Festa da Sagrada Família - 2018


1 – "Tudo seria bem melhor se o Natal não fosse um dia, se as mães fossem Maria e se os pais fossem José; e se a gente parecesse com Jesus de Nazaré". Na canção do Pe. Zezinho está o desafio a fazermos com que o espírito do Natal esteja presente nas relações pessoais, familiares e profissionais, os valores do respeito, do amor e do cuidado, da vida, da alegria e da ternura, da simplicidade, da pobreza e da comunhão. Por outro lado, a referência à família de Nazaré como modelo, ainda hoje, para as famílias.

São Lucas apresenta-nos a perda e o encontro de Jesus no Templo, entre os Doutores da Lei (5.º dos mistérios gozosos). Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém para celebrarem a Páscoa (judaica). Sem ostentação nem sobranceria, José e Maria assumem-se crentes entre os crentes, família como tantas outras, que procuram cumprir com os requisitos da religião. A educação de Jesus passa pelo exemplo.

No "Bar Mitzvá" (filho do mandamento), os jovens judeus são inseridos como membros maduros na vida da comunidade. A idade para as meninas é de 12 anos e para os rapazes é de 13 anos. São Lucas parece referir-se a esta cerimónia. O jovem passa a ser responsável pelos seus atos e pode participar nas cerimónias religiosas, podendo ler publicamente a Sagrada Escritura. Assim se entende o diálogo de Jesus com os Doutores da Lei.

A família de Jesus está inserida na vida da comunidade, temente a Deus, cumpridora!

 

2 – A vida não é branco ou preto, vermelho ou azul, é multicolor. Assim também as famílias não são totalmente catalogáveis, ainda que o façamos para uma melhor compreensão. Nucleares ou alargadas, estruturadas ou disfuncionais, inseridas na comunidade ou alheadas. Há novos tipos de família que devemos encarar como desafio. Os vínculos são diferentes e talvez a estabilidade também o seja, a vulnerabilidade é maior, pois maiores são as janelas e mais frágeis as cortinas. A tradição já não é o que era! As luzes e sombras, alegrias e esperanças são de sempre, ainda que hoje seja tudo mais rápido, acelerado e, talvez, mais violento.

O matrimónio (cristão) dava início a uma nova família. Namoro, conhecimento mútuo e integração na família do futuro esposo/a, noivado, casamento, filhos e educação destes no ambiente alargado da família e da comunidade crente. Hoje tende a começar ao contrário: primeiro, os filhos e, depois, os pais talvez se juntem, talvez se casem civilmente e, talvez, em menos casos, se contraiam matrimónio pela Igreja! O Papa Francisco tem sublinhado que o mais importante é os cristãos e as famílias cristãs mostrarem a alegria de serem o que são. E, também neste campo, como diria Bento de XVI, mais que proselitismo, há de valer a atração!

A família de Nazaré está imersa na tradição judaica, ainda que habitualmente houvesse a geração de mais filhos, sinal de bênção divina.

Na pequena cidade de Nazaré, as famílias entreajudam-se, vivendo do que a terra produz. Nas hortas e nos campos, têm árvores de fruto, vinha, animais de pequeno porte, cabras e ovelhas, que garantem o leite, o fabrico do queijo e a lã; ajudam-se, trocando produtos e trabalho, e potenciam a arte de alguns (são José era carpinteiro). Ao sábado reúnem-se em família e em comunidade, para rezar, ler e meditar a Sagrada Escritura. Partilham as alegrias, o nascimento de uma criança, e as tristezas, a morte de um familiar.

 

3 – Maria, José e Jesus vão a Jerusalém com outras famílias. No regresso, apercebem-se da ausência de Jesus. Sabem-n’O ajuizado e julgam que vem com outros jovens da sua idade, em brincadeiras ou a falar da passagem à idade madura. Ao fim do dia, a família mais estrita junta-se para a última refeição e para dormirem no mesmo espaço, juntos. É aí que se dão conta que Ele não está. Procuram-n'O e verificam que não está na caravana. Têm de voltar atrás. Voltam a Jerusalém, onde O viram da última vez. Tinham feito um dia de viagem, fazem outro dia no regresso à cidade santa e encontram-n'O ao terceiro dia.

Onde deveria estar Jesus? No Templo a ouvir os doutores da Lei e a fazer-lhes perguntas. Os que O ouvem ficam admirados com a Sua inteligência e com as Suas respostas. Antevê-se já o diálogo que Jesus fará com os Doutores da Lei, não aceitando tudo o que Lhe dizem, mas interrogando, interpretado, refletindo e apondo à Lei a vida, o amor, a compaixão.

Também os seus pais são surpreendidos ao encontrarem Jesus a falar com os doutores.

Então, Maria, Sua Mãe, diz-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». O primeiro impulso talvez fosse dar-Lhe uma valente repreensão! Com Maria, uma vez mais, aprendemos a paciência do amor, o silêncio que escuta e a palavra que abraça. Pergunta-Lhe e diz-Lhe da aflição paterna/materna. A resposta de Jesus – «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?» – faz-nos compreender que o mistério de Deus é sempre mistério, acedemos-lhe mas sem O conter.

Jesus volta com os pais, sendo-lhes submisso e crescendo em sabedoria, estatura e em graça, diante de Deus e dos homens. Por sua vez, Maria, mesmo que o mistério lhe escape em parte, guarda tudo no coração, pois sabe que pode confiar em Deus.

 

4 – Deste encontro no Templo podemos encontrar lições importantes:

– Podemos e devemos rezar em qualquer lado, em casa e no trabalho, e até fazer da vida uma oração, mas a ida ao Templo permite-nos sair do nosso espaço e conforto para nos encontrarmos com Deus e com os outros. A oração há de ser, diz-nos Jesus, em espírito e verdade, em casa ou no Templo, e para isso terá que transparecer a nossa alma, comprometendo-se com a verdade, com a justiça e com a misericórdia.

– Ao Templo levamos a nossa vida, o louvor a Deus, a gratidão pelas graças recebidas; levamos também as nossas súplicas, pedidos e preocupações. Reencontramo-nos ao encontrá-l'O, fazendo silêncio e deixando que Ele nos fale ao coração. Os outros e a oração conjunta permitem-nos avalizar da nossa sintonia com Deus, afastando o risco da (auto)idolatria!

– O Templo, a Igreja, retempera a nossa vida, e faz-nos regressar a casa, à vida do dia-a-dia, com os outros, iluminados pela Graça de Deus, revestidos do Seu amor.

– O regresso não nos dispensa de vigilância. Podemos perder-nos, iludir-nos, dispersarmos do essencial. Como Maria e José, se perdemos Jesus, se Ele não está, é bom que voltemos ao Templo, voltemos a perscrutar a Sua presença.

– Onde podemos encontrá-l'O? Entre os parentes e conhecidos. Minha Mãe e meus irmãos são os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática! Podemos encontrar Jesus nas pessoas crentes e praticantes. Mas teremos, sempre, que ir mais atrás, até ao Templo, até ao coração, pelo silêncio, pela oração, pela Palavra, para que Ele nos fale ao coração.

– Três dias depois… o texto remete-nos para a vida nova que reencontramos em Jesus Cristo. Ele ressuscitará ao terceiro dia!

– E novamente, voltar a casa, à terra, à vida quotidiana e ser-Lhe submissos, isto é, dispostos a acolher a Sua vontade, traduzindo-a em obras de caridade.

 

5 – A primeira e a segunda leitura apontam-nos o caminho para sermos verdadeiramente família. Paciência, escuta, oração, tolerância, respeito, fazer a vontade de Deus. 

Ben Sirá recorda-nos o mandamento divino: honra pai e mãe e terás longa vida. "Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe…. Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida… a tua caridade para com teu pai converter-se-á em desconto dos teus pecados".

São Paulo é perentório: "Revesti-vos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência… Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo". A referência é o próprio Deus que em Jesus Cristo nos mostra o Seu amor e o Seu perdão. Se aos filhos cabe escutar e obedecer, aos pais compete usar de bom senso, sem exasperar os filhos. "Tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai". Também neste enquadramento o amor mútuo dos esposos: à obediência das mulheres aos maridos corresponde o amor dos maridos às mulheres. E, como sabemos, a verdadeira obediência só acontece no amor.

 

6 – "Senhor, Pai santo, que na Sagrada Família nos destes um modelo de vida, concedei que, imitando as suas virtudes familiares e o seu espírito de caridade, possamos um dia reunir-nos na vossa casa para gozarmos as alegrias eternas".

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Sir 3, 3-7. 14-17; Sl 127; Col 3, 12-21; Lc 2, 41-52.


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