Domingo XXXII do Tempo Comum - ano A - 12 de novembro de 2017


1 – O futuro só a Deus pertence e por mais que nos digam que temos que acautelar o futuro, o certo é que temos de viver bem o presente, enraizados no que somos e nas ligações que construímos com os outros, em família, no trabalho, em sociedade, na Igreja. Estar vigilante, creio, não é ficar à espera que tudo corra bem, que não haja anomalias, surpresas, alteração dos fatores previstos. Estar vigilante é dar o melhor de nós, agora, sem hesitações, sem reservas. De algum modo, não temos que esperar, temos que antecipar o futuro, viver, gastar os dons que Deus nos dá, colocá-los ao serviço da humanidade que vive à nossa volta. E quando Ele vier estaremos preparados, pois as nossas lâmpadas estarão acesas com a caridade e com todo o bem que fizemos.

Mais uma parábola de Jesus. «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo». Quando se espera alguém importante, a espera é uma atitude positiva de quem se veste de festa e de alegria. Numa boda, os familiares e amigos ficam tão ou mais nervosos que os noivos e tudo fazem para que eles se sintam confortáveis e para que tudo corra bem.

Dez donzelas, «cinco eram insensatas e cinco eram prudentes». Uma espécie de damas de honor, mas no caso para acompanhar o esposo à festa. Elas farão com que seja um momento bonito, não apenas para recordar mais tarde, mas para viver com esplendor e beleza no momento presente.

A paciência é uma virtude. Quem espera por amor consegue superar-se e manter-se vigilante para surpreender a chegada do amado, ou no caso presente, do esposo. Quem espera por frete cansa-se aos primeiros minutos de espera. Contudo, parece que a espera foi mais demorada, pois todas adormeceram.

O amor pode ser intenso, vívido, compensador, mas as dificuldades que a vida coloca podem ser arrasadoras. O amor não livra do sofrimento, da paciência e da criatividade.

2 – Quem vai para o mar prepara-se em terra. Todas as 10 virgens adormeceram perante o atraso do esposo. Porém, algumas preveniram-se. Pelo sim, pelo não, levaram as lâmpadas cheias e azeite nas almotolias. Foram pró-ativas. É uma expressão muito usada na atualidade. Ser pró-ativo é prever o que pode acontecer e não deixar tudo ao acaso. Nem tudo é controlável. O futuro só a Deus pertence. Mas, dentro das limitações, é possível prever e prevenir algumas situações. Vou viajar para um país muito quente, mas talvez possa levar alguma peça de roupa mais quente para o caso de arrefecer de repente! Está a nevar e a carrinha do pão poderá não vir nos próximos dias, então compro mais pão…

Quando, no meio da noite, se ouve uma voz a anunciar a chegada do esposo, as virgens insensatas apercebem-se que lhes está a faltar azeite e pedem-no às virgens sensatas, que, de forma prática respondem: «Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores».

Uma parábola não é uma narração pormenorizada e, por conseguinte, podemos sempre fazer conjeturas, apontar diversos significados ou desafios, mas nem todos os elementos têm um significado particular, tão-somente fazem parte do conjunto com o qual Jesus nos interpela. De contrário poderíamos supor que aquelas virgens foram egoístas, ainda que se entenda: se o objetivo é conduzir o esposo até ao lugar da festa, durante a noite, será necessário haver azeite suficiente para aguentar as lâmpadas acesas para se ver o caminho e para nos deixarmos ver. Aqui a divisão material poderia levar a uma maior luminosidade mas, com o avançar do tempo, apagar-se-iam todas as lâmpadas e, sendo noite cerrada, ficariam todos a meio do caminho. Na opção tomada pela sensatez das donzelas precavidas será possível conduzir o esposo até à festa, até à esposa.

 

3 – «Todo aquele que se declarar por mim, diante dos homens, também me declararei por ele diante do meu Pai que está no Céu. Mas aquele que me negar diante dos homens, também o hei de negar diante do meu Pai que está no Céu» (Mt 10, 32-33). Este alerta de Jesus aos seus discípulos e à multidão, a mim e a ti, pode ajudar a perceber o descuido na alimentação das lamparinas.

A luz da fé abre-nos o coração a Deus e ao próximo. Não nos resguarda das adversidades, mas põe-nos de sobreaviso, prepara-nos e fortalece-nos para os momentos de sonolência, de sofrimento, de escuridão, de espera. Precisamos, tendo como referência a parábola, de um suplemento de luz.

Mas como? Talvez valha a pena recorrer novamente a Santa Teresa do Menino Jesus quando toma consciência que a sua morte se aproxima inexoravelmente, pela debilidade física que experimenta e que se vai acentuando. Reclama de Deus uma palavra, um sinal, mostrando, talvez como Job, que tem procurado ser simples, humilde, pobre, para fazer resplandecer a bondade e a ternura de Jesus. Mas ao fim de contas está a morrer e (aparentemente) Deus não lhe vale. Teresa de Lisieux faz saber que a fé pode extinguir-se, mas tem mais azeite na almotolia, tem o amor, a caridade, o serviço. Pode dizer com São Paulo, fiz-me tudo para todos, para ganhar a todos para Jesus Cristo. Ainda que a fé vacile, o amor conduzir-me-á até Deus, até à eternidade.

As virgens adormeceram enquanto esperavam. Pode acontecer-nos a todos. As lamparinas foram gastando o azeite disponível, as cinco que não se precaveram não puderem acompanhar o esposo, não puderem mostrar-se para que ele as reconhecesse e as introduzisse no lugar do festim. Na dúvida, talvez valha a pena enchermos as nossas almotolias e apostar que dessa forma seremos reconhecidos por Deus, já que reconhecemos, amámos e servimos os seus filhos. O alerta ressoa no nosso coração: «Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».

 

4 – A luz da fé ilumina-nos desde dentro. A vivência e o compromisso social é expressão do amor que nos guia, da luz que preenche o nosso olhar, da alegria que nos anima, da paz que nos desafia, do Deus que nos habita.

A primeira leitura convida-nos a acolher e a meditar na sabedoria, pois «a Sabedoria é luminosa e o seu brilho é inalterável; deixa-se ver facilmente àqueles que a amam e faz-se encontrar aos que a procuram. Antecipa-se e dá-se a conhecer aos que a desejam. Quem a busca desde a aurora não se fatigará, porque há de encontrá-la já sentada à sua porta. Meditar sobre ela é prudência consumada e quem lhe consagra as vigílias depressa ficará sem cuidados».

A primeira forma de caridade é acolher Deus que é Amor. Quem acolhe Deus, vive para amar do jeito que Deus nos ama. Esta é a Sabedoria que Ele nos dá e que para nós coincide com Jesus Cristo, a sabedoria do Pai, que nos é revelada pelo Espírito Santo.

É em Jesus que alimentamos a nossa fé e a nossa vida; é Ele que nos ilumina e nos concede a graça da salvação. Espírito de Cristo, Espírito de Sabedoria, santo Espírito que nos faz rezar cantando com as palavras que coloca em nossos lábios e nos nossos corações: «Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro. A minha alma tem sede de Vós. Por Vós suspiro, como terra árida, sequiosa, sem água. A vossa graça vale mais que a vida; por isso, os meus lábios hão de cantar-Vos louvores. Assim Vos bendirei toda a minha vida e em vosso louvor levantarei as mãos. Serei saciado com saborosos manjares e com vozes de júbilo Vos louvarei. Quando no leito Vos recordo, passo a noite a pensar em Vós. Porque Vos tornastes o meu refúgio, exulto à sombra das vossas asas».

 

5 – O cristão sabe que este mundo é uma passagem, não estamos cá desde sempre nem ficaremos eternamente. A nossa pátria está no Céu, a nossa Pátria verdadeira é Deus. Cristo encontra-Se lá, junto do Pai, e para lá nos conduzirá pelo mesmo Espírito que nos enviou e que nos renova e nos fortalece, nos inspira e nos compromete constantemente.

Mas não esqueçamos que somos cristãos, isto é, somos de Cristo. A nossa missão é afeiçoar-nos às coisas do alto, afeiçoar-nos a Cristo Jesus. Tomar as Suas feições, agir do Seu jeito. Ele, diz-nos São Pedro, passou fazendo o bem. Não é uma passagem "saltimbancos", sem vestígios, sem compromissos, sem ligações. Muito pelo contrário, Jesus está de passagem mas permanece, para, deixa vestígios, intervém, sabe que o tempo é breve e que há muito a fazer, a construir, a edificar, a renovar. Se estivesse por mais tempo talvez pudesse distribuir o trabalho pela agenda, a longo prazo. Mas se está por pouco tempo, há que fazer o máximo. Assim Ele, assim nós. Fazendo do mesmo modo que Ele, com Ele seremos elevados à glória do Pai. «Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido».

O Apóstolo Paulo continua a pregar Jesus, a dar-nos Jesus, a conduzir-nos a Jesus. Não quer que vivamos iludidos sobre o futuro, sobre o que virá depois, porque o futuro a Deus pertence. Se também Lhe pertencermos, também o futuro junto de Deus nos há de pertencer.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (A): Sab 6, 12-16; Sl 62 (63); 1 Tes 4, 13-18; Mt 25, 1-13.


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