Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo - 2019


1 – Como pessoas, a viver no mundo e sujeitos às coordenadas do tempo e do espaço, relacionamo-nos, comunicando, através do corpo. Somos mais que o corpo, mas também somos corpo que reage e interage com os outros. O corpo permite o encontro e delimita o nosso espaço, é fronteira que nos aproxima ou nos distancia e que nos possibilita ver, ouvir, palpar, cheirar, saborear. O corpo põe-nos em contacto uns com os outros. Pode ser muro, que separa, ou fronteira, que nos coloca face a face.

Na conceção grega, o ser humano era constituído por corpo e espírito (alma), duas realidades que guerreavam na pessoa, a alma como prisioneira do corpo e este como uma espécie de mal necessário até que a alma se libertasse dele. Na conceção cristã (judaico-cristã), corpo e espírito formam um todo, inseparável, e a bondade é intrínseca à pessoa, pois foi criada à imagem e semelhança de Deus. A corporeidade faz parte do nosso ADN; não abafa, não disfarça, não aprisiona, mas permite ao espírito estar em casa, ser casa com o corpo, e comunicar com os outros. Há, nisto tudo, pessoas com sensibilidades específicas pelas quais comunicam além das coordenadas espácio-temporais, um sexto-sentido, premonição (a mãe que sabe, pressente o que se está a passar com o filho, dois gémeos, que mesmo à distância, sentem o que o outro sente), abertura ao Espírito de Deus, ligação ao sobrenatural. Assim nos testemunha a história de santos místicos e, assim também, a dinâmica da oração mais intensa, mais madura e mais confiante neste Deus que, em Jesus Cristo, pelo Espírito de Amor, quis e quer estar perto de nós.

E se dúvidas houvesse, quanto à bondade e à bênção do corpo, a encarnação de Deus, que Se faz Carne, Se faz homem, Se faz corpo, em Jesus Cristo, dissipava-as todos. Para Se colocar no mesmo nível e para connosco comunicar de igual para igual, a assunção corpórea, sujeitando-Se às limitações do tempo e do espaço.

 

2 – A solenidade do Corpo de Deus (Corpus Christi - Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo) remete-nos para o mistério da Encarnação e, obviamente, para o mistério pascal. Pela Encarnação, Deus tornou-Se tão igual a nós, em Jesus Cristo, que Se confunde como simples mortal ao ponto de ser perseguido, injuriado, preso, açoitado e morto. E, para todos os efeitos, como prometeu, continua a esconder-Se em cada um de nós – aquilo que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis!

Três dias depois de morto, ressuscitou e apareceu vivo aos Seus amigos mais chegados, os discípulos daquele tempo, na certeza que também nos tempos futuros Se encontrará com os futuros discípulos. Na Última Ceia, Jesus antecipava e deixava claro que a Sua morte daria lugar à ressurreição e a Sua partida fá-l'O-ia regressar. Novamente virei a vós e então a vossa alegria será completa. Isto é o Meu corpo... Isto é o Meu sangue... entregue por vós... Fazei isto em memória de Mim... Sempre que vos reunirdes em Meu nome, Eu estarei no meio de vós... até ao fim dos tempos.

Jesus entrega a Sua vida e confia-nos o Seu Corpo, não para O despedaçarmos em bocados, mas para formarmos uma só família, membros do mesmo Corpo, alimentando-nos d'Ele, fazendo comunhão. Que todos sejam Um, como Eu e Tu, ó Pai, somos Um. O Corpo descido da Cruz é colocado no colo da Virgem Mãe. Ela é o garante da unidade e da comunhão. É um Corpo completo, o Seu Filho muito amado. Ao aparecer-lhes, Jesus apresenta-Se inteiro, com as marcas da paixão, da entrega e do amor levado aos limites. Vede as minhas mãos e o meu lado, o lugar dos cravos e as feridas assumidas para gerarem vida e vida em abundância, para gerarem comunidade.

 

3 – Eu Sou o Pão da vida. Quem Me come não morrerá. São palavras que provocam divisão. Pode Ele dar-nos a comer a Sua carne? Alguns dos ouvintes de Jesus ficam escandalizados ao ponto de seguirem outro caminho. Compreendendo a surpresa e a debandada, Jesus pergunta aos Seus discípulos, os que ficaram, se também querem ir embora. Talvez um pouco a medo, Pedro lá nos vai representado: a Quem iremos, Tu tens palavras de vida eterna!

A linguagem viva e concreta não deixa margem para dúvidas. Se fosse apenas uma imagem, uma metáfora, não havia motivo para a contestação e para o abandono. Os discípulos compreendem que Jesus fala do Seu corpo e que eles terão que comer a Sua carne para entrarem na vida eterna. Na Primeira Eucaristia, no decorrer da Última Ceia, os discípulos perceberão que o milagre se há de realizar nas espécies do pão e do vinho. O milagre maior é o da ressurreição, Jesus é morto e, por ação do Espírito, ressuscita, volta à vida e tornar-se-á presente à comunidade, convocando-a, congregando-a e solidificando os laços que unem os seus membros.

Quando aparece aos discípulos de Emaús, eles percebem a Sua identidade e a Sua presença ao partir do pão. Está aí a confirmação do que Ele tinha afirmado na Última Ceia. E desde então a Igreja não mais deixou de celebrar a morte e a ressurreição de Jesus, repetindo as Suas palavras e os Seus gestos, para que em Igreja, por ação do Espírito Santo, o pão e o vinho se convertam no Seu corpo e no Seu sangue. É a nossa fé. É a fé da Igreja.

Ao longo da história, todavia, as dúvidas persistiram e as divisões acentuaram-se. Jesus, com a consagração, está real, substancialmente presente no Pão e no Vinho. Já não é pão, já não é o vinho, ainda que as aparências se mantenham, é o Corpo e o Sangue de Jesus. Daí que a hóstia consagrada possa ser mantida em reserva, no sacrário, levada aos doentes, em suas casas, ou para outras comunidades onde não há quem consagre o pão e o vinho. A elevação da hóstia e do cálice, e a generalização da Procissão do Corpo de Deus a toda a Igreja, em particular no século XVI, é a reafirmação da fé na presença real de Cristo na hóstia, Ele permanece além da celebração, não é simbólico, não é a prazo.

 

4 – Se comungamos do mesmo Pão, se partilhamos o mesmo Corpo, cabe-nos cuidar de todos os que integram o Corpo de Cristo, a Igreja, a humanidade inteira. É essa a resposta que nos é dada por Jesus, hoje, no Evangelho: «Dai-lhes vós de comer»

Pode parecer-nos que são mais as pessoas que os recursos, ou que não temos nem jeito nem tempo nem dinheiro. Não importa. A resposta de Jesus continua a ressoar no nosso coração. Ele chama-nos, envia-nos e responsabiliza-nos por aqueles que coloca à nossa beira. Jesus não despacha ninguém, não manda ninguém embora, não Se desculpa, não coloca reservas. Multiplica-Se e torna-Se alimento para todos. A multiplicação dos pães é a certeza que Ele nos deixa. Ergueu os olhos ao Céu e pronunciou sobre os 5 pães e 2 peixes, a bênção. Partiu-os e deu-os aos discípulos para que os distribuíssem pela multidão. Jesus conta connosco. Comigo e contigo. Com os meus/teus 5 pães e com os meus/teus 2 peixes. Conta que os distribuamos, multiplicando-os. O milagre começa a realizar-se na oração e na bênção e concretiza-se na distribuição.

Quando partilhamos o que temos, o pouco converte-se em muito e dá para todos, com o sério risco de sobejar. Com Jesus tudo é em abundância, amor e perdão, pão e peixe, alimento que perdura para a vida eterna, e que nos enraíza na terra, ligando-nos uns aos outros, somos responsáveis uns pelos outros.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 14, 18-20; Sl 109; 1 Cor 11, 23-26; Lc 9, 11b-17


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