição, inseridos na comunidade crente, o Seu Corpo que é, agora, a Igreja. Ele, a Cabeça; nós, os membros.

Bem diz São Paulo, em jeito de oração, intercedendo por nós: "O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação para O conhecerdes plenamente e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes".

E logo acrescenta a força que vem do alto, que nos vem do Pai que ressuscitou Jesus de entre os mortos e O "colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há de vir. Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos".

Jesus é a garantia de que Deus vem para ficar do nosso lado e nos acompanhar em todos os momentos da nossa vida. Impele-nos a caminhar, dá-nos a graça e a bênção, a luz e a sabedoria e não cessa de nos inspirar no caminho do bem.

 

5 – “Todos, Tudo e Sempre em Missão”. A Nota da Conferência Episcopal, acerca do Ano Missionário Extraordinário (outubro 2018 a outubro 2019) reaviva a necessidade de sermos missão, sempre, em todos os ambientes. Neste dia em que celebramos o Dia Mundial das Comunicações Sociais, a convocação que também neste âmbito há muito a fazer. Evangelizar o mundo digital e aproveitar as suas potencialidades para levar o Evangelho mais longe.

Na sua mensagem para este dia, o Papa salienta que “a rede é um recurso do nosso tempo: uma fonte de conhecimentos e relações outrora impensáveis”. A imagem da rede e da comunidade são similares. A rede social, antes de mais, é a própria comunidade em que se estabelecem ligações humanas, familiares, sociais, eclesiais.

Na mesma mensagem, o Papa lembra que muitas vezes as redes sociais são comunidades que dividem, definem-se “mais a partir daquilo que divide do que daquilo que une, dando espaço à suspeita e à explosão de todo o tipo de preconceito (étnico, sexual, religioso, e outros). Esta tendência alimenta grupos que excluem a heterogeneidade, alimentam no próprio ambiente digital um individualismo desenfreado, acabando às vezes por fomentar espirais de ódio”.

Apesar dos riscos, a rede é uma oportunidade. Eis a rede que queremos: “uma rede feita, não para capturar, mas para libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres. A própria Igreja é uma rede tecida pela Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos [«like»], mas na verdade, no «ámen» com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros”.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 1, 1-11; Sl 46 (47); Ef 1, 17-23; Lc 24, 46-53.


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