Páscoa da Ressurreição - 2019


1 - O amor eterniza-nos. Numa relação, acentuando o amor, a paixão, a amizade, existe o sonho de tornar definitivo o tempo, os encontros, a felicidade, os laços que se vão celebrando e aprofundando. Quando alguém diz "Amo-te" equivale a dizer "Amo-te para sempre", quero que vivas, que permaneças na minha vida. Quero fazer parte dos teus dias, preencher os teus sonhos e projetos, o teu tempo, quero caminhar contigo, quero que onde eu estiver tu estejas também.

Essa é precisamente a palavra de Jesus para com os Seus discípulos: vou para o Pai, vou preparar-vos um lugar, para que onde Eu estiver vós estejais também. Sempre que vos reunirdes em Meu nome, Eu estarei no meio de vós. Até ao fim dos tempos.

 

2 - O amor gera vida. Quando duas pessoas se amam, querem sinalizar esse amor com alguma coisa que perdure: um anel, uma planta, uma peça de vestuário (para que o outro use algo que eu lhe dou). Mas a expressão máxima é mesmo gerar algo de novo, diferente de tudo o que existe, que possa ser apenas dos dois, fruto do amor que os une. Uma nova vida é a melhor garantia, por um lado, de o amor ser traduzido (em algo concreto e visível) e, por outro, de perdurar, sobrevivendo à vida dos dois. Há depois outras formas de fazer perdurar o amor, em perspetivas diferentes, plantar uma árvore, escrever e publicar um livro, construir um monumento. Mas verdadeiramente só uma vida nova nos prolonga, nos traduz, nos leva ao futuro. O mais, ainda que importante, enraizando-nos, retém-nos na história, no passado, no tempo.

 

3 - O amor é intemporal. Quando amamos, o tempo é leve, não se dá conta dele, parece um instante. Mil anos são como uma brisa que passa. A companhia de um amigo, da pessoa amada, a família, ou numa perspetiva crente, a oração / celebrações, não nos permite ter a perceção do tempo nem do desgaste. Quem é que se apercebe que envelhecemos? Os que estão distantes, os estranhos, aqueles que vemos de longe em longe. Os que nos são próximos não estranham nem as rugas nem as lágrimas.

 

3 - O amor faz-nos delicados. Se o nosso amor é autêntico, queremos que aquele ou aquela que amamos seja feliz. "Ama e faz o quiseres", diz-nos Santo Agostinho. É que amar implica-nos na felicidade do outro, da pessoa amada. Não amo porque me sinto bem, ainda que seja importante; porque amo, cuido, trato bem, sirvo, quero que a pessoa amada não passe por dificuldades. Veja-se o amor dos pais pelos filhos. Se pudessem, os pais sofreriam tudo em vez dos filhos. É o que faz Deus por nós, em Jesus Cristo.

 

4 - O amor faz-nos permanecer. Quem Me ama permanece em Mim e Eu n'Ele, como o Pai Me ama e permanece em Mim e Eu permaneço no Pai. Deus manifesta-nos o Seu amor ao procurar-nos no nosso mundo, ao vir ao nosso encontro, ao fazer-Se um de nós, em Jesus Cristo, assumindo a nossa condição humana, frágil, finita. E, ao partir, Deus não deixa de permanecer, pela Sua palavra, pelos Seus Sacramentos. Onde Ele está, quer que nós estejamos também. Onde nós estamos, Ele quer estar e ficar connosco, permanecendo. Quem ama um pouco (se é que isso é amar), tem sempre pressa de partir. Quem ama tem sempre motivos para ficar, para adiar a partida, para permanecer mais um pouco, ainda que sejam breves segundos ou minutos.

 

5 - O amor gera alegria. Nem poderá ser de outra maneira. Quando amamos sentimo-nos felizes, em paz com aqueles que amamos. A inquietação vem da ausência ou do medo de perder aquele/a que se ama. Depois da desilusão, do desencontro, da tristeza, os apóstolos veem que o amor regressa, que o Amado vive e está de volta. E então não há ninguém, como Cristo tinha previsto, que lhes possa tirar essa alegria. Nem eles nem nós!

 

6 - O amor leva ao anúncio. Quando amamos temos necessidade de o dizer a outros. Veja-se como os namorados apaixonados querem que toda a gente saiba que namoram, que estão ligados e comprometidos. A troca de anéis ou outros símbolos, que expressam esse amor, não são tanto para os próprios, que sabem que se amam, para que os outros também saibam, percebam, sintam a luz e intensidade desse amor. Naquela primeira manhã, as Mulheres que foram ao túmulo, rapidamente partem para contar quanto viram, para que outros possam experimentar a alegria do regresso de Jesus Cristo a casa! É assim também com os discípulos de Emaús. O encontro com o Ressuscitado, fá-los regressar rapidamente á comunidade, a Jerusalém, para que aos outros discípulos contem o que viveram, para que também eles experimentem a alegria de saberem que Cristo vive.

 

7 - O amor liberta-nos. Amando, queremos permanecer, mas este permanecer não nos obriga, não nos escraviza. Só estamos contrafeitos quando não estamos bem, quando nos sentimos obrigados. Quando amamos, estamos tranquilos, em paz. Se saímos sabemos que podemos regressar, porque o berço do amor permanece intacto. Veja-se o filho pródigo! Quando se vê nos apertos, sabe que pode regressar aos braços do Pai. Quem ama sente-se livre. Claro que o amor procura ser (cor)respondido, mas em si mesmo é uma força que liberta o que há de melhor em nós e faz com que queiramos ser agradáveis com todos. Não estamos presos. Podemos sair. Podemos regressar. Na prática, o amor casa-se com a confiança.

 

8 - Deus é Amor, o único Absoluto, que nos eterniza, nos eleva, nos garante o amanhã. O amor por mais duradouro que seja tem o limite do tempo e da história. Podemos deixar marcas mais ou menos definitivas, mas ainda assim ficarão, não nos acompanharão, a não ser que também nós sobrevivamos ao tempo e, então sim, o amor acompanhar-nos-á, o amor e tudo e todos os que amamos. Esta é a garantia de Jesus. É a Sua Páscoa que nos envolve e nos salva. É a promessa que nos faz. É o sonho que vem viver connosco, é o projeto de Deus para cada um de nós, para todos.

 

9 – A Páscoa celebra o reencontro (perene) de Jesus com os Seus discípulos, com a comunidade crente. Ele vem, coloca-Se no MEIO, sendo, dessa fora, o elo de ligação entre nós. Se estivermos unidos a Cristo, estaremos obrigatoriamente ligados (através d’Ele), uns aos outos. O amor atrai-nos para Jesus. Quanto mais perto estivermos do meio, do centro, de Jesus, mais perto estaremos uns dos outros.

 

10 – Quem ama, quer partilhar a alegria e as razões de amar e ser amado. Somos CHAMADOS ao centro, onde Jesus há de estar! Somos ENVIADOS para comunicarmos a todos quanto AMOR tem Deus por nós, num amor pleno que nos retira ao pecado e à morte, e nos abre as portas da eternidade, para que Ele seja tudo em todos!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 10, 34a, 37-43; Sl 117 (118); Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8; Jo 20, 1-9


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