Domingo XXVII do Tempo Comum - ano A - 8 de outubro de 2017


1 – Praça de São Pedro, 19 de abril de 2005, primeiras palavras de Bento XVI: «Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações. Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á. Maria, sua Mãe Santíssima, está connosco. Obrigado!»

O amor à vinha, o trabalho dedicado e a certeza que o Senhor vela pelos trabalhadores e provê à produtividade da vinha, para lá do tempo, do clima, das circunstâncias e dos contratempos. Deus cuida da Sua vinha com amor, com zelo, não Se alheando do que nela vai sucedendo. Mantém-Se informado, para acudir. Confia nos seus trabalhadores e confia-lhes o cuidado da mesma, aguardando que eles possam fazê-la frutificar e todos possam beneficiar dos seus frutos.

Jesus conta outra parábola sobre o reino de Deus, novamente à volta da vinha.

Primeiro o cuidado com a vinha: «Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe». Fácil de ver que a vinha é do Senhor e que Ele nos confia a vinha, esperando pelo tempo da colheita. Na altura devida manda os servos receber os frutos. Os vinhateiros, por sua vez, querem assumir o controlo, ocupando o lugar do seu Senhor e, por conseguinte, maltratam os enviados, matam-nos, escorraçam-nos.

Aquele Senhor, o Bom Deus, não desiste. Não desiste dos bons frutos que há para recolher, não desiste de nós. Envia novos servos, novos mensageiros. Dá-nos mais oportunidades. Envia, então, finalmente o Seu próprio filho.

2 – Quem melhor que o próprio filho para representar o Pai? «Respeitarão o meu filho».

Depois de todas as tentativas para "resolver as coisas a bem", e não tendo conseguido, Aquele Senhor decide fazer uma última aposta, mais alta, mais arriscada. Arrisca o que Lhe é mais querido, o Seu próprio Filho. Arrisca tudo, a Sua vida na vida do Filho. Confia que os vinhateiros reconhecerão o Seu esforço e dedicação ao enviar-lhes o próprio filho.

A ocasião (por vezes) faz o ladrão. A ganância vem ao de cima. Está ali a oportunidade de eliminarem o filho e ficarem eles donos e senhores daquela vinha. É o que fazem, agarram e filho e matam-no.

A parábola espelha bem a história da salvação e as lideranças judaicas veem-se retratadas nos vinhateiros prepotentes, gananciosos e assassinos a quem Deus confiou a Sua vinha para administrar, cuidar e fazer frutificar. Porém, usurpam a vinha, arrogando-se como donos da mesma, impedindo e expulsando todos os que Deus envia com planos salvíficos, os patriarcas, os juízes e os profetas. Deus envia o Seu próprio Filho, Jesus Cristo, que é tratado do mesmo modo que outros enviados, é expulso da Sua própria vinha, é ferido e morto. Este é o mistério da Encarnação que desemboca no mistério pascal da morte e ressurreição de Jesus.

Na continuação, Jesus provoca os seus interlocutores, provoca-nos: «Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». Ou mudamos de atitude ou autoexcluímo-nos do Seu reino de amor.

 

3 – A primeira leitura já nos apresentava a belíssima imagem da vinha. «Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha. O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços».

Isaías deixa-nos ver o cuidado e o amor do seu amigo à vinha que plantou. A esperança é que a vinha produza em abundância. O lagar foi preparado. Foi construída uma torre para guardar a vinha dos assaltantes. Foram escolhidas boas cepas. «A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida». Tudo aponta para bons resultados. Pois foram acauteladas as condições mais favoráveis.

Quando fazemos uma escolha importante, asseguramo-nos, à partida, que tudo correrá bem. Procurámos prever os aspetos mais frágeis e os pontos mais fortes. Porém, não controlamos todos os momentos, os espaços, os tempos, as surpresas, nem a reação dos outros. Por outras palavras, há sempre a possibilidade de fracassar. Mas é justo, louvável e defensável que façamos o que está ao nosso alcance e prossigamos se estamos certos da nossa escolha. O futuro só a Deus pertence. Mas parece que até Deus "não controla" todas as circunstâncias, já que nos criou livres, com a possibilidade de Lhe dizermos não e de não produzirmos na abundância do amor e da compaixão.

E agora, o que fazer? Se fiz tudo o que estava ao meu alcance, se fiz tudo pela vinha e ela não deu nada? «Esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror». Eis o que vou fazer: «Vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou demolir-lhe o muro e será espezinhada. Farei dela um terreno deserto: não voltará a ser podada nem cavada, e nela crescerão silvas e espinheiros; e hei de mandar às nuvens que sobre ela não deixem cair chuva».

As palavras do profeta denotam o desencanto pela infidelidade do povo, cujos membros deveriam viver como família, entreajudarem-se, procurarem o melhor uns para os outros.

 

4 – O Povo da (primeira) Aliança viveu momentos conturbados. Os autores sagrados encontram no pecado, na infidelidade do povo, as consequências para o desaire, para a queda do reino de Israel e do reino de Judá. As classes dirigentes são as mais visadas já que não acautelaram o futuro, não se preocuparam em solidificar os laços entres as pessoas, mantendo o povo unido e preparando-o para se defender dos ataques estrangeiros. Distraíram-se em disputas de poder, explorando os mais pobres, vivendo refastelados, acumulando, roubando, destruindo. A história faz-nos perceber que a destruição da cidade (e da família) é sobretudo interior. Como da pessoa também. O interior define-nos. Define a cidade. Define a família. Claro que as condições externas também contam.

O salmista faz eco da “ameaça” de Deus, através do profeta, de destruir a vinha. Com amor, Deus tinha criado as condições para que a videira pudesse produzir. O autor procura perceber a situação em que se encontra o seu povo. A pergunta dirigida a Deus faz-se súplica: «Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento que fortalecestes para Vós. Não mais nos apartaremos de Vós: fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome. Senhor Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar, iluminai o vosso rosto e seremos salvos».

O que nos mata é vivermos longe do olhar, do amor, da luz, da presença de Deus. O que nos salva é a proximidade, a luz, a convivência com Deus e com a Sua complacência.

 

5 – Na missiva aos Filipenses, São Paulo desafia-nos a confiar em Deus, que em Jesus Cristo Se revela próximo, justo e misericordioso. «Em todas circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças». Não vos inquieteis! É a mesma interpelação de Jesus: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11, 28-30).

O apóstolo mostra-nos o caminho de Deus até nós: Cristo que era de condição divina assumiu a nossa frágil condição humana, para com Ele aprendermos a caminhar para o alto. Ele abaixou-Se para nos elevar, pelo ministério da Sua obediência até à morte e morte de Cruz. Deus exalta Jesus e todos os que n'Ele confiam.

A paz de Deus está acima de toda a inteligência, Ele guardar-nos-á em Cristo Jesus. Cabe-nos promover «tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento». Sintonizados com a parábola de Jesus, procuremos cuidar da vinha do Senhor, com carinho e criatividade, para que no final Ele possa recolher os frutos desejáveis e podermos com Ele entrar na comunhão com o Pai.

Se assim for, garante-nos o Apóstolo, «o Deus da paz estará convosco». Não a paz da indiferença, da preguiça, ou do descompromisso, mas a paz eivada de amor e de perdão, de ternura e de misericórdia, que nos faz sentir mais próximos de Deus e irmãos uns dos outros.

 

Pe. Manuel Gonçalves

____________________________________

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 5, 1-7; Sl 79 (80); Filip 4, 6-9; Mt 21, 33-43.


Todos os direitos reservados © PARÓQUIA DE TABUAÇO 2017 Realizado por Terra das Ideias