Domingo XXVIII do Tempo Comum - ano A - 15 de outubro de 2017


1 – Depois da vindima, o banquete! Depois do trabalho, a festa! E quanto mais o trabalho (justo e justamente remunerado), mais intensa a festa e a alegria. Nem todos têm trabalho condigno para terem acesso a um condigno banquete. As causas são variadas, mas, seguidores de Jesus, temos de fazer com que o banquete se alargue à humanidade inteira.

Jesus continua a provocar, a incendiar corações, a chamar-nos para o Seu banquete, para o Seu reino. Todos estão convidados. Todos somos convidados do Senhor. Todos temos lugar nas núpcias do Cordeiro, no festim que o Pai nos prepara no amor, na entrega, na dádiva do Seu Filho Jesus.

Na parábola, a vida, a salvação que Jesus nos traz da eternidade, o reino de Deus que Ele faz presente na história e no tempo. Tudo está preparado. O convite está lançado. Uns e outros vão recusando, vão-se desculpando. Não têm tempo. Têm muitos afazeres. Muitas coisas importantes!

Uma sugestiva e conhecida estória: Um homem foi convocado pelo Rei. Ficou assustado e recorreu aos seus amigos. Tinha três amigos. O mais íntimo, o número 1, encontrava-se com ele todos os dias, a todas as horas, eram inseparáveis. Com amigo número 2 encontrava-se uma vez por semana ou quando calhava. Ao amigo número três encontrava uma vez por outra. Foi ter com o número 1 que lhe disse: nem pensar, pede-me tudo, menos isso. O número 2 disse-lhe que o acompanhava mas ficaria à porta, não entraria. Foi então ter com o amigo número 3 que imediatamente se disponibilizou a acompanhá-lo à presença do Rei. O homem somos nós. O Rei é Deus. A convocação para ir à Sua presença é o momento da nossa morte. O amigo número 1 são as coisas que nos ocupam e preocupam, deixamo-las todas, nenhuma seguirá connosco. O amigo número 2 são os nossos familiares e amigos, acompanham-nos, mas ficam à porta, do cemitério e do lado de cá da vida. O amigo número 3 é o bem que fazemos, acompanha-nos para a eternidade.

2 – Durante algum tempo, Jesus espalhou um sonho, anunciou um reino, revelou a alegria de Deus, o amor de Deus, a compaixão de Deus, a proximidade de Deus, a todos, mas sobretudo aos mais frágeis, pobres, mendigos, leprosos, mulheres, pecadores, publicanos. Veio para todos, trouxe-nos a bondade. Em Jesus, a certeza que temos Pai, que nos ama com coração de Mãe, um Pai que Se dispõe a tudo, por causa de nós, a nosso favor. Dá-nos o Seu Filho, o Seu amor maior, para que n'Ele nos sintamos filhos bem-amados e, sentindo-nos filhos, nos tornemos irmãos.

Todos chamados. Todos com assento garantido à Sua mesa, no Seu reino. Com efeito, Jesus procede no tempo como viu fazer ao Pai, incluindo, acolhendo. É precisamente acusado de comer com publicanos e com pecadores. Reserva a intimidade para os mais pequenos!

Mas o fogo que traz queima, purificando, queima destruindo o mal, queima incendiando invejas e ódios! O que não mata engorda! Mas pode de facto matar! O orgulho que não se dissolve, o egoísmo que nos isola, a soberba que corrói o nosso coração, a sobranceria que nos desirmana, a prepotência que nos endeusa contra e apesar dos outros.

A delicadeza de Jesus faz mossa nas lideranças judaicas, instaladas no poder, vivendo comodamente. Naquele tempo, como hoje, há uma multidão de famintos, de pobres, de excluídos, lázaros que não têm assento à mesa, que ficam fora, fora das muralhas, afastados e impedidos pelos portões da indiferença, da corrupção, do egoísmo. Contudo, Jesus não Se deixa vencer, nem iludir, não Se deixa comprar, nem se deixa corromper! Denuncia com a Sua postura, com as Suas palavras, com as parábolas que nos apresenta, com os gestos que assume.

 

3 – Ao caminhar para o final da Sua vida, Jesus vai tomando consciência dessa proximidade pelos obstáculos que vai encontrando, pela afronta de doutores da lei e anciãos do povo. A perseguição a Jesus torna-se evidente. As armadilhas, as acusações, as insinuações e os boatos a que está exposto denotam que o desenlace estará para breve.

Todavia, Jesus não se fecha em copas, continua a pregar, continua a estar próximo dos pecadores e dos publicanos, continua a responder aos fariseus, às lideranças judaicas. O recurso às parábolas facilita o diálogo, pois, embora a linguagem seja clara, deixa margem para que cada um encaixe ou recuse os Seus ensinamentos, sem se sentir forçado.

As parábolas que temos vindo a escutar têm como destinatários os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, mas também são para nós, para mim e para ti. Somos convidados. Todos, sem exceção. Uma vez mais, o Rei da parábola não vacila, continua a enviar os seus servos para chamarem todos os que encontrarem. Lembra-nos o dono na vinha que sai pela manhã, a meio da manhã, ao meio-dia, às três horas da tarde e ao entardecer para chamar trabalhadores para a sua vinha. Hoje (e amanhã) o convite é idêntico: «Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes». Os servos saíram “pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados”. Cabemos todos. Há lugar para mim e para ti.

Pode acontecer que alguém não vista o traje nupcial. O Rei chama, uma e outra vez. Não desiste. Nunca desiste de nós. Basta acolhê-l'O e teremos lugar à mesa. Para o banquete, bons ou maus, todos precisamos de vestir o traje da verdade, da justiça, da caridade, da comunhão com os outros. Não podemos ir de qualquer maneira, aos empurrões, com trajes esfarrapados pela arrogância, pela violência, pela vingança. Vistamo-nos de humildade, transparência, de amor, de misericórdia, para nos "afeiçoarmos" aos Rei, isto é, para termos feições semelhantes às de Deus que Se revelam em Jesus, feições de paz e de compaixão, de ternura e de bondade.

 

4 – A Eucaristia, instituída em quinta-feira santa, antecipando a morte e a ressurreição de Jesus, como a Sua entrega por inteiro, a favor da humanidade, deixando-nos o Seu corpo e o Seu sangue sob as espécies do pão e do vinho, é a antecipação e a vivência do banquete eterno.

Como costuma acentuar o Papa Francisco, a Eucaristia, mais que um prémio para santos, é remédio para os pecadores, para nós. É um desafio a alargamos a todos este banquete, expandindo os seus frutos de caridade, de justiça e de paz.

 

5 – Isaías, na primeira leitura, apresenta-nos a promessa de Deus de preparar um banquete para todos os povos, com suculentos manjares e com vinhos deliciosos. «O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo».

O profeta acalenta a esperança do Povo Eleito, fortalece-lhe o ânimo, para que não desista, para que não sucumba diante dos contratempos, e dá como certa a intervenção salvífica do Senhor Deus. «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou».

É também a confiança filial do salmista: «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma... Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança. Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários... A bondade e a graça hão de acompanhar-me todos os dias da minha vida».

De novo a temática da refeição, novamente o cuidado materno de Deus a nossa favor, além e apesar de todos os cadilhos que encontremos pelo caminho. O Senhor vai connosco. Ele é a nossa salvação. Supliquemos-Lhe confiantes: «Nós Vos pedimos, Senhor, que a vossa graça preceda e acompanhe sempre as nossas ações e nos torne cada vez mais atentos à prática das boas obras». A oração e a fidelidade para com Deus compromete-nos com os outros, na prática do bem.

 

6 – Como nos desafiava D. António Couto, na Assembleia do Clero, contamos e devemos contar uns com os outros. E quanto maiores as dificuldades em Igreja, e vão acentuar-se, mais precisamos uns dos outros. São Paulo testemunha e agradece a ajuda dos seus irmãos.

São luminosas as palavras do Apóstolo: «Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus».

A confiança que coloca em Deus, na certeza da Sua fidelidade, animam-no, mas é preciosa também a ajuda dos membros da comunidade cristã. Através deles, Deus manifesta a Sua ajuda e a Sua misericórdia. E assim também nós manifestemos a ternura e a bondade de Deus para com todos.

É também esta a confiança que Santa Teresa de Jesus, que hoje evocamos, testemunha: Nada te turbe, nada te espante. Quem a Deus tem, nada lhe falta! Só Deus basta.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Is 25, 6-10a; Sl 22 (23); Filip 4, 12-14. 19-20; Mt 22, 1-14.


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