Solenidade da Ascensão do Senhor - ano B - 13 de maio de 2018


1 – “Porque partes, Senhor? Para onde vais? Podemos ir contigo?”

“Não por agora! Vou preparar-vos um lugar, para que onde Eu estou estejais vós também! Para onde vou sabeis o caminho!”

“Se não sabemos para onde vais, como poderemos saber o caminho!” O questionamento de Tomé leva a uma resposta que se torna essencial no Evangelho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e da Vida!” E logo de seguida Jesus especifica que é o Caminho para o Pai! “Ninguém vai ao Pai senão por Mim! Quem Me vê vê o Pai” (cf. Jo 14, 1-31).

A partida de alguém provoca, naqueles que estão perto, dúvida, confusão, receio do que virá pela frente. Filhos que veem partir o pai para ir trabalhar para uma cidade longínqua ou para um país distante! A esposa que vê o marido partir para longe, sabendo que é a solução para uma vida melhor, e no entanto tem que ficar a cuidar dos filhos! Claro que hoje em dia as tecnologias e as redes sociais facilitam o contacto! Não é a mesma coisa, mas ajuda e minorar as saudades e a distância!

Mais difíceis são as separações definitivas. Quando alguém parte para a eternidade o vazio é maior, o sentimento de perda, as dúvidas sobre as horas e sobre os dias, a certeza de que nada voltará ao que era antes, o receio de não se conseguir viver sem o/a companheiro/a de anos!

Prevendo esse tempo, Jesus antecipa-o, prepara os Seus discípulos, falando-lhes da tristeza que sentirão, mas deixando claro que essa tristeza será passageira, logo Ele voltará e, então, a tristeza converter-se-á em alegria!

 

2 – Depois da morte, três dias passados, Jesus volta, Ressuscitado! Aparece aos Seus discípulos e envia-os! É um regresso que os acorda da letargia, do medo e do luto! Mas não é fim! Não, pelo contrário, é um novo tempo! Ele estará presente neles através do Espírito Santo. Mas caber-lhes-á pôr em marcha o anúncio do Reino que Jesus instaurou com a Sua vida e, particularmente, com o mistério da Sua morte e ressurreição.

O mandato é clarividente: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».

A Sua presença tornar-se-á expressiva através dos milagres, das conversões, da vida nova que será enxertada em quem acreditar e for batizado!

Sem grandes delongas, o evangelista logo nos dá nota que, depois do envio, Jesus foi elevado ao Céu, sentando-Se à direita do Pai, e os discípulos partiram por toda a parte, a anunciar o Evangelho, como lhes tinha sido ordenado, e logo verificam que o Senhor coopera com o seu ministério, visível nos milagres que comprovam e ilustram as palavras.

 

3 – São Lucas faz-nos regressar um pouco atrás, sublinhando as hesitações e os medos, os percalços do caminho e o perigo da automatização da salvação. Os 40 dias dados para a Ascensão de Jesus força-nos a perceber que Ele esteve o tempo necessário para nos preparar para a missão, mas agora é a nossa vez, não podemos ficar de braços cruzados à espera que a vida aconteça, por si mesma. Deus fará! Tudo vai acontecer tão rapidamente que não é preciso fazer nada, basta esperar (passivamente).

O evangelista, neste segundo livro, faz-nos uma súmula da sua versão do Evangelho, onde narrou (sobretudo) a pregação de Jesus, o que fez e o que ensinou, até ao dia em que foi elevado ao Céu, dando o Espírito Santo, através do qual deu as instruções aos Apóstolos.

Durante 40 dias apareceu-lhes, mas findaram esses dias. Será agora a restauração de Israel? Podemos ficar descansados, que tudo ficará diferente? Vamos ver o sol brilhar no país e no mundo? A resposta de Jesus é lapidar: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra».

O decisivo não é a irrupção do Reino Deus, o fim do mundo, a vitória do bem sobre o mal, os bons em lugar dos maus, a vida a absorver a morte, a confiança a destruir o sofrimento; o decisivo é o que eu e tu podemos fazer para sermos verdadeiras testemunhas de Jesus, em Jerusalém e em toda a parte, na minha e na tua casa, na minha e na tua paróquia, na minha e na tua rua!

 

4 – Tal como Marcos, também Lucas conclui que Jesus Se eleva à vista deles, mas logo uma nuvem O esconde dos seus olhos! “Peço ao Pai por vós, não para que vos tire do mundo, mas vos livre do mal! Vós não sois do mundo, mas estais no mundo, como Eu não sou do mundo e estou no mundo!” (cf. Jo 17). A oração de Jesus, a oração sacerdotal, clarifica o compromisso de Jesus e dos Seus discípulos com este mundo e com este tempo. O olhar pode e deve estar orientado para o Céu. Parafraseando um ditado popular, é preciso ter um olho no Céu e outro no mundo!

O Céu faz ouvir o seu grito, através de dois homens vestidos de branco: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».

O olhar voltado para o Céu remete-nos para a terra ao encontro de Jesus! Ele virá do mesmo modo! É preciso não descurar a terra, o mundo! Não basta simplesmente ficar pasmado a contemplar o que possa estar para lá das nuvens, é necessário que a nossa vida seja sol e luz para os irmãos, sejamos testemunhas de Jesus, do Seu amor e do Seu perdão, para, dessa forma, inevitavelmente, purificarmos o nosso olhar, o nosso coração, para O vermos nos irmãos e depois O vermos face a face.

A Madre Teresa de Calcutá dá-nos uma dica preciosa: «Reza como se tudo dependesse de Deus e age como se tudo dependesse de ti...». O mundo precisa de Deus e precisa de nós, de mim e de ti, para levarmos o Deus que nos habita a todos que não O conhecem ou vivem afastados d’Ele. «Eu sou um lápis nas mãos de Deus. Ele usa-me para escrever o que quer... o que fazemos é apenas uma gota no oceano. Mas sem essa gota, faltaria alguma coisa no oceano. Não devemos pensar na quantidade, nos números. Sejamos capazes de amar uma só pessoa de cada vez, de servir uma pessoa de cada vez».

 

5 – A oração desperta-nos a inteligência, abre-nos o coração, motiva-nos para a prática do bem! A garantia da presença de Deus em nós, a Sua iniciativa, vindo ao nosso encontro, e, em Jesus Cristo, mostrando-nos que a vida tem sempre a última palavra, prevalecendo ao sofrimento, ao mal e à morte, facilita e enforma o nosso empenho na transformação do mundo.

Na verdade, o Deus de Jesus Cristo, Pai da glória, ressuscitou-O de entre os mortos, colocando-O à Sua direita, «tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos».

Se integramos o Seu Corpo que é a Igreja, cabe-nos remar conjuntamente com Ele, deixando-nos guiar pelo Seu amor e pela Sua ternura. Não imaginamos um membro a separar-se do nosso corpo para agir de forma diferente!

 

6 – Hoje, sobretudo em Portugal, mas um pouco por todo o mundo, evoca-se Maria, Mãe de Jesus, como Nossa Senhora de Fátima, 101 anos depois da primeira aparição aos Pastorinhos.

Até podemos colocar limites à omnipotência de Deus, na nossa racionalidade bem esclarecida e moderna, mas deus continua a dar-nos sinais, dicas, indícios, pequenas coincidências, continua a romper por entre o céu das nossas certezas e autossuficiências para nos trazer a Sua mensagem de misericórdia. Fê-lo também em Fátima, através d’Aquela que escolheu para Mãe de Jesus e Mãe nossa.

A mensagem é a do Evangelho: conversão, mudança de vida, oração pela paz no mundo, compromisso com a verdade e com a justiça, defesa e promoção da vida e da dignidade das pessoas, sobretudo as mais frágeis!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia: Atos 1, 1-11; Sl 46 (47); Ef 1, 17-23; Mc 16, 15-20.


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