Festa da Sagrada Família de Nazaré - 2017


1 – «Senhor, Pai santo, que na Sagrada Família nos destes um modelo de vida, concedei que, imitando as suas virtudes familiares e o seu espírito de caridade, possamos um dia reunir-nos na vossa casa para gozarmos as alegrias eternas».

No Seu amor imenso, Deus não Se faz rogado e vem habitar connosco. Assume-nos por inteiro, nas nossas limitações e fragilidades, na nossa finitude. Não nos salva pela rama, mantendo-Se alheado e à distância como um Rei a observar as vicissitudes do seu exército na batalha ou como um deus grego no Olimpo a divertir-se com as guerras dos homens, jogando dados sobre o seu destino e indiferente ao seu sofrimento. Esse seria um deus feito à medida de alguns egoísmos e desistências. O nosso Deus, Deus de nossos Pais, Abraão, Isaac e Jacob, Moisés e David, o Deus que nos é revelado plenamente em Jesus, é um Deus de amor, que nos ama sem desistir de nós. Ama-nos como Pai com um coração de Mãe. É este o mistério do Natal, expressão visível da Encarnação de Deus.

Deus criou-nos por amor, à Sua imagem e semelhança, capazes de amar e ser amados. Criou-nos para a grandeza, não para a soberba nem para a ganância nem para sobranceria nem a prepotência, mas para a grandeza da vida, da solidariedade e do amor. É a grandeza de Deus. Será a nossa grandeza. É a fraqueza de Deus. Será a nossa salvação. Em Jesus descobriremos que Deus é Amor, que Deus é família: Pai, Filho e Espírito Santo, comunidade de vida e de amor.

Para entrar no mundo, Deus escolheu uma família humana. Jesus não é um extraterrestre, ou uma espécie de super-homem caído do espaço. Deus humaniza-Se, encarnando, por ação do Espírito Santo, no ventre virginal de Maria. Deus prepara Maria, mas também José, que protegerá Maria e criará as condições para Jesus viver em ambiente seguro e familiar, semelhante a tantas outras famílias. Na normalidade da família de Jesus, Maria e José, Deus mostra-nos o caminho do amor que une e salva.

2 – José e Maria passam despercebidos. São um casal jovem, judeus, descendentes da linhagem de David. Em Belém ou em Nazaré, ninguém dirá que Aquele Menino é Filho de Deus. Nada há de estranho na família de Jesus. Os Seus pais trabalham arduamente para terem o necessário para viverem com dignidade, participam ativamente na vida da comunidade, envolvem-se nas festas e nos lutos, entreajudam-se nos trabalhos do campo e da vinha, trocam saberes e bens que manufaturam segundo a arte de cada um.

Como praticantes judeus, completando-se os dias da purificação, Maria e José levam Jesus ao Templo de Jerusalém para O apresentarem ao Senhor, cumprindo as prescrições da Lei de Moisés. É um momento importante para os Pais, pois dessa forma confiam o seu filho a Deus e inserem-se na Aliança de Deus com o Seu povo. Aqui percebemos a alegria dos pais cristãos quando solicitam o batismo para os seus filhos na certeza da bênção de Deus!

No Templo, Maria e José vão escutar palavras promissoras acerca do Seu querido filho. Um filho é uma bênção, ou deveria ser, nunca um estorvo ou empecilho. O Filho de Maria e de José foi inesperado, talvez até fora de tempo, antes do expectável, mas foi acolhido com todo o amor. No Templo vão perceber que Ele será uma bênção para todo o Povo.

No Templo, um homem de Deus, velho, sábio, sacerdote Simeão. Veio ao Templo movido pelo Espírito Santo. Ao receber o Menino em seus braços, exclama em alta voz: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo».

No Templo encontra-se uma profetisa, Ana, mulher de idade avançada e que faz do Templo a sua casa, servindo a Deus, dia e noite, com orações e jejuns. Também Ana é tocada pelo Espírito Santo e louva o Senhor Deus pelas maravilhas que fará através d'Aquele Menino.

 

3 – Mas a história não acaba aqui, muito pelo contrário.

A expectativa dos pais é que os filhos não passem pelas mesmas dificuldades que eles próprios tiveram que enfrentar e tudo farão para evitar qualquer sofrimento ao(s) seu(s) rebento(s). As palavras de Simeão e de Ana acalentam a esperança de um futuro risonho para o Seu Menino.

Fácil, porém, intuir que a vida é um mistério que se abre à nossa frente e que o futuro só a Deus pertence e haverá sempre surpresas e nem todas fáceis de dirigir. É a vida! Um mistério a viver! Uma história a sonhar e a realizar. Os imponderáveis fazem parte da existência humana. São desafios que exigem de nós adaptabilidade, resiliência, empenho, compromisso. Validamos a vida recebida, com a vida a comprometer-se e concretizar-se na história, no tempo, com os outros e com Deus.

O Velho Simeão tem um recado para Maria e para José, ainda que se volte mais para Maria: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».

A Luz de Israel – iluminará as Nações da terra inteira – ferirá os olhos habituados às trevas, à escuridão do pecado, do egoísmo e da vida cómoda; levará uns a lutar pela justiça e pela verdade, exporá outros que vivem à custa da exploração corrupta, à custa dos mais frágeis. A vida de Jesus, Aquele Menino-Deus, será uma caixinha de surpresas. Será uma bênção, entre muitas adversidades!

 

4 – É na família de Belém e Nazaré que Jesus nasce, cresce e se desenvolve como pessoa, aprendendo a falar, a discernir o bem do mal, a ser justo e amável com os pobres e com os estrangeiros; ali aprende a arte de São José, trabalhando a madeira, a pedra e o ferro; aprende os ciclos do campo, o tempo de preparar a terra, de semear, de cuidar, o tempo da colheita; a paciência na espera pelos frutos das árvores e dos campos; o comportamento dos animais, mormente das ovelhas e das cabras e dos passarinhos. É naquela família que aprende a rezar, a respeitar os mais velhos, aprende a vida. Com os Pais visita e ajuda os vizinhos e recebe-os em Sua casa. Acompanha José e Maria aos velórios e vai com eles aos casamentos e às festas judaicas, é por eles introduzido na Sinagoga e no Templo. Tempera a Sua vida à medida da família humana que Deus Pai Lhe escolheu.

O sábio Ben Sirá faz-nos saber que a família não é nem uma empresa nem uma associação de beneficência, da qual retirámos o que nos convém ou ajudamos os mais frágeis. Pode ser tudo isso, mas é muito mais, é uma realidade querida por Deus desde o início. Deus os criou homem e mulher, à Sua imagem e semelhança, e lhes ordenou: crescei e multiplicai-vos. Jesus recordar-nos-á, pegando nas palavras do Génesis, que o homem e a mulher formam uma só carne, por isso o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa. Portanto, concluirá Jesus, não separe o homem o que Deus uniu.

Ben Sirá compromete pais e filhos. «Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe... Quem honra seu pai terá longa vida... Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados».

A caridade começa na família. Ser doce para os estranhos é fácil, qualquer um consegue. Ser doce, de forma habitual, constante, ao longo dos anos, nas alegrias e nos sofrimentos, na saúde, e na doença, por vezes prolongada, não é pêra doce, é para quem ama e persiste no amor!

 

5 – São Paulo remete o compromisso em família para a nossa identidade batismal. Como cristãos, eleitos de Deus, santos e prediletos, havemos de revestir-nos «de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência… acima de tudo, revesti-vos da caridade».

O apóstolo invetiva-nos: «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente... Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo... E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai». Qual a motivação? O próprio Jesus que usou de misericórdia, de perdão e de bondade para connosco. Se Ele agiu assim connosco, também nós devemos fazer do mesmo modo.

E o apóstolo concretiza: «Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo».

Se nos lembrarmos da submissão de Jesus ao Pai, oferecendo a Sua vida por amor, na obediência até à morte e morte de cruz, compreenderemos melhor a linguagem do apóstolo. A recomendação às esposas é igual à dos maridos, mas também dos pais em relação aos filhos e dos filhos em relação aos pais: amar, respeitar, gastar à vida a favor do outro, em família, em Igreja, em sociedade.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Sir 3, 3-7. 14-17a; Sl 127 (128); Col 3, 12-21; Lc 2, 22-40.


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