Domingo XXXI do Tempo Comum - ano A - 5 de novembro de 2017


1 – Cada um de nós sabe que existe, mas precisa de ser reconhecido, de ser visto, de ser ouvido, de se sentir amado, acolhido, de se sentir pessoa. Quando uma pessoa se sente invisível, sente-se morrer, encolhe-se, parece desaparecer. A impressão que lhe chega dos outros é acompanhada pela desistência, destruindo qualquer autoestima. Não é apenas a consciência pessoal que conta, mas também a consciência que existe com os outros e para os outros. Um dos dramas do nosso tempo é a solidão. A doença também. A pobreza (material e espiritual). O relativismo. A indiferença. A globalização da indiferença. A corrupção. O terrorismo. O fosso entre pobres e ricos. A violência. O clima. O desemprego. O trabalho precário. O tráfico de órgãos do corpo humano e de pessoas. A solidão. A depressão. O esgotamento mental.

Vivemos num tempo de grande combatividade. O ritmo da vida é acelerado. O stresse toma conta das pessoas. É necessário responder rapidamente, ao segundo. Temos tudo ligado. Durante todo o tempo. O telemóvel, o computador, a televisão, o tablet. Há que inovar. Desfazer-se do velho, porque novas coisas estão a emergir. O desgaste é desproporcional à nossa capacidade de visualização, de compreensão, de aceitação, de transformação. Antes, íamo-nos habituando às situações. O que iria acontecer já estava implícito no que estava a decorrer. O organismo adaptava-se ao evoluir dos acontecimentos. Havia tempo para refletir. Para discutir. Para absorver. Hoje, o tempo é veloz, tudo se esfuma num instante. Surgem os acontecimentos e só depois a visão, a aceitação. Quando muda a hora, precisamos de um dia ou dois ou mais para nos habituarmos. O corpo leva o seu tempo a habituar-se. Para quem viaja de um país para outro com um fuso horário diferente em várias horas sabe como o corpo se ressente. Até já há um nome para este fenómeno: jet lag – descompensação horária.

Tanta tecnologia, tanta vida, tanta dispersão, tanta tensão, tantos afazeres! E o que precisamos é de amar e ser amados. "Marta, Marta, andas tão atarefada, mas uma só coisa é necessária..." Precisamos de encaixar as diferenças que nos enciúmam, de limar as arestas que nos ferem mutuamente. Precisamos de nos aceitar na nossa pobreza e fragilidade, nas nossas limitações e nas nossas imperfeições. Precisamos de nos tornar novamente humanos.

2 – Como é que nos fazemos ver? Como é que nos fazemos amar? Como é que nos tornamos importantes para os outros? Ou essenciais nas suas vidas? Pela grandeza? Pelo poder? Pela capacidade económica? Pelas muitas qualidades que temos? Mas como? Pela capacidade de controlar os outros ou pela esperteza em os enganar?

O Pobre de Nazaré de tão pobre que era que deu a Sua vida por inteiro, a favor de todos. Não tinha nada, ou coisa pouca, como habitualmente as famílias que viviam nos pequenos vilarejos, que sobreviviam entreajudando-os, com os frutos da terra, num trabalho duro, esforçado, de sol a sol, com animais de pequeno porte, e com os trabalhos de manufatura que desenvolviam. Não tinha muito. À época a Sua deveria, ainda assim, ser uma família remediada, mas encostada mais à indigência que à burguesia. Um quase nada, a não ser um coração do tamanho do mundo, da terra até ao Céu.

Jesus fez-Se ver pela delicadeza, pela ternura, pelo sorriso e pelas lágrimas, pela comoção, pela proximidade física e afetiva. N'Ele vê-se o rosto de um Deus novo, não inventado, mas um Deus revelado em palavras e em gestos de misericórdia, de perdão, um Deus de amor, um Deus que é Pai e nos ama com amor de Mãe, que Se entrega, que Se gasta e desgasta a favor de cada um, vai/vem ao encontro da ovelha desgarrada, perdida, ferida, a que se encontra à margem do rebanho. Para que ninguém se perca! Cada pessoa vale tudo para Deus. É Jesus quem no-lo mostra.

Os mais importantes? Os mais sábios? Os mais poderosos? Os mais saudáveis? Para Deus, diz-nos Jesus valemos tudo! Valemos todos! Mas a prioridade são os desvalidos. Quem fizer mal a um dos mais pequeninos, aos mais frágeis, é a Jesus que faz mal, é de Jesus que não cuida, é a Jesus que não presta atenção.

 

3 – Há quem se imponha pela delicadeza! Há quem se afirme pela prepotência! Existe quem se coloque em primeiro lugar, à frente de tudo e de todos! Existe quem faça questão de colocar os outros em primeiro lugar! Como é que fez Jesus? Como é que eu faço? Em que pé te fixas?

Os outros são uma bênção de Deus, uma oportunidade para crescermos? Ou os outros são um estorvo? Como diria Sartre, os outros serão o inferno? Partimos, mais uma vez do pressuposto que todos precisamos de nos sentir reconhecidos como pessoas, precisamos de amar e de ser amados. Há quem precise de forçar, de se impor e há quem se afirme naturalmente pela bondade, pela simplicidade, pela atenção aos seus semelhantes.

A sensibilidade de Jesus fazem-n'O opor-se a toda a imposição, à força e prepotência, à indiferença perante o sofrimento dos outros. Para Ele o primeiro lugar é para os simples, os pobres, os perseguidos, os pacificadores, os que promovem a justiça e usam de misericórdia. O caminho é o do serviço, do amor e do perdão. A Jesus faz-Lhe espécie que doutores da Lei e fariseus exijam mais que a Palavra de Deus e que obriguem os outros a cumprir quando os próprios não o fazem. Mete-lhe confusão que vivam à custa dos mais pobres, explorando-os, usando a religião em benefício próprio.

«Na cadeira de Moisés – diz Jesus – sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens».

Jesus convida-nos então a uma postura diferente: «Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado». É a postura de quem serve, de quem se dá, de quem se afirma pelo serviço e pelo amor, considerando os outros como irmãos. Não somos nem mestres nem senhores, somos filhos do mesmo Deus, do mesmo Pai.

 

4 – A profecia de Malaquias apresenta Deus como um grande Rei, como Senhor do Universo, temível entre as nações. Mas logo se percebe que essa omnipotência visa proteger os mais simples do povo e assegurar que são tratados com deferença.

As palavras de Deus voltam-se para os sacerdotes: «Vós desviastes-vos do caminho, fizestes tropeçar muitos na lei e destruístes a aliança de Levi... Por isso, como não seguis os meus caminhos e fazeis aceção de pessoas perante a lei, também Eu vos tornarei desprezíveis e abjetos aos olhos de todo o povo. Não temos todos nós um só Pai? Não foi o mesmo Deus que nos criou? Então porque somos desleais uns para com os outros, profanando a aliança dos nossos pais?».

A Lei é para todos. Há um só Pai, um só Deus! Então de onde advém a deslealdade, a sobranceria? A Aliança é feita para estreitar laços entre todos, para a todos incluir, para fazer prevalecer o amor de Deus, como dom, recebido, como partilha no compromisso com os outros. Usar as palavras de Deus para espezinhar os outros ou os escravizar é contra a vontade de Deus. Malaquias antecipa em séculos a postura de Jesus e a repreensão aos doutores da lei e, claro, também a nós, quando a fé não serve para fazer crescer a esperança e a caridade.

 

5 – Celebrámos, nos primeiros dias de novembro, a solenidade de todos os santos e a comemoração dos fiéis defuntos. Oportunidade para agradecermos a Deus o dom da vida dos nossos irmãos que nos precederam na vida e na fé: pais, tios, avós, amigos, vizinhos, conterrâneos, filhos, netos, sobrinhos, maridos ou esposas... tantos que vieram antes de nós... tantos que partiram à nossa frente no tempo!

Todos conhecemos pessoas que adjetivaram as suas vidas com a santidade de Deus, deixando marcas profundas na família, no trabalho, na comunidade. Não eram super-heróis, não nasceram santos. Fizeram-se! Alguns foram forjados pelo esforço, pelo sacrifício, pela vida! Outros parecem que sempre agiram com naturalidade.

São Paulo deixa-nos mais um testemunho da sua dedicação ao Evangelho: «Fizemo-nos pequenos no meio de vós. Como a mãe que acalenta os filhos que anda a criar, assim nós também, pela viva afeição que vos dedicamos, desejaríamos partilhar convosco, não só o Evangelho de Deus, mas ainda a própria vida, tão caros vos tínheis tornado para nós».

O Apóstolo dá graças a Deus porque muitos acolherem, através da sua pregação, a palavra de Deus que permanece ativa nos crentes de Tessalónica a quem se dirige.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (A): Mal 1, 14b – 2, 2b. 8-10; Sl 130 (131); 1 Tes 2, 7b-9. 13; Mt 23, 1-12.


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