Domingo XXVIII do Tempo Comum - ano B - 14 de outubro de 2018


1 – O que é que todos queremos? Qual é o objetivo primordial da nossa existência? Que esperamos da vida? Poderíamos colocar estas e outras questões a partir do Evangelho que nos é servido neste domingo.

Quando Jesus retomava o caminho, um homem aproximou-se a correr, ajoelhou-se diante d'Ele e perguntou-Lhe: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?».

À primeira vista poderá parecer-nos uma pergunta estranha, mais do foro espiritual, interior, mais a ver com uma vivência religiosa. Mas tem tudo a ver com outras questões que vamos fazendo sobre o sentido da nossa vida, sobre o que andamos cá a fazer, porque é que sucede isto ou aquilo, porque é que a uns corre tudo bem e a outros tudo mal! E outras perguntas vão surgindo: que é que existe depois da morte, haverá alguma coisa, ou desapareceremos para sempre?

Há dias que olhamos para a nossa vida e nem nos questionamos sobre nada em concreto. As coisas correm bem, sentimo-nos abençoados, distraídos, ocupados, sem preocupações de maior e as preocupações que temos facilmente as enquadramos em lógica de compromisso e de trabalho que a breve prazo solucionaremos ou ajudaremos a solucionar. O mundo é um lugar aprazível para viver e não há nuvens nem trevas nem tempestades que anulem a nossa confiança no mundo, nos outros e em Deus.

Quando as coisas já não correm tão bem, com alguma resignação, desabafamos: há dias de tudo, uns dias estamos melhor outros dias pior, ninguém pode estar feliz em todo o tempo, poderia ser pior! Ou, mais desanimados, interrogamo-nos: porque é que tudo me acontece, será que o mundo se uniu para me tramar, será que Deus não me escuta? Porque é que a vida me impede de ser feliz?

 

2 – Aquele homem projeta a sua felicidade no futuro de Deus, mas percebe-se que o futuro e a felicidade passam pelas opções da vida atual. O que será amanhã começa a viver-se hoje. Não há ruturas mas continuidade, desde a gestação no seio materno até à ressurreição em Deus, na vida eterna. Não podemos adiar a nossa vida para o futuro. A vida é um dom precioso que urge viver já, agora, não depois, não quando as condições forem mais favoráveis, pois, queiramos ou não, não é possível regredir para compensarmos tempos e oportunidades perdidas. Como nos desafia Augusto Cury, sejamos protagonistas da nossa vida e não meros expetadores. Não deixemos para amanhã o que nos compete viver hoje.

Como crentes, deveríamos procurar adequar a nossa vida aos desígnios divinos, mas em Cristo, Deus procura-nos e procura adaptar-Se a nós, aos nossos anseios, respondendo às nossas inquietações e acompanhando-nos nas nossas buscas e indecisões. É a resposta de Jesus, que sintoniza com aquele homem e sintoniza connosco. Por um lado, bom só Deus. Cada um de nós está a caminho. Somos peregrinos da vida, em busca dos outros, de Deus, do que nos sabe bem e sobretudo daquilo que dê sentido à nossa existência, algo que não seja efémero, passageiro, mas alguma coisa mais sólida a que nos possamos agarrar! A abertura para Deus é manifesta na pergunta, é reveladora na resposta.

Ninguém é feliz sozinho. Não é bom que o homem esteja só, vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele. Alguém que seja "osso dos meus ossos, carne da minha carne". Para rir ou para chorar, para dialogar ou mesmo para discutir, precisamos uns dos outros. Os Mandamentos relembram-nos o compromisso com Deus, mas igualmente o comprometimento com o nosso semelhante. «Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe».

Ainda hoje os Mandamentos são uma referência para os Direitos fundamentais da humanidade, na salvaguarda do que é essencial para proteger as pessoas, a sua identidade e liberdade e os seus bens. O respeito pelos outros, a fidelidade aos compromissos e a honestidade ajudam-nos a viver numa sociedade mais justa e fraterna.

 

3 – Numa entrevista o então Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, em Sal da Terra (1996), quando lhe perguntaram quantos caminhos havia para Jesus Cristo, lembrando que a própria Igreja é definida como caminho de Cristo, ou Jesus como único caminho que nos conduz ao Pai, respondeu que havia tantos caminhos quantas as pessoas. O mesmo poderemos dizer que para se ser feliz há tantos caminhos, tantas possibilidades como as pessoas.

Este homem já cumpria os mandamentos desde a juventude. Para muitos já chegaria, pois é um caminho justo, equilibrado, humanizador. Mas, para ele, ser cumpridor não bastava. Precisava de se sentir mais útil, talvez de se sentir mais preenchido. Então Jesus lança-lhe outro repto: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me».

Ouvindo tais palavras, aquele homem retirou-se pesaroso, de cabisbaixo, pois tinha muitos bens, era muito rico. Citando novamente Augusto Cury, há homens ricos a viver em bairros de lata e há homens pobres, miseráveis, infelizes a viver em Palácios. Há homens tão pobres, tão pobres, que só têm dinheiro. O dinheiro compra muita coisa, mas não compra amigos e, bem vistas as coisas, não compra a felicidade, ainda que em muitos momentos possa facilitar a vida e torná-la mais cómoda. E como sabemos também ajuda no acesso aos cuidados de saúde, faz com que alguns ascendam rapidamente a lugares de poder, enfim, abre muitas portas!

Poderíamos concluir que os bens que possuímos devem ajudar-nos a ser mais felizes, aproximando-nos dos outros. A riqueza material não pode ser empecilho para nos darmos bem uns com os outros.

 

4 – «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus! Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Pode até parecer romântico dizer que o dinheiro não garante a felicidade, mas ajuda. Mas quando vemos famílias divididas, desgraçadas, por causa de heranças, por causa de um pedaço de terra ou por uma hora de água, quando vemos matar por dinheiro, então, e talvez só então, percebamos que a paz (pessoal, familiar, social) é bem mais importante, e a saúde que daí advém. Não há nada que pague a paz que nos liga aos familiares e aos vizinhos!

Mas a resposta de Jesus vai ainda mais longe. A salvação não é, de modo nenhum, uma prerrogativa, uma conquista, não se pode comprar, não é para quem tem mais dinheiro ou mais poder, para quem é mais inteligente ou tem mais cunhas, é para todos, está acessível a todos do mesmo jeito. «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Com efeito, é dom de Deus oferecida a toda a humanidade. Jesus morrerá por todos, entregará a Sua vida para a todos nos redimir, salvando-nos. Depois caber-nos-á a nós, a mim e a ti, acolhermos a salvação que nos é dada, seguindo-O, acolhendo-O e testemunhando-O.

 

5 – Na primeira leitura o autor sagrado fala-nos das suas escolhas, feitas em prece a Deus: «Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos cetros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis».

Até na criação e multiplicação da riqueza importa mais a sabedoria do que as riquezas que se possuem à partida. Houve fortunas desbaratas pelos descendentes, houve fortunas criadas a partir da vontade, do trabalho, da dedicação e da sabedoria!

Rezemos também nós: «Nós Vos pedimos, Senhor, que a vossa graça preceda e acompanhe sempre as nossas ações e nos torne cada vez mais atentos à prática das boas obras».

 

6 – Para nós cristãos, a Sabedoria de Deus Pai é Jesus. Ele é a Palavra encarnada, a Sabedoria que nos revela o Reino de Deus. O Verbo que era Deus, que estava em Deus e Se fez carne. É esta a Sabedoria, é esta a Palavra de Deus que deve iluminar as nossas opções, que deve guiar a nossa vida. Na verdade, a «palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes: ela penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito, das articulações e medulas, e é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração. Não há criatura que possa fugir à sua presença: tudo está patente e descoberto a seus olhos. É a ela que devemos prestar contas».

Acolher a Palavra de Deus como semente e fazê-la frutificar em obras de misericórdia, sabendo que Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, veio ao mundo para que o mundo seja salvo por Ele. E, deste modo, fica claro também o mandato missionário, pois se O acolhemos e O seguimos, só podemos transparecê-l’O e dá-l’O ao mundo inteiro.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano B): Sab 7, 7-11; Sl 89 (90); Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.


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