Domingo XXX do Tempo Comum - ano C - 27 de outubro de 2019


1 – A oração aproxima-nos de Deus e dos outros, se feita com sinceridade.

O combustível da nossa fé é a oração que nos coloca diante de Deus, tal como somos, com a nossa pobreza, as nossas fragilidades, o nosso pecado, mas também com a beleza que nos filia em Deus, pois somos Sua imagem e semelhança. Se nos achegamos a Deus fechados no que somos, impedimos que Ele nos limpe a alma, nos ilumine o coração com a Sua graça infinita. Por conseguinte, há que postar-nos face a Deus sem reservas, sem condições nem escondimentos. No Paraíso, a desgraça de Adão e Eva não é o pecado, para a falta de confiança em Deus, falta de humildade e a incapacidade de se reconhecer com as suas faltas, deixando-se trespassar pelo Seu olhar misericordioso. O pecado não afasta Deus de nós. O pecado afasta-nos de Deus. A vergonha do encontro, o temor por termos traído o Seu amor e acharmos que Ele nos vai destruir, ou não vai olhar para nós com a mesma predileção. A oração, sendo assim, é remédio contra a apatia, contra o medo, contra a vergonha que nos leva a fechar-nos à presença do Senhor, à luz que pode transformar-nos.

A oração é encontro connosco, com a realidade que nos identifica nas sombras e nas luzes, nas qualidades e nas imperfeições, nos sonhos e nos medos, nos projetos e nos fracassos. Encontramo-nos connosco para nos deixarmos embalar pelo olhar e pela presença de Deus.

A oração é encontro, ou oportunidade de encontro, com os outros. A oração dilata o nosso coração para acolhermos os outros, para os reconhecermos como irmãos, para os tratarmos como iguais, para cuidarmos deles como de Cristo. Há pessoas que acolheram Anjos sem o saber... Se nos colocarmos diante de Deus, com sinceridade de coração, reconhecê-l'O-emos como Pai e, consequentemente, nos assumiremos como irmãos. E nunca fará sentido que tratemos Deus por Pai sem reconhecermos e assumirmos os outros como irmãos. O amor a Deus, resposta ao amor de Deus por nós, exige, como resposta, o amor ao nosso semelhante. Cabe-nos amar os que Deus ama como filhos.

 

2 – A oração purifica o nosso olhar, tornando-nos mais cientes do que somos. Jesus, neste domingo, conta-nos a parábola de dois homens que sobem ao Templo para rezar, um fariseu e um publicano. A motivação para esta parábola, diz-nos o evangelista, é para aqueles que se consideravam justos, desprezando os outros. Estamos dentro da parábola.

O fariseu apresenta-se a Deus considerando-se acima de qualquer imperfeição, contrapondo o pecado dos outros: "Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos". O foco da sua oração não é Deus, não é o louvor ou a ação de graças, não é a intercessão por si, pela sua família ou pelos outros, a sua oração é crítica mordaz e destrutiva em relação ao seu semelhante. Poderia interceder, mas leva a Deus sobranceria e azedume em relação aos outros.

A oração há de ser transparente, humilde, de quem reconhece a sua pobreza para se deixar enriquecer pela pobreza de Deus, pelo Seu amor, pela Sua graça infinita. Deus é Pai e como Pai bem sabe o que precisamos, bem sabe quem somos. E como Pai não está à espera que denunciemos os irmãos, que são igualmente Seus filhos, mas, quando muito, que intercedamos a favor deles, defendendo-os.

O publicano apresenta-se a Deus com a sua miséria, sem muitas palavras, mas com a sinceridade do seu coração: "Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador". Não precisamos de fingir diante dos nossos pais. Não precisamos de fingir diante de Deus que é Pai e nos ama com amor de Mãe. Basta abrir o coração e deixar que Deus nos purifique.

A concluir Jesus diz que o publicano saiu justificado enquanto o fariseu tem ainda um caminho longo a percorrer, "porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado".

 

3 – A soberba isola-nos, empobrece-nos, afasta-nos dos outros, impede que aprendamos, que cresçamos, amadurecendo. A pobreza dispõe-nos perante Deus e perante os outros, capacita-nos para aprendermos com os outros, enriquecendo o nosso vocabulário humano.

A voz do pobre ascende a Deus, ou melhor, atrai Deus até ao seu coração e à sua vida. "O pobre clamou e o Senhor ouviu a sua voz". Com efeito, escutámos na primeira leitura, "O Senhor é um juiz que não faz aceção de pessoas. Não favorece ninguém em prejuízo do pobre e atende a prece do oprimido. Não despreza a súplica do órfão, nem os gemidos da viúva. Quem adora a Deus será bem acolhido e a sua prece sobe até às nuvens. A oração do humilde atravessa as nuvens e não descansa enquanto não chega ao seu destino. Não desiste, até que o Altíssimo o atenda, para estabelecer o direito dos justos e fazer justiça".

O sábio de Israel coloca duas direções na oração. O pobre que clama, reza, insiste e persiste para ser escutado por Deus. E Deus que não pode não escutar e não atender o clamor daqueles que se Lhe dirigem com bondade. Deus não Se move pela multiplicação das palavras ou por belas orações, mas pela transparência do coração, pela humildade de quem está a caminho e, então sim, a oração será bela e transformadora, iluminando-nos.

 

4 – Na segunda leitura continuamos a testemunhar o ardor da fé de São Paulo que a comunica a Timóteo, incentivando-o a persistir em todas as situações, alimentando a fé, a esperança e a caridade, anunciando o Evangelho. Como rezamos no início da Eucaristia: «Deus eterno e omnipotente, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade; e para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que mandais». A oração sintoniza-nos com a vontade de Deus e compromete-nos com a missão.

O Apóstolo tem consciência do caminho percorrido por causa do Evangelho. A prisão fez parte desse caminho de evangelização mas também de purificação, para que prevalecesse sempre Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, pondo também a descoberto aqueles cuja fé os fez verdadeiramente discípulos de Jesus.

"Eu já estou oferecido em libação e o tempo da minha partida está iminente. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há de dar naquele dia; e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda". Tudo fiz, dirá São Paulo, por causa do Evangelho. Com os gregos fiz-me grego, com os judeus, judeu como eles, com os homens livres fiz-me livre e escravo com os escravos, fiz-me tudo com todos para ganhar alguns para Cristo.

Na sua peregrinação missionária, Paulo também experimentou dissabores, consciente que alguns cristãos não foram firmes o suficiente para o defenderem. Também por eles o Apóstolo reza, para que não lhes seja imputada tal falha. Contou sempre com Deus. "O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todas as nações a ouvissem".

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Sir 35, 15b-17. 20-22a; Sl 33 (34); 2 Tim 4, 6-8. 16-18; Lc 18, 9-14.


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