Domingo XXVII do Tempo Comum - ano B - 7 de outubro de 2018


1 – O orgulho, a sobranceria, a prepotência, a inveja, o ódio, afastam-nos dos outros, deixam-nos angustiados, fazem-nos viver em sobressalto com medo de perder o que conquistamos, ansiosos por outro dia, por outra batalha, sem apreciarmos o dia de hoje, o sol ou a chuva, esquecendo o que temos e sobretudo as pessoas que gostam de nós. Assumimos os outros como inimigos a derrotar, a espezinhar, a destruir. Parece que quanto melhor os outros estão, pior nos sentimos nós!

Somos o que somos porque nos revemos e aperfeiçoamos diante dos outros. Se tivéssemos sido abandonados à nascença, numa ilha sem outros seres humanos cresceríamos doutra forma, imitando algum animal que estivesse por perto, gatinhando, uivando, gritando… Aprendemos a articular palavras e frases com os outros. Sabemo-nos altos ou baixos, magros ou mais fortes em comparação com os outros.

Nos últimos anos, o país concentrou escolas. Nas aldeias mais pequenas, o número de crianças era e é cada vez mais reduzido, não tendo mais que duas ou três crianças por ano de escolaridade. Até para brincar seriam precisas mais crianças, quanto mais para o estudo! As crianças deixaram de ter referências!

O desafio cristão: tornar-me melhor em tudo o que sou e em tudo o que faço, não em relação ao outro, mas em relação a mim próprio e ao dia anterior. Ainda assim as referências, os exemplos, são fundamentais. Somos seres miméticos. Estamos prontos para imitar, pela bondade com que os outros nos tocam ou, em alternativa, pelo sucesso que queremos também para nós. Faz sentido caminharmos juntos. Digo, juntos e não apenas lado a lado, isto já numa perspetiva humanizadora e cristã.

 

2 – Jesus está exposto à crítica e a todo o tipo de armadilhas. A sua fama, dão-nos nota os evangelistas, espalhou-se pela Galileia, pela Judeia e pela Samaria. Quando chega a uma povoação, as pessoas rapidamente passam palavra e juntam-se à Sua volta verdadeiras multidões.

Quando uma pessoa está sob o foco da luz gera sentimentos ambivalentes e alguns sentem-se acossados com o "brilho" daquela pessoa. Veja-se o exemplo do Papa Francisco. Desde a primeira hora, o Papa Francisco granjeou a simpatia das pessoas, dentro e fora da Igreja. A comunicação social rendeu-se àquele Homem vestido de branco que fala ao coração, que não tem trejeitos de grandeza, que não coloca barreiras à sua volta, cumprimentando os seguranças ao entrar no Vaticano, sentando-se na capela a rezar como qualquer crente, desafiando os poderosos, os que continuam a criar uma economia que mata, a explorar os mais pobres e a corromper os laços humanos e sociais, comovendo-se diante da miséria e da doença, dando largas ao riso em situações que convidam a tal. Cedo, todavia, começou a atrair inimigos que produzem campanhas ardilosas tentando desacreditá-lo, com insinuações e boatos, atribuindo-lhe frases e mensagens duvidosas. E o pior, neste caso, é que muitos dos ataques vêm de dentro da Igreja, o que já em 2005 o então Cardeal Ratzinger deixava entrever falando na "sujeira" que estava nas fileiras da Igreja.

Ora, Jesus é credível, a Sua postura é condizente com o Seu discurso. Faz-Se pobre e pequeno, vive como um deles, abraçando-os, curando-os, comendo com eles o pão do trabalho, do sacrifício e do sofrimento. Denuncia os que se sentam em belos tronos e frequentam grandes festanças sem se preocuparem com os pobres que lhes batem à porta. Tudo isso gera inveja, ódio, perseguição!

 

3 – Sorrateiramente, alguns fariseus aproximam-se de Jesus para o porem à prova: «Pode um homem repudiar a sua mulher?». Se naquele tempo era uma questão pertinente, nos dias de hoje continua a sê-lo, ainda que para alguns já não faça sentido, pois às primeiras dificuldades, cada um segue o seu caminho. Por outro lado, há cada vez mais casais sem qualquer vínculo civil e/ou religioso. Gostamos um do outro, juntamo-nos, ninguém tem nada a ver com isso. A relação, que envolvia as famílias e as comunidades, passou a ser um assunto privado. Não está em causa a privacidade e o recato, como direito e como prática... Não se trata de defender a ingerência ou a imposição de um relacionamento por interesses familiares, sociais, religiosos ou económicos, mas a certeza de que todos nos inserimos na mesma família e o meu bem influenciará a qualidade de vida dos outros. A cultura do encontro deve substituir a cultura da indiferença!

Moisés permitia se passasse um certificado de divórcio para se repudiar a mulher – Foi por causa da dureza do vosso coração –.  Mas o projeto de Deus é anterior «No princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne’. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».

 

4 – É o sonho de Deus. «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». Podemos ter tudo o que poderíamos querer, saúde, beleza, comodidade, mas tudo vale nada se nos faltar a companhia. A solidão é uma desgraça, é o fim do mundo! Para chorar ou para cantar, para sorrir ou para resmungar, para dançar ou para abraçar, precisamos de alguém semelhante a nós! Não apenas um espírito! Não apenas um ser que não nos responde (logo que não é responsável por nós)!

«Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem». Somos criados uns dos outros, estamos uns nos outros, sem os outros falta-nos muito mais que uma costela, falta a vida, o mundo, o chão, a alegria, o sentido e a razão porque estamos vivos! E quando alguém parte, morrendo, a sua presença continua a dar sentido ao que fomos e ao que somos, ainda que aperte a saudade!

Deus criou-nos livres, à Sua imagem e semelhança, com a capacidade de amar e ser amados. Criou-nos para os outros e é com eles que somos verdadeiramente felizes. Quando nos falta algo não descansamos até encontrar. Se nos falta/m o/s outro/s, andaremos meio-cheios, meio-vazios! Também a relação mais íntima, do homem e da mulher, tem o propósito do encontro, do reconhecimento, do complemento essencial. Reconhecemo-nos no face-a-face, no frente-a-frente. Os outros fazem-nos perceber quem somos, são como que o espelho onde refletimos o nosso olhar e a nossa vida.

Deus aposta em nós, na nossa liberdade, mas também no nosso compromisso e na capacidade de construirmos. Diz Jesus aos discípulos «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério». A estabilidade na relação entre homem e mulher, consagrada em sacramento de amor, aprofunda o compromisso. Como disse Bento XVI aos sacerdotes, em Portugal, o amor é a fidelidade no tempo. E o ser humano é capaz deste amor, desta fidelidade e desta persistência.

 

5 – O embate com a realidade, porém, pode ser devastador e há relações que não têm pernas para andar. O sonho de Deus, com efeito, desafia-nos a tratar o outro como sujeito e não como instrumento do nosso prazer, não como um passatempo, mas como igual que potencia o melhor que há em mim.

Existem muitos casais desfeitos pelas dúvidas, pela incompreensão, pela traição e pelos abusos. Existem muitas pessoas que refizeram as vidas ao lado de outra pessoa e foram abençoadas na relação e nos filhos. A Igreja tem refletido e rezado muito estas situações, sabendo da dor daqueles e daquelas que com fé se comprometeram e não conseguiram suportar a relação ou simplesmente foram largados. Em Igreja, a misericórdia é a sentença que nos cabe. Antes, o namoro, a preparação e a consciência. Depois, o acolhimento, a misericórdia e a inclusão, até onde for possível.

Há dias o Papa Francisco para o testemunho diante daqueles casais que decidiram viver juntos, mas sem nenhum vínculo. Mais que recriminá-los, importa testemunhar a alegria do matrimónio como sacramento. A propósito citou Bento XVI, lembrando que o cristianismo se espalha pela a atração e não pelo proselitismo, pelo convencimento!

 

6 – «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele». É a opção de Jesus pela delicadeza, pela ternura e pelo serviço. Ser como crianças, sem preconceitos nem exclusões. Quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos.

A atitude dos discípulos é de seriedade, afastando aqueles que não contam, os pequenos, as crianças, os simples e os pobres. Acham eles que o reino de Deus precisa de gente poderosa, rica, grande, forte. Mas o caminho de Jesus é outro. É isso que lhes ensina e a nós também. Jesus abraça, abençoa, impõe-lhes as mãos. Às crianças e a todos aqueles que, por uma outra razão, estão excluídos da sociedade, doentes, pecadores, publicanos, estrangeiros. O Reino de deus não passa pela sobranceria, mas pelo serviço, pelo acolhimento, pelo cuidado aos outros. Vale para o casal, para a família, para a Igreja, para uma sociedade que se quer mais humanizada, mais fraterna e solidária.

 

7 – O filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos.

«Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação. Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedem todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos».

Esta é a melhor resposta aos fariseus: dar a vida, gastar a vida, amar servindo, servir amando.

 

Pe. Manuel Gonçalves

____________________________________

Textos para a Eucaristia (ano B): Gen 2, 18-24; Sl 127 (128); Hebr 2, 9-11; Mc 10, 2-16.


Todos os direitos reservados © PARÓQUIA DE TABUAÇO 2017 Realizado por Terra das Ideias