Domingo XXXIII do Tempo Comum - ano C - 17 de novembro de 2019


1 – No final de tudo, o que importa não é o que tenhamos amealhado, produzido, desenvolvido, os títulos que prefixam o nosso nome, o estatuto convencional, mas o amor, a forma como lidámos com o nosso semelhante, com aqueles que Deus colocou na nossa vida e que nos confiou para cuidarmos. Só isso vale, só isso, em definitivo, é decisivo. Claro que, em tudo o que fazemos, podemos e deveremos colocar o melhor de nós para que sejam tradução do amor que Deus nos tem e que traduzimos e concretizamos com os outros.

Ao aproximar-nos do final do ano litúrgico, estamos no penúltimo domingo deste Tempo Comum, as leituras, propostas na Eucaristia, remetem-nos para o fim último, para a vida eterna, a ressurreição dos mortos e, decorrente daqui, o julgamento final, comparecendo, todos, diante de Deus. Até lá cabe-nos viver, amar, aproveitar o tempo presente, gastar-nos em prol uns dos outros, não deixando para depois, já que este será sempre tarde de mais.

 

2 – O evangelho foca-nos numa crítica que, também hoje, se faz sentir sobre a arte, a beleza e a riqueza dos templos, das Igrejas, Catedrais, Basílicas e, até mesmo, do Vaticano. O corpo de Cristo em cálices de ouro enquanto Cristo nos mais pobres morre à fome, ao frio, destruído por doenças e toxicodependências!

Vamos por partes.

A Igreja é, também hoje, uma das instituições mais comprometidas com os desfavorecidos, presente na educação, desde creches e infantários a centros de dia e lares, na saúde, com clínicas e hospitais, religiosos a trabalhar nos países do terceiro ou quarto mundos, apoio a toxicodependentes, a mães solteiras, a crianças abandonadas, a pessoas com deficiência profunda. Por outro lado, as pessoas comprometidas na Igreja, e que dão muito à Igreja-Instituição, são das que mais facilmente estão prontas para ajudar, contribuindo com dinheiro e trabalho, estão sensibilizadas e, como cristãos, são rosto caritativo da Igreja.

Houve ou há exageros? Como em tudo! Vendem-se as Igrejas e dá-se aos pobres? Vende-se o Vaticano e dá-se aos pobres? Vendem-se as obras de arte e dá-se aos pobres? Os cálices, as patenas, os paramentos, as sagradas custódias, as imagens dos santos? Mas com que autoridade? Há dias o Papa Francisco dizia que muitos destes bens são património da humanidade, não se podem alienar e, por outro, o que resulta do turismo religioso, cria fundos para ajudar os pobres. A propósito, no nosso caso português, quando o Estado Português colocou à venda os quadros de um pintor espanhol, possibilitando, com a venda, aliviar a carga dos mais desfavorecidos, logo se levantaram vozes e baixos-assinados para que as obras de arte (de gosto duvidoso) se mantivessem na posse o Estado, pois nem tudo é vendável. Então qual é o critério? Depende dos "donos" dos bens culturais?

A começar nas nossas comunidades, o património cultural e artístico é fruto de dádivas de pessoas crentes e famílias que quiseram, e continuam a querer, o melhor para Jesus, para Deus, para uma casa que é de todos e para a todos acolher. Se em nossas casas temos do melhor, dentro das possibilidades, então, também na casa de todos teremos o melhor, tanto quanto possível! Seria impensável que um sacerdote pegasse num cálice de prata e o vendesse para fazer dinheiro para os pobres, quando não foi ele que o comprou e quando, sabemos todos, haja vontade, é possível ajudar os mais desfavorecidos. E são as mesmas pessoas a ajudar, pois a vivência autêntica da fé fá-los voltar para Deus e para os outros.

 

3 – Em cada instante da nossa existência, como cristãos e em Igreja, teremos que avaliar as nossas opções e prioridades para aferir até que ponto estão em sintonia com Jesus e com o Seu Evangelho de amor, de perdão e de justiça, de serviço, de paz e bondade.

E, neste Dia Mundial dos Pobres, por maioria de razão, teremos que verificar se a opção preferencial pelos pobres é verdadeira e se, realmente, fazemos a nossa parte, individual e comunitariamente, e se contribuímos, pública e politicamente na criação de medidas para a erradicação da pobreza. Não apontemos aos outros... sem termos feito tudo o que nos compete.

Jesus, uma e outra vez, relembra-nos o essencial. Os lugares são importantes, como símbolos e espaços de encontro, de fé e de vida, de confraternização, de partilha e de identificação (enraizamento num povo, numa cultura, numa família ou numa religião), mas ainda assim são provisórios, por mais belos que sejam. «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Conclusão óbvia, preocupemo-nos sobretudo com o que perdura. Jesus não discursa sobre os adornos do Templo mas sobre a provisoriedade do tempo!

Os discípulos preocupam-se com o acessório, como nós, tantas vezes, quando, onde, como será isto? A resposta de Jesus não poderia ser mais concludente: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim».

O Mestre dos Mestres alerta os seus discípulos para as dificuldades que advirão, mas simultaneamente os desafia à persistência, mesmo que perseguidos ou aprisionados. Há sempre um lado positivo, nem que seja o de darem testemunho, «Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do Meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

Ao lamento pelo tempo presente ou aos cálculos pelo futuro, escolhamos todos os momentos para testemunhar a fé, partilhar a vida, praticar o bem.

 

4 – O profeta Malaquias acalenta a esperança em Deus, a esperança além de todas as tribulações. "Há de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores. O dia que há de vir os abrasará – diz o Senhor do Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. Mas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação".

Também na primeira leitura sobressai, não tanto o medo, mas a opção pelo bem, pela justiça. A questão não é o dia que se aproxima, ou o fim que está para vir, o que importa é o que fazemos agora com o tempo que Deus nos dá e como procuramos ser fiéis ao Senhor e aos Seus mandamentos. Se optamos pela verdade e pela justiça, se optamos por Deus, Deus far-nos-á justiça. É isso precisamente que também o salmo nos garante: «Diante do Senhor que vem, que vem para julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos com equidade».

 

5 – Refletir sobre o fim far-nos-á valorizar o tempo presente. Há sempre a possibilidade de vivermos o instante sem qualquer prisma de futuro, mas então os instantes serão apenas isso. Como víamos anteriormente, não haver uma perspetiva de vida eterna, de um fim que seja termo mas também finalidade, passagem a outra dimensão vital e garantia que não acabaremos no vazio, no nada existencial, levar-nos-á a apostarmos no prazer e no poder, fazendo prevalecer a nossa vontade e tudo o que nos dá prazer, ainda que tenhamos de passar por cima de alguém. Viver com intensidade cada instante, mas sabendo que no final cada instante estará diante de Deus, não nos faz alienar do mundo, mas comprometer-nos-á ainda mais uns com os outros, sabendo que tudo conta para Deus.

No Apóstolo São Paulo vê-se constantemente a tensão entre a vida eterna, o encontro definitivo com Jesus, na glória do Pai, e a vida terrena, peregrinos neste mundo, comprometidos com os outros. A certeza do amanhã não nos faz cruzar os braços, pelo contrário, leva-nos a um empenho mais firme por realizarmos, já, o que nos compete, o que está ao nosso alcance, para sermos fiéis a Cristo Jesus, que Se gastou por inteiro a favor de todos. Perdeu a vida, oferecendo-a, gastando-a e dessa forma o Pai o fez entrar na Sua glória eterna.

Paulo testemunha, com a sua vida, o seu compromisso com o evangelho, o que não implica o desligamento com as preocupações do dia a dia, nomeadamente quanto ao ganha-pão. «Não vivemos entre vós na ociosidade, nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós... Quem não quer trabalhar, também não deve comer». O Apóstolo dá o exemplo, trabalhando, já bem basta aqueles que não têm saúde ou idade ou oportunidade para tal.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Mal 3, 19-20a; Sl 97 (98); 2 Tes 3, 7-12; Lc 21, 5-19.


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