Domingo XXX do Tempo Comum - ano A - 29 de outubro de 2017


1 – Antes da reflexão da Palavra de Deus, a oração com que hoje iniciamos a Eucaristia: «Deus eterno e omnipotente, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade; e para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que mandais». Os mandamentos de Deus não nos aprisionam nem nos escravizam, não se impõem pela força nem nos manipulam, procuram ajudar-nos a viver melhor uns com os outros, respeitando cada um como lugar-tenente de Deus. "Não matarás" continua a ser um grito que denuncia e repudia todo o tipo de injúria e/ou de ação contra o nosso semelhante, pois equivale a desrespeitarmos a vontade Deus, que a todos nos ama como filhos.

Um doutor da Lei aproxima-se de Jesus. O propósito é experimentá-l'O, testar os Seus conhecimentos, ver se O apanha em contradição e, dessa forma, expô-l'O diante dos discípulos e perante as multidões. Saduceus, fariseus, herodianos, doutores da Lei, autoridades judaicas encontram em Jesus um inimigo comum. Não é que Jesus lhes tenha feito mal, pelo menos diretamente, mas o Seu saber, o Seu dizer e o Seu fazer, o Seu modo de agir, de Se aproximar, de Se dar, o modo de conviver com todos, especialmente com os mais desfavorecidos, provoca ciúme, ódio, inveja. Ele é LUZ que ilumina as trevas e que expõe os corações de todos. Se vivermos nas trevas qualquer lampejo de luz nos magoa a vista. Se nos habituarmos a viver a meia-luz, uma luz mais diurna vai-nos fazer perceber que afinal estávamos mais nas trevas que na luz.

É essa a alegoria da caverna de Platão. Dentro da caverna, pessoas voltadas para o interior, habituam-se a viver na escuridão. A luz e a contraluz do exterior é assustadiça, projeta figuras monstruosas, uma realidade alternativa a evitar, pois daí vêm ameaças que podem destruir-nos. Por isso há que permanecer no interior, mantendo tudo como está.

2 – Sabendo o prestígio que Jesus tinha adquirido sobretudo junto das pessoas mais simples – é seguido por multidões –, há que ser ardiloso, como víamos também na semana passada quando Lhe perguntam se se deve pagar ou não tributo a César, a potência invasora que contribui para um agravamento da vida das pessoas especialmente das mais pobres. A resposta poderia levar ao afastamento das multidões ou dar um motivo para ser acusado de sublevar o povo, instigando-o a voltar-se contra a autoridade romana. A resposta de Jesus é surpreendente: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, não usando nem fé nem os pobres para intentos pessoais.

Hoje a pergunta parece mais óbvia, menos dada a polémicas. O âmbito é diferente, pois fixa-se na religião e na lei mosaica. «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».

No judaísmo, entre grupos mais religiosos judaicos havia várias discussões sobre os mandamentos. Com o passar do tempo, os 10 Mandamentos foram multiplicados até ao número de 613 preceitos, divididos em 248 prescrições (248 corresponderiam aos ossos do corpo humano) e 365 proibições (365 correspondem aos dias que o ano tem). Vê-se desta forma o simbolismo no número de preceitos, mas também o facto que tantas minudências baralharem a vida das pessoas do povo. A fidelidade à Lei envolvia um enredo muito difícil de compreender, quanto mais de colocar em prática! Por outro lado, eram tantas as interpretações que os "especialistas" poderiam manipular as pessoas que deveriam servir com os seus ensinamentos.

A resposta de Jesus é expectável, mostrando que conhece as Escrituras: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito». Deus é a primeira referência e todos os mandamentos são decorrentes da ligação de Deus com a humanidade. Amar a Deus de todo o coração e com todas as forças é o primeiro e o maior mandamento.

 

3 – Esta resposta parece corresponder inteiramente ao que Lhe foi perguntado. Contudo, Jesus acrescenta de imediato um segundo mandamento semelhante ao primeiro: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». E conclui: «Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

A verticalidade exige a horizontalidade, a ligação ao alto exige e pressupõe o apoio no chão, no ambiente circundante, nas pessoas que nos rodeiam. Voltar-se para Deus sem os outros seria esquecer que Ele é Deus de todos e para todos. Não há religião que nos ligue à divindade sem nos ligar aos outros, a todos os outros. Só mesmo fundamentalismos estupidificantes para defender uma religião sem os outros, que seria tão nefasta como uma religião sem Deus, meramente sociológica, com valores e regras, com ritos, mas sem horizonte de futuro, sem saída, e com o risco de alguém ocupar o lugar de Deus, como infelizmente aconteceu no passado e acontece em muitos movimentos religiosos, grupos sectários em que o líder é endeusado e as demais pessoas são colocadas em situação escravizante.

O diálogo poderia continuar, como na versão lucana (Lc 10, 25-37) em que o Doutor da Lei, reconhecendo a justeza e honestidade da resposta, insiste a perguntar a Jesus: quem é o meu próximo? Nessa ocasião, Jesus apresenta a belíssima parábola do Bom Samaritano. É o modo de agir de Jesus, o Seu sentir, o fazer-Se próximo de todos, a começar pelos que estão derrubados e caídos nas bermas das estradas e das avenidas, das vielas e das ruas da vida. Próximos são todos os outros, mas o importante é se eu me faço próximo de quem precisa, se me aproximo para ver e para ajudar, para levantar a pessoa que se encontra prostrada. Daí o desafio de Jesus, assumido pela nossa diocese de Lamego: Vai, e faz tu também do mesmo modo.

 

4 – Apesar dos muitos preceitos que se multiplicaram ao longo o tempo, a Sagrada Escritura é incisiva fazendo-nos passar da fidelidade a Deus para o cuidado e o serviço ao nosso próximo. E próximos não são apenas aqueles de quem gostamos, familiares e amigos, vizinhos e conterrâneos. Também os estrangeiros, os desterrados, os refugiados, os apátridas são merecedores de justiça, de solidariedade e do nosso acolhimento deferente.

No livro do Êxodo, que hoje nos é servido para primeira leitura, estão contempladas as pessoas mais desprotegidas: «Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás... Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação... Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros. Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr-do-sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso».

As palavras de Deus não deixam margem para reflexões filosóficas, para discursos de boas intenções, mas compromete-nos no dia-a-dia. O clamor do pobre será atendido por Deus que é bom e misericordioso para com todos. Se atentarmos contra os mais pequeninos seremos responsabilizados pelo próprio Deus. Com efeito, tal como Caim também em nós está impressa a marca de Deus que nos assume como filhos, como protegidos Seus. Mas o que é para nós é para os outros. Somos responsáveis por Abel, somos responsáveis pelo que acontece aos nossos irmãos e Deus chamar-nos-á para Lhe prestarmos contas de todos aqueles que deixámos a sofrer, perdidos, na berma do caminho, na solidão da doença ou da idade, ou nos desencontros da vida.

 

5 – São Paulo tem a consciência que ao longo da vida procurou seguir Jesus, amar Jesus, testemunhar Jesus. A sua vida, a sua pregação, as suas viagens tiveram como fito levar o Evangelho até aos confins do mundo, onde havia mundo conhecido.

Palavras do Apóstolo: «Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem. Tornastes-vos imitadores nossos e do Senhor… e assim vos tornastes exemplo para todos os crentes... em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus, de modo que não precisamos de falar sobre ela. De facto, são eles próprios que relatam o acolhimento que tivemos junto de vós e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir ao Deus vivo e verdadeiro e esperar dos Céus o seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos: Jesus, que nos livrará da ira que há de vir».

Como em outras cartas, São Paulo reconhece e sublinha o trabalho apostólico das comunidades a quem se dirige. Como um Pai fica orgulhoso pelos filhos, assim o Apóstolo vendo como a fé pregada se converteu em fé vivida e testemunhada. Possa dizer-se também de nós o que São Paulo disse daquela comunidade: que a nossa fé seja atrativa e luminosa para todos os que contactam connosco.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 22, 20-26; Sl 17 (18); 1 Tes 1, 5c-10; Mt 22, 34-40.


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