Domingo XXXI do Tempo Comum - ano C - 3 de novembro de 2019


1 – As aparências iludem. Quantas vezes! Jesus apresentava, há oito dias, a postura de um publicano, cuja imagem social era odiosa. Os publicanos aparecem lado a lado com os pecadores públicos, são colocados sob a mesma bitola, pessoas de má índole, que devem viver à distância, não são bem quistos nem social nem religiosamente.

São cobradores de impostos! Bem vemos a dificuldade, também hoje, em lidar com impostos, sabendo o que nos custa e reconhecendo que nem sempre são utilizados para o fim com que foram cobrados, para favorecer o bem comum, melhorando os serviços públicos, mormente nos campos da saúde e da educação e do acesso aos serviços.

Um publicano cobrava impostos para a potência invasora, para o imperador romano, impostos para as autoridades judaicas e para o Templo, e boa maquia para si e para a sua família. E tinha as costas quentes, sendo protegido pelos soldados romanos.

Em confronto, no domingo passado, Jesus colocava um fariseu, autossuficiente, que se endeusa diante de Deus, menosprezando os outros, e um publicano, que se apresenta como se sente, pecador, suplicando pela compaixão de Deus. Dizia-nos, então, Jesus que este saiu do Templo justificado. Apresenta-no-lo como modelo de oração e de postura diante de Deus. Hoje, Jesus encontra-se com outro publicano, melhor, um chefe de publicanos, logo com mais responsabilidade e mais odiado por isso.

 

2 – Jesus atravessa a cidade de Jericó e Zaqueu procura vê-l'O, mas, diz-nos o evangelista, é um homem de baixa estatura e a multidão não facilita esse desejo. Começamos logo a ver as dificuldades: as circunstâncias que nos rodeiam e as nossas limitações. A multidão, quando funciona como tal, para o bem e para o mal, atua quase sempre irracionalmente, compacta segue a voz de comando ou a voz de quem fala mais alto. É impessoal. Alguém grita e seguem todos atrás. Mais à frente havemos de ver como a multidão comandada por meia dúzia de doutores da lei e alguns fariseus pressionarão a prisão, a condenação e a morte de Jesus. Hoje, esta multidão impede que Zaqueu chegue perto de Jesus. Haverá momentos, diga-se, em contraponto, que a multidão também ajuda a perceber onde está Jesus e encaminha para Ele pessoas que se encontram em situação vulnerável.

As circunstâncias podem ser importantes, mas o decisivo somos nós e a forma como lidamos com as adversidades exteriores e interiores. Arredar a multidão ou irromper por meio dela poderia revelar-se uma tarefa árdua e, talvez, impossível, correndo o risco de ser esmagado, agredido ou simplesmente impedido de se chegar à frente. Zaqueu vê as possibilidades que tem pela frente e o seu propósito firme de ver Jesus. Não se fixa nos obstáculos mas no que tem de fazer. Corre, sobe a uma árvore, um sicómoro, com folhas largas, num local onde Jesus iria passar, e aguarda, resguardado de olhares curiosos e da eventualidade de alguém se aproveitar da confusão da multidão para lhe fazer mal.

 

3 – A multidão impede uma aproximação mais pessoal a Jesus. Zaqueu, sendo de baixa estatura, confronta-se com dificuldades para ver Jesus, mas está decidido a vê-l’O.

Vejamos agora a postura de Jesus. Para Jesus não há pressa, não há impedimentos, não há agenda a cumprir. O Seu caminho somos nós. Eu e tu. Ele vem, como Deus, fazendo-Se igual a nós, exceto no pecado. Mostra-Se, caminha connosco, sujeita-Se a ser amado e odiado, a ser abraçado e escorraçado, a ser acolhido ou expulso, podemos vê-l'O e persegui-l'O e até usar de violência contra Ele. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer. Tudo por amor. Somente por amor. É o amor que nos salva, que nos permite ver e nos conduz a Deus e que nos faz irmãos uns dos outros.

Zaqueu deveria estar ansioso, discretamente posicionado para ver sem ser visto. Contudo, quando dá por ela, já Jesus o descobriu entre a folhagem, desafiando-o: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Deve ter ficado atarantado, mas desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria.

 

4 – Esmiuçando um pouco mais a atitude de cada um dos intervenientes:

– A multidão murmura: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Sob a capa do anonimato, a multidão está longe de seguir Jesus, pelo menos, pelas razões certas. Não se alegra com a alegria de Zaqueu, pelo contrário, fica assoberbada, com inveja, lamentando-se, sublinhando o pecado, tal como há oito dias o fariseu em relação aos outros e ao publicano.

– Zaqueu rejubila de alegria e, ciente do perdão e acolhimento de Jesus, faz algumas escolhas: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Jesus não lhe deu qualquer ordem, fez-Se convidado. Zaqueu entendeu que a postura de Jesus leva a modificar comportamentos, não pela imposição, mas pela atração. Em Jericó, Jesus encontra Zaqueu. Pelo caminho de Jericó, encontra um cego de nascença que começa a ver depois de se encontrar com Jesus. Salta, corre, grita de alegria, porque estava cego e agora vê. O mesmo sucede com Zaqueu, o pecado impediam-no de ver, o perdão faz com que veja, com que reconheça o seu pecado.

– Jesus evidencia: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido». Jesus não olha para o pecado deste homem, não escuta as murmurações, não se preocupa com a opinião geral, não repara na estatura nem no estatuto de Zaqueu, nem na sua situação profissional ou moral, olha atentamente para aquela pessoa, vê além das aparências. Não faz juízos de valor. Não chama a atenção de Zaqueu para as suas faltas, não lhe coloca condições para ir a sua casa. Simplesmente fala com ele, reconhece-o como pessoa e não como publicano. Aproxima-se com os olhos de ver, com o coração.

 

5 – Jesus é o Amor de Deus visível no tempo e na história. Deus criou-nos por amor, para Lhe respondermos, e respondemos-Lhe, amando-O, mas sobretudo amando aqueles que Deus ama, isto é, a humanidade inteira.

Na primeira leitura, o sábio de Israel mostra como o amor de Deus supera o nosso pecado. Diante da grandeza de Deus somos como um grão de areia, uma gota de orvalho. Mas, como diria Madre Teresa de Calcutá, sem essa gota de orvalho o imenso oceano não está completo. Para Deus, por mais insignificantes que pudéssemos ser, contamos tudo. Absolutamente. Ele não olha à nossa miséria, privilegia o Seu amor por nós. Não se fixa nas insuficiências, fixa-se no nosso coração e na possibilidade em aberto de transparecermos o que somos, Sua imagem e semelhança, filhos bem-amados.

"De todos Vos compadecei e não olhais para os seus pecados, para que se arrependam. Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que fizestes... A todos perdoais, porque tudo é vosso, Senhor, que amais a vida. O vosso espírito incorruptível está em todas as coisas. Por isso castigais brandamente aqueles que caem e advertis os que pecam, recordando-lhes os seus pecados, para que se afastem do mal e acreditem em Vós, Senhor".

Insinua-se aqui, de algum modo, a paternidade de Deus. Ele é o Criador que ama, que adverte os que pecam, castigando-os com brandura para que se convertam e voltem à Sua convivência. A linguagem do sábio de Israel há de ganhar corpo e vida em Jesus: Ele é o Filho Unigénito do Pai. Mas n'Ele também nós somos filhos bem-amados.

 

6 – Com efeito, Jesus vem do Céu, da eternidade, para nos guiar para Deus, para o Seu e nosso Pai. Com a Sua vida, morte e ressurreição, com a Sua entrega, Jesus prepara-nos o caminho, melhor, Ele é o Caminho. Seguindo-O, sabemos para onde vamos.

Zaqueu percebeu que no encontro de Jesus poderia acontecer algo de extraordinário. E aconteceu. Ou começou a acontecer, pois logo se comprometeu, sem que ninguém lho tenha exigido, a dar metade dos seus bens aos pobres e a restituir a quem roubou, quadruplicando a dádiva. Paulo perseguiu Jesus e, quando se apercebeu, foi Jesus que o apanhou e a partir de então a sua vida não voltaria a ser a mesma. Dedicou-se por inteiro a seguir Jesus e a anunciá-l'O em toda a parte, utilizando os meios de que disponha, indo, enviando outros, escrevendo cartas às comunidades.

Também nós somos destinatários das missivas paulinas. Confidencia o Apóstolo: "Oramos continuamente por vós, para que Deus vos considere dignos do seu chamamento e, pelo seu poder, se realizem todos os vossos bons propósitos e se confirme o trabalho da vossa fé. Assim o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós, e vós n’Ele"

A graça do Batismo torna-nos novas criaturas, cabe-nos acolher e potenciar os dons de Deus para que em nós se vislumbre Cristo, o mistério da Sua morte redentora e da Sua ressurreição, até ao dia em que Ele regresse ou nos faça regressar à casa paterna. Sem medo. Não nos deixemos condicionar pelos falsos profetas: "A propósito da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e do nosso encontro com Ele: Não vos deixeis abalar facilmente nem alarmar por qualquer manifestação profética, por palavras ou por cartas, que se digam vir de nós, pretendendo que o dia do Senhor está iminente".

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Sab 11, 22 – 12, 2; Sl 144 (145); 2 Tes 1, 11 – 2, 2; Lc 19, 1-10.


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