Festa da Apresentação do Senhor - 2 de fevereiro de 2020


1 – Num qualquer relacionamento há necessidade e, por vezes, urgência de dizer uma e outra vez e outra ainda que gostamos, que amamos, que queremos bem, que contamos com o/a outro/a. Os pais e os filhos, os namorados, os casais, os amigos. Até podemos sentir a proximidade e o bem-querer e perceber pelos gestos quanto nos estimam e fazemo-lo (nós) em relação aos outros, mas ainda assim precisamos de o ouvir e de o dizer. Quantas vezes as mães dizem aos filhos que os amam? E quantas vezes esperam que os filhos lhes digam o mesmo? Quantas vezes (ao dia) pessoas enamoradas têm necessidade de ouvir e de dizer que amam o/a outro/a mais tudo?

A apresentação de Jesus no Templo corresponde à Sua consagração a Deus! Mas se é Filho de Deus que necessidade haveria de O consagrar novamente a Deus, de O colocar sob a bênção de Deus?

Como se vê por ocasião do Seu batismo, no rio Jordão, e como diz a João, Ele assume a biologia mas também a cultura, os usos e costumes, as tradições do Seu povo e das suas gentes, assume e integra o que há de purificar, elevar e salvar, em nada se alheando ou se distanciando do que O identifica como judeu. Cumpre-se a justiça. Ou melhor, Deus ajusta-Se, em Cristo, ao ser humano. Por outro lado, numa perspetiva mais instrumental, mas não menos autêntica, para que vejamos, ouçamos e sintamos, para que experimentemos a Presença de Deus na carne humana de Jesus e nos deixemos envolver por Ele, Deus connosco.

 

2 – São José e Santa Maria têm a preocupação, como muitas outras famílias, de educar o seu filho na cultura, nas tradições e na vivência da religião. Querem o melhor para Jesus e sabem que o melhor, o que O fará mais humano, mais disponível para os outros, mais perto da verdade que nos irmana, passa pela educação, pela inserção à comunidade e de maneira muito particular à comunidade crente, com os seus ritmos, tempos e celebrações.

Nem tudo poderão controlar. Isso é visível na vida de Nossa Senhora, é visível na vida de São José. Mas há escolhas que podem fazer. Deus não lhes deu um receituário para agir nas diferentes situações. Por vezes, todos nós, gostaríamos de ter uma resposta clara, uma solução perfeita, um caminho inequívoco pela frente. Porém, somos limitados, não abarcamos todas as premissas, não temos um conhecimento real e absoluto de todas as variáveis provocadas ou das consequência futuras das nossas decisões. Cabe-nos, todavia, tentar o melhor, dar o melhor, procurar o que é justo e agradável a Deus, sendo que tudo o que é agradável e conforme à vontade de Deus não pode, de todo, ser prejudicial ao nosso semelhante.

Seguindo as prescrições da Lei mosaica, Maria e José levam Jesus ao Templo. "«Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor".

Jesus vem para nos assumir e nos redimir e, por conseguinte, não Se alheia das coordenadas espácio-temporais e do mundo concreto da história, da cultura e da religião. Humanamente, não é mais do que ninguém. Cumpre a Sua parte. Chegará o tempo em que iluminará toda a realidade, chegará o tempo que dará a vida para salvar, para elevar (ressuscitar) tudo para Deus.

 

3 – Deus revela-Se, em plenitude, em Jesus Cristo. A eternidade faz-Se peregrina do tempo, o Céu desce à terra, a intemporalidade assume um rosto na história, o Universal faz-Se ver no concreto de uma Pessoa, Jesus Cristo, Deus feito homem. Mas, a plenitude tem ramificações anteriores e posteriores, há acontecimentos e sinais que manifestam o Amor de Deus! E há pessoas cuja humanidade reflete com mais clareza o rosto e a presença de Deus. Pressupõe humildade, amor e sensibilidade, e preparação. Não basta ver, é preciso um coração dócil para acolher os sinais e perceber que Deus está nos acontecimentos.

Simeão e Ana são duas destas pessoas, sensíveis, crentes, simples e pobres, sem sobrancerias e falsas nobrezas, foram-se treinando a reconhecer os sinais com os quais Deus Se manifesta próximo. Cada um a seu jeito e nas suas circunstâncias. Um e outro alimentam-se de Deus e, por conseguinte, são capazes de ver além das aparências, além da carne, são capazes de ler a alma das pessoas que entram no Templo e regressam aos seus afazeres quotidianos.

Simeão era um homem justo e piedoso, o Espírito Santo estava nele. Veio ao Templo movido pelo Espírito que lhe revelara que não morreria antes de ver o Messias do Senhor. Ao receber Jesus nos seus braços, bendiz a Deus, dizendo: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo».

Por sua vez, Ana, louva a Deus, fazendo-se ouvir, e fala acerca d'Aquele Menino a todos os que esperavam a salvação, isto é, aqueles e aquelas que estão disponíveis para acolher a novidade de Deus.

 

4 – E Simeão prossegue, abençoa os pais de Jesus e diz a Maria: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição; – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».

Cada pessoa que passa na nossa vida não deve ser indiferente, traz Deus, deixa marcas da sua passagem. Ou, será bom que assim seja! Pelo outro, porque irradia Outra Presença. Por nós, porque denota que estamos despertos e atentos aos sinais de Deus.

Este Menino não será indiferente. Será sinal de contradição, clarificará os pensamentos de todos, positiva ou negativamente. A luz que d'Ele irradia, salvação para todas as nações, atrairá uns para o bem, para a verdade e levará outros a esconder-se por se sentirem expostos na Sua luz. Deixemos que as nossas trevas sejam trespassadas pela Sua luz e, como Ele, cresçamos em sabedoria e graça.

 

5 – Simeão e Ana podem constatar que Aquele Menino cumpre as promessas de Deus ao Seu povo.

O profeta Malaquias faz-nos visualizar, cinco séculos antes de Cristo, o tempo em que o Senhor Se manifestará pelo Seu mensageiro, pelo Anjo da Aliança, por um tempo de Luz.

«Ele aí vem – diz o Senhor do Universo –. Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda, quem resistirá quando Ele aparecer? Ele é como o fogo do fundidor e como a lixívia dos lavandeiros. Sentar-Se-á para fundir e purificar: purificará os filhos de Levi, como se purifica o ouro e a prata, e eles serão para o Senhor os que apresentam a oblação segundo a justiça. Então a oblação de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, como nos anos de outrora».

Como não ver, nas palavras de Simeão, este fogo que se anuncia n'Aquele Menino?

 

6 – Se Ele, Deus connosco, vem para todos, obviamente também somos beneficiários desta vinda. Com a oração inicial da Eucaristia, suplicamos ao Senhor: "Deus eterno e omnipotente, humildemente Vos suplicamos que, assim como o vosso Filho Unigénito foi neste dia apresentado no templo, revestido da natureza humana, assim também, de alma purificada, nos apresentemos diante de Vós".

Com efeito, relembra-nos a Epístola aos Hebreus, Cristo assume-nos para que aprendamos a assumi-l'O, configurando-nos com Ele. "Uma vez que os filhos dos homens têm o mesmo sangue e a mesma carne, também Jesus participou igualmente da mesma natureza, para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo, e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos à servidão, pelo temor da morte. Porque Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão. Por isso devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus, e assim expiar os pecados do povo. De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem provação".

O tempo futuro depende das escolhas que hoje fizermos. A eternidade já iniciou, vive-se na história e no tempo, na minha e na tua vida. Não deixemos para a amanhã o que podemos viver hoje. Amanhã é sempre tarde demais. Ele vem ao nosso encontro e socorre-nos, mas depende de nós acolher a Sua misericórdia e deixar-nos plasmar pelo Seu Espírito.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Mal 3, 1-4; Sl 23 (24); Hebr 2, 14-18; Lc 2, 22-40.


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