Festa do Batismo do Senhor Jesus - ano C - 13 de janeiro de 2019


1 – A água remete-nos para a fonte. E se temos sede e buscamos a água procuramos a fonte, ainda que hoje para bebermos água baste abrir uma torneira ou uma garrafa! Quando o caudal diminui num riacho, ou está praticamente seco, procuraremos a origem para ver se também aí a água secou ou se se está a perder pelo caminho.

Mais à frente, uma Samaritana será surpreendida pelo pedido de Jesus: dá-me de beber! Como pode um judeu falar com um inimigo, com um samaritano e para mais pedir-lhe de beber? Eis então a resposta de Jesus: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e Quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que Lhe pedirias, e Ele dar-te-ia água viva!» (Jo 4, 10). O diálogo continuará e no final o pedido: dá-me sempre dessa água! Água que sacia a sede, porque nos faz recuar à origem da água: Aquele que pode saciar toda a nossa sede!

Mais atrás e Jesus já nos tinha interpelado, interpelando Nicodemos: «Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus» (Jo 3, 5). Jesus não deixa de nos lembrar a nossa pátria e o caminho para lá chegar: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16). A água leva-nos ao Espírito, leva-nos a Deus, e para saciarmos a sede só em Deus em Quem encontraremos a fonte água viva.

Nascer da água e do Espírito, beber da fonte e deixar-se plasmar pelo Espírito e acreditar em Jesus, o Filho de Deus vivo, para que acreditando n'Ele deixemos que Ele nos conduza pelo caminho do bem, o caminho que nos conduz à Pátria original! É que acreditar em Alguém, não é algo de somenos importante, pelo contrário, acreditamos em Alguém com o Qual procuraremos identificar a nossa vida, nas palavras, nos gestos, nas obras e até no timbre da voz.

São Pedro, depois de tantas hesitações, avanços e recuos, soube nascer de novo e batizado na morte e ressurreição de Jesus, tornou-se discípulo missionário, procurando atrair-nos para Jesus. «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».

 

2 – «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência». O Céu está perto da terra, Deus faz-Se um de nós, é o mistério que Jesus nos desvenda com a Sua vinda, com a Sua vida, com a Sua morte e ressurreição. O Céu está acessível em Jesus Cristo. A terra está mais próxima do Céu, mais próxima de Deus, pois Jesus, em Si, fez com que o Céu descesse à terra e que a terra, com Ele, subisse ao Céu. Para sempre.

No Batismo, o lampejo da Trindade Santíssima (e da eternidade)! Onde está o Filho, está o Pai e o Espírito Santo. É Jesus que vem batizar com o Espírito Santo e com o fogo. Primeiro deixa-Se batizar, para que nesse gesto de humildade, de identificação à multidão que acorre a João Batista e ao Jordão, possamos descobri-l'O na água, mas sobretudo no Espírito, na Voz que nos fala a partir do Céu, mas que é audível na terra, se nos pusermos à escuta, se deixarmos que o Seu amor dilate o nosso coração, se procurarmos que a nossa vida transpareça a Sua bondade e a Sua ternura.

Ele veio e passou fazendo o bem, sem acessão de pessoas. Agora cabe-me a mim e a ti, cabe-nos fazer o bem à nossa passagem por esta terra que é nossa, mas sobretudo d'Ele, que é a nossa pátria provisória, porque aqui nos chamou à vida e à santidade, para plantarmos flores, para plantarmos o bem e a justiça e, depois de cumprido o tempo que Ele nos reservou para aqui, moldados ao Seu Espírito, possamos regressar, e regressar definitivamente à Pátria primeira e derradeira, onde já Se encontra Jesus Cristo, onde já se encontram outros amigos e outros membros da nossa família.

 

3 – A Palavra de Deus, já no Antigo Testamento, nos faz esperar pelo Eleito do Senhor, que virá para ajuntar as pessoas e os povos, para irradiar a Sua benevolência. «Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra... Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».

Quando entrar na Sinagoga de Nazaré e Lhe passarem para as mãos o texto de Isaías, então Jesus poderá dizer-nos: cumpriu-se Hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir. E como vamos então reagir? Escutá-l'O-emos? Ou expulsá-l'O-emos da nossa vida?

 

4 – Ao tempo de Jesus nem todos O reconheceram. Fez-Se tão igual a nós que o Mistério que nos trouxe nos inquietou, nos provocou, nos fez duvidar: como é que Deus sendo Deus, tão grande e tão forte, Se pode fazer simples, pobre, despojado, Um entre nós? A identificação só é possível no amor. Assim o Pai Se identifica, Se revê e atua no Filho; assim o Filho faz ver o Pai – Quem Me vê, vê o Pai – e no-l'O mostra pelas obras que realiza; assim o Espírito nos une ao amor de Deus e nos agrafa no amor aos irmãos.

Com efeito, também fazemos essa experiência na relação entre nós. O amor aproxima. A convivência e o amor fazem-nos repetir gestos, ficar com tiques idênticos, e até vestir de igual. No exterior, mas também nos gostos. É algo visível nas pessoas enamoradas, nos casais, e nos filhos que querem ser como os pais. As mesmas músicas, os mesmos filmes!

O Amor de Deus f'á-l'O vir ao nosso encontro e, em Jesus Cristo, assumir-nos por inteiro. A resposta que nos cabe é fazermos o mesmo uns com os outros, preenchidos com o Amor de Deus, gastarmos esse amor com o nosso semelhante. Sabendo das nossas fragilidades e hesitações, rezemos, rezemos para que Ele nos abra o nosso coração, para que fortaleça as nossas decisões, para que ilumine o nosso caminhar.

"Deus eterno e omnipotente, que proclamastes solenemente a Cristo como vosso amado Filho quando era batizado nas águas do rio Jordão e o Espírito Santo descia sobre Ele, concedei aos vossos filhos adotivos, renascidos pela água e pelo Espírito Santo, a graça de permanecerem sempre no vosso amor".

 

5 – São os nossos ouvidos que estão fechados ou é a voz que vem do Céu que está enfraquecida?

No salmo, a garantia de que a voz do Senhor se faz ouvir: "A voz do Senhor ressoa sobre as nuvens, o Senhor está sobre a vastidão das águas. A voz do Senhor é poderosa, a voz do Senhor é majestosa. A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão e no seu templo todos clamam: Glória! Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor, o Senhor senta-Se como Rei eterno".

Se a voz do Senhor é audível, a dificuldade está em nós! É preciso fazer silêncio, pôr-se à escuta, rezar e deixar que a Voz do Senhor ressoe (não tanto nos nossos ouvidos exteriores, mas) nos ouvidos do nosso coração. É preciso escutar com o coração. É preciso ver com o coração. É preciso criar espaço em nós para que Deus nos fale, como uma Mãe fala ao filho ainda dentro do seu ventre. A voz vem do Céu, mas os ruídos que nos preenchem podem anular a Sua mensagem. Há uma Luz que vem do alto, mas tantas coisas que luzem que disfarçam e tornam impercetível a Luz que chega até nós.

É preciso, de novo, sempre, deixar que o Espírito Santo que nos consagrou a Jesus Cristo, nos renove constantemente para acolhermos, com alegria, o Evangelho, transparecendo-o em todos os poros da nossa vida.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Is 42, 1-4. 6-7; Sl 28 (29); Atos 10, 34-38; Lc 3, 15-16. 21-22.


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