Domingo XXVIII do Tempo Comum - ano C - 13 de outubro de 2019


1 – «Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?» Pergunta de Jesus, depois da cura de 10 leprosos e de só um ter regressado para agradecer.

A gratidão faz-nos (mais) felizes. Abre-nos aos outros, faz-nos reconhecer a interdependência, sem dramas, torna-nos (talvez) vulneráveis, mas também os outros ficam mais vulneráveis. A vulnerabilidade não é, em si mesma, negativa. Mais que fragilidade, devemos entendê-la como caminho, como predisposição para o outro, reconhecendo que tem importância para nós, que contamos com ele, com os seus dons e talentos, e que nos sentimos felizes por termos merecido a sua atenção.

Uma pessoa agradecida é capaz de fazer pontes, de entrar no coração dos outros e deixar que os outros façam parte da sua vida. Uma pessoa agradecida sabe rir de si mesma, valoriza as pequenas coisas e alegra-se por isso, sabe que nem tudo é um romance cor-de-rosa mas também sabe que a vida tem sempre mais a descobrir e haverá um novo dia com novas oportunidades. Uma pessoa agradecida sabe perdoar, relativizando as falhas dos outros. Prefere confiar.

Em sentido inverso, uma pessoa incapaz de gratidão tende a ensimesmar-se, a fechar-se, colocando-se em situação de sobranceria, prepotência, egoísmo, não reconhecendo o bem que os outros fazem. Prevalece o azedume, como se o mundo fosse oposição e como se os outros fossem meros "serventes" dos seus caprichos e interesses. O que o outro faz não é mais que a sua obrigação ou a sua profissão. Uma pessoa não-agradecida (ingrata) torna-se azeda, revoltada com tudo e com todos. Não admite falhas nos outros; as próprias falhas vê-as como qualidades. A ingratidão faz-nos irritadiços, presunçosos e intolerantes!

Ressalve-se, uma vez mais, que a vida não é a preto e branco, é multicolor e multifacetada, com matizes diversificadas, como diria Ratzinger, tantas quantas as pessoas. Porém, aprender a ser grato, predispõe-nos para o diálogo, para o reconhecimento do outro, para apreciarmos a vida, com as suas alegrias e adversidades.

Como tem referido o Papa Francisco, faz-nos bem, aproxima-nos uns dos outros, o uso frequente de três palavrinhas: obrigado, com licença, desculpa. Vale para a família, para as nossas relações pessoais e profissionais. A ingratidão relaciona-se habitualmente com a injustiça. Tornamo-nos injustos com os outros quando não os reconhecemos, quando não valorizamos a sua vida, a sua presença e todo bem que nos fazem, mesmo quando no-lo devem por profissão ou missão.

A gratidão faz parte e é consequência da fé. A fé liga-nos à graça de Deus, dádiva e acolhimento da vida divina. Inseridos na vida divina, vida de graça, só podemos ser agradecidos.

 

2 – Vêm ao encontro de Jesus dez leprosos e, reconhecendo a sua condição frágil, suplicam-Lhe: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós».

A reação de Jesus é imediata. Diante de pessoas concretas, com problemas reais, Jesus responde prontamente e faz o que está ao Seu alcance, contando, como se vê, com a cooperação de quem Lhe suplica. Jesus põe-nos em movimento: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». Nem precisam de chegar ao fim, o colocar-se a caminho inicia o processo de cura, "pelo caminho ficaram limpos da lepra".

Mente sã em corpo são ("Mens sana in corpore sano", expressão do poeta romano Juvenal), adquire também aqui a sua concretização. A água estagnada é salubre. A água corrente não mata gente, porque se "regenera", oxigena, no contacto com a terra e com as rochas. Também a vida. Também a Igreja. Desejo do Papa Francisco: uma Igreja em saída, ainda que tenha percalços, sempre preferível a uma Igreja autorreferencial, adoentada, bafienta, por não se deixar oxigenar pela Palavra, pelo encontro, pela sua razão de ser: ser luz e ser sal para o mundo, indo, de coração em coração, ao encontro de todos, de cada ovelha que está fora, indiferente, perdida, excluída. Como pessoas, somos uma totalidade, uma realidade holística, o corpo e alma interagem. Se estamos mal fisicamente, também interiormente estaremos abatidos; se estamos emocionalmente afetados isso reflete-se na saúde do corpo. Faz-nos bem caminhar e faz-nos bem encontrar-nos uns com os outros.

O paralelismo desta passagem do Evangelho com a primeira Leitura é, pelo menos, curiosa. O general sírio Naamã suplica por cura a Eliseu, o homem de Deus. Eliseu ordena-lhe que vá banhar-se ao rio Jordão. Depois de mergulhar sete vezes no Jordão fica limpo da lepra, com a pele como a de uma criança. Também Naamã tem de se por a caminho, confiar, e sair da sua presunção nacionalista. 

 

3 – Foram dez os leprosos que foram curados, mas só um foi salvo! "Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, e prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus, para Lhe agradecer. Era um samaritano".

A fé levou estas dez pessoas a Jesus. A fé e talvez o desespero pela situação em que se encontravam, afastados da sociedade, repelidos, sem vida que não fosse mendigar e manterem-se à distância das pessoas e das povoações. Não têm nada a perder. Ouviram, por certo, falar de Jesus, da Sua delicadeza para com todos, especialmente para com os mais pequenos, os pobres, os doentes, os pecadores e publicanos, e dos prodígios. Não têm receio de ser repelidos e como vantagem podem ser curados. Como não arriscar? É uma fé imediata, baseia-se sobretudo na necessidade e procura obter uma satisfação "material". Satisfeita a necessidade, esta "fé" deixa de ser necessário, baseava-se nos próprios e não n'Aquele que que lhes respondeu e os curou.

Apenas um. Jesus sublinha este dado. Ainda para mais, um samaritano. A fé não tem nacionalidade! Aqueles que tradicional e visivelmente pertencem ou têm religião estão cristalizados em regras, crendices, em leis que não passam de alívio ou de etiqueta social. Falta-lhes a carne, a linfa, a vida, a relação com Quem nos dá e nos mantém na vida! A fé deste homem amadureceu ou, pelo menos, tornou-se visível nas palavras e nos gestos. Sabe que a cura teve origem em Jesus, teve origem em Deus e é a Deus a Quem agora ele dá glória, agradecendo. "A tua fé te salvou".

Também o sírio Naamã é curado e regressa para agradecer, concluindo que doravante só a Deus adorará e prestará culto. A cura redundou em salvação acolhida e agradecida.

 

4 – A oração inicial da Missa sintetiza, clarifica e faz-nos rezar o que refletimos seguindo a Palavra de Deus. "Nós Vos pedimos, Senhor, que a vossa graça preceda e acompanhe sempre as nossas ações e nos torne cada vez mais atentos à prática das boas obras". Precedência da graça de Deus, a fé que nos atrai para Ele, mas que se efetiva, se traduz e concretiza ao longo da nossa vida, na prática do bem.

O caminho da fé nem sempre é fácil e, se o nosso desejo é resolver todos os problemas e dificuldades, vão surgir momentos em que a nossa fé será colocada à prova. Se a fé visa (apenas) a obtenção de uma graça, a satisfação de um pedido, a resolução de uma urgência, então termina quando o desejo é alcançado ou, caso não o seja, a dita fé deixa de ser útil, deixa de ser necessária.

É curiosa, e serve de contraponto, a confissão de Dorothy Day, em busca da fé: "estou a rezar porque estou feliz, e não porque estou infeliz. Eu não me voltei para Deus por infelicidade, por tristeza, por desespero - para obter consolo, para obter algo d'Ele". A autora descobre Deus não por uma necessidade imediata, pontual, biológica, mas como encontro e como resposta à busca de sentido, garantia que a felicidade de hoje terá que desembocar na eternidade.

 

5 – Para Dorothy Day, para nós, para ti e para mim, e para Paulo, a fé, a intimidade com Deus, não anulando as adversidades, ajudar-nos-á a relativizar os infortúnios, estes não durarão para sempre, e a acentuar o amor de Deus para connosco, nada nos separará do Senhor, nem sequer a morte.

Diz o Apóstolo a Timóteo e a nós também: "Lembra-te de que Jesus Cristo, ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho, pelo qual eu sofro, até ao ponto de estar preso a estas cadeias como um malfeitor. Mas a palavra de Deus não está encadeada. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com a glória eterna".

São Paulo tem consciência que a sua missão é evangelizar, também na prisão. Todos as ocasiões são propícias para anunciar o Evangelho. A Palavra de Deus não pode ser aprisionada. A fé do apóstolo e a nossa está suportada na vida de Jesus. "Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos; se O negarmos, também Ele nos negará; se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo".

Não procuramos o sofrimento, isso seria masoquismo, mas, quando se torna inevitável, pelas condições físicas, pelos nossos erros ou pela ação dos outros, não o deixemos vencer. Como a Jesus, podem matar-nos, mas não podem tirar-nos a vida, o que somos, o que queremos ser, o que decidimos fazer em cada momento da nossa existência. O apóstolo escolhe Deus, escolhe anunciar Jesus, não se encerra no protesto, na injúria perante a injustiça de que vou vítima.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): 2 Reis 5, 14-17; Sl 97 (98); 2 Tim 2, 8-13; Lc 17, 11-19.


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