Domingo XXVI do Tempo Comum - ano C - 29 de setembro de 2019


1 – O ser humano, ainda que pelo caminho se iluda, é dos seres vivos mais dependentes, desde que nasce até que morre. Entre esses dois momentos, o nascimento e a morte, pode rebelar-se, isolar-se, endeusar-se ou rebaixar-se ou pode, simplesmente, procurar humanizar as suas relações, simplificando, interagindo solidariamente, sabendo que o que faz ou o que deixa de fazer interfere com os outros e com o mundo de que faz parte.

Ser livre implica-me, implica-te, implica-nos com os outros. 

Ninguém é livre sozinho, contra os outros ou apesar dos outros. É mais uma ilusão! É como o amor. Faz parte de nós. Caracteriza-nos. Humaniza-nos. Torna-nos pessoas e insere-nos na família e na sociedade. Quando amamos somos parciais. Mas se não amamos, se odiamos, se desprezamos ou se já não ligamos, tornando-nos indiferentes à vida, ao sofrimento dos outros, então deixamos de ser humanos, e continuamos a ser parciais, pois estamos a renunciar, consciente ou inconscientemente, ao que nos engrandece, ao que nos faz sentir em casa, à nossa identidade humana.

Não somos ilhas isoladas. A interdependência é permanente, enraíza-nos, faz-nos crescer e perceber que só estamos cá pelos outros e eles por causa de nós. Não decidimos nascer, nem onde, nem quando, nem em que condições! É a primeira dependência! Sobrevivemos porque alguém nos amou, cuidou de nós, alimentou-nos, embalou-nos. Mesmo em situações "desumanas", a sobrevivência deveu-se a alguém. A nossa história pode ser problemática, mas não se pode escrever sem os outros. Positiva e/ou negativamente somos o que somos interagindo com os outros. O que somos, o que temos, o mundo em que vivemos foi criado antes de nós. Cabe-nos, agradecidos, melhorá-lo para que a nossa vida faça sentido, para que o mundo também seja nosso. A opção contrária, de indiferença, desprezo, destruição acabará por nos destruir também a nós.

Há alturas da vida que – zangados com os outros e com o mundo – seria melhor contar só connosco, com as nossas coisas, com o que conquistámos, com o que temos. Ilusão. O que somos e o que temos deve-se aos que vieram antes de nós e a todos os que nos rodeiam. Até para sermos maus precisamos dos outros! Valerá a pena desperdiçar tempo e energias a destruir, a afastar, a criar muros, a fechar portões, quando podemos construir, fazer pontes, abrir portas e janelas, dar as mãos, preenchernos?

 

2 – Hoje celebramos o Dia Mundial do Migrante e Refugiado.

O fenómeno dos migrantes e dos refugiados tem a  ver com a parábola de Jesus, pois a mais das é resultado da soberba, do comodismo e do egoísmo de ricos avarentos que, à custa de muitos lázaros, criaram fortunas, mas destruíram o tecido social e cultural de famílias e de nações inteiras.

Na Mensagem para esta jornada, o Santo Padre relembra os conflitos violentos que dilaceram a humanidade, injustiças e discriminações, sabendo-se que são sobretudo os mais pobres e desfavorecidos a arcar com as consequências. Quando se fala em migrantes e refugiados, diz-nos o Papa, todos estamos envolvidos com os nossos medos e comprometidos com todos.

“Não se trata apenas de migrantes... quando nos interessamos por eles, interessamo-nos também por nós, por todos; cuidando deles, todos crescemos; escutando-os, damos voz também àquela parte de nós mesmos que talvez mantenhamos escondida por não ser bem vista hoje… Não se trata apenas de migrantes: trata-se também dos nossos medos... trata-se da caridade. Através das obras de caridade, demonstramos a nossa fé (cf. Tg 2, 18)... trata-se da nossa humanidade. A compaixão toca as cordas mais sensíveis da nossa humanidade, provocando um impulso imperioso a «fazer-nos próximo» de quem vemos em dificuldade. Não se trata apenas de migrantes: trata-se de não excluir ninguém. O mundo atual vai-se tornando, dia após dia, mais elitista e cruel para com os excluídos... trata-se de colocar os últimos em primeiro lugar. Jesus Cristo pede-nos para não cedermos à lógica do mundo, que justifica a prevaricação sobre os outros para meu proveito pessoal ou do meu grupo... trata-se da pessoa toda e de todas as pessoas. A missão de Jesus, que é a nossa missão: procurar que todos recebam o dom da vida em plenitude, segundo a vontade do Pai. Não se trata apenas de migrantes: trata-se de construir a cidade de Deus e do homem. Missão da Igreja a favor de todos os habitantes das periferias existenciais, que devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados”.

 

3 – Num corpo, quando um membro sofre todos os membros são afetados. Se entendermos a Igreja como um corpo ou a humanidade, concluímos que todos dependemos de todos e somos responsáveis uns pelos outros, pertencemo-nos mutuamente.

«Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’».

Jesus mostra como a vida eterna se inicia aqui e agora, connosco, no tempo presente. Não aguardemos para amanhã, para quando os nossos dias estiverem completos e o Senhor nos chamar à Sua presença. Então será demasiado tarde, não será mais o nosso tempo, o tempo que Deus nos dá, mas será a Sua justa misericórdia a justificar-nos ou a acolher o que fizemos e/ou deixamos de fazer.

O rico, que não tem nome, posso ser eu e podes ser tu, teve oportunidade de ser bom e prestável, de fazer alguma coisa pelo pobre Lázaro, que tem nome. Deus conhece o pobre pelo nome. Também nós devemos conhecer os pobres pelo nome! Uma partida de futebol não se resolve depois do apito final do árbitro, mas no tempo regulamentar e nas compensações!

A nossa vida resolve-se neste tempo e não noutro, neste lugar e não noutro, neste mundo e não noutro, com estas pessoas que Deus colocou à nossa beira. Não nos cabe decidir quando e onde nascer, em que família ou em que lugar, cabe-nos, isso sim, colocar os nossos dons a render e só rendem na medida em que são partilhados, em que se são colocados ao serviço dos outros.

 

4 – Temos as ferramentas todas para sermos felizes, para vivermos em família, para nos entreajudarmos, para caminharmos juntos. É este o convite da Diocese para este novo ano pastoral: Igreja de Lamego, em caminho e em comunhão! A fé envolve-nos com o mistério da salvação com o qual Jesus nos presenteia. A Igreja acolhe-nos como filhos, para vivermos como irmãos. Os sacramentos fazem-nos novas criaturas, com o Batismo, e alimentam-nos na fé, na esperança e na caridade, cujos dons devemos pedir incessantemente na oração. A Palavra de Deus é viva e eficaz na medida em que a escutamos e procuramos colocá-la em prática. Não fiquemos à espera que Jesus venha de novo dizer-nos o que temos de fazer para sermos homens e mulheres, imagem e semelhança de Deus. Vivamos, pois Ele caminha connosco, está entre nós. Quando cuidamos de alguém estamos a cuidar d'Ele também. O que fizerdes ao mais pequenos dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. Sempre que dois ou três se reunirem em Meu nome eu estarei no meio deles.

Através do Profeta Amós, o Senhor previne e avisa aqueles "que vivem comodamente... deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo... bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José". Serão os primeiros a "ir para o exílio" e a sofrer as agruras da deportação.

O Senhor Deus escuta o clamor do pobre, "faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos, ilumina os olhos dos cegos, levanta os abatidos, ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva e entrava o caminho aos pecadores". Para acolhermos o amor de Deus coloquemo-nos do Seu lado, querendo o que Ele quer, amando os que Ele ama.

 

5 – Para um descrente, ateu ou indiferente, talvez a palavra de Deus não seja mais que um livro ou conjunto de livros que estão esquecidos numa prateleira a apanhar pó e a verem os anos passar, até que alguém se lembre de os colocar numa arrecadação ou num caixote para reciclagem!

Para um crente, um buscador, para os discípulos missionários, a Palavra de Deus está antes e para lá das palavras escritas num livro, palavras inscritas no coração, na vida, em mim e em ti, para serem lidas, refletidas, rezadas, acolhidas, para serem vividas, traduzidas em beijos e abraços, em ajuda concreta a cada irmão e irmã que encontramos, no compromisso com a verdade e com a justiça.

Paulo lembra-nos como agir: "pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado... guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição do Senhor Jesus".

Os outros, em definitivo, não são o inferno (Sartre), são a nossa oportunidade de nos tornarmos humanos e, como crentes, permanecermos em Deus, agora e na eternidade, num continuo que se preenche de instantes.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Am 6, 1a. 4-7; Sl 145 (146); 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31.


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