Domingo XXVI do Tempo Comum - ano A - 1 de outubro de 2017


1 – Não há santos sem passado nem pecadores sem futuro (Papa Francisco). Deus não Se cansa de nos perdoar, nós é que nos cansamos de pedir perdão. O Papa coloca a ênfase na misericórdia de Deus que nos alcança, nos redime, nos acaricia e nos eleva, perdoando-nos.

O caminho da conversão, que nos faz reconhecer a nossa condição pecadora, frágil, certos do auxílio de Deus, que, com a Sua graça, potencia a nossa humildade, a disposição para O deixarmos, é um caminho permanente. Enquanto vivemos estamos a tempo de nos convertermos, de corrigirmos o percurso, de alterarmos a trajetória que nos afasta de Deus, afastando-nos dos outros.

Nos domingos precedentes víamos como a comunidade procurava acolher, na prática, os ensinamentos de Jesus acerca do perdão, não desistindo dos erráticos, dando-lhes segundas e terceiras oportunidades, procurando integrá-los e como Pedro percebe que tem de perdoar muitas vezes, não até sete vezes, sempre, mas até setenta vezes sete, diz-lhe Jesus, até ao infinito.

O contexto aproxima-nos da morte de Jesus. Depois de ter entrado triunfalmente na cidade santa, aclamado por aqueles que O acompanham, Jesus "entra" em choque com as autoridades judaicas. No templo expulsa os que compravam e vendiam, gerando uma crescente onda de indignação. Sai do Templo e pernoita em Betânia. Manhã cedo volta à cidade e ao Templo. No percurso faz com que uma figueira seque e fala na força da oração e da fé. No Templo põe-Se a ensinar. Interrogam-se sobre a autoridade com que fala e atua. Jesus pergunta-lhes sobre a origem do Batismo joanino e como não Lhe respondem, também não faz questão de lhes responder acerca da Sua autoridade. Mas continua a ensinar, provocando-os, através das parábolas.

2 – As parábolas tornam acessível a mensagem de Jesus. Cabe-nos tirar as lições que nos ajudam a viver Jesus, a traduzir Jesus para a nossa vida, a testemunhar Jesus. Que pretende Jesus dizer-nos com esta parábola? Até que ponto é atual para nós?

Mais uma estória luminosa: «Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?»

O próprio Jesus dá a resposta em outra parte do Evangelho: «Nem todo o que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu» (Mt 7, 21). As palavras valem o que valem. Para Deus valem tudo, pois o próprio Jesus é a Palavra de Deus dada ao mundo. Palavra de Deus encarnada! Também para nós as palavras deveriam contar. Mas valem o que valem!

Na parábola, o filho mais velho responde negativamente ao pai, mas acaba por refletir e acaba por fazer o que o pai lhe tinha pedido. Cumpriu, ainda que tivesse hesitado. Há sempre tempo para arrependimento. Uma perna quebrada e emendada não é quebrada. Não adianta responder por responder, só para agradar, e depois não fazer. Os interlocutores ainda estão a tempo de se converterem, de dar uma oportunidade à vontade de Deus e aos Seus desígnios de amor e salvação. É essa claramente a provocação de Jesus: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».

 

3 – A oração inicial da Eucaristia (coleta) ambienta-nos e sintoniza-nos com a liturgia da Palavra, como podemos ver neste domingo: «Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis, derramai sobre nós a vossa graça, para que, correndo prontamente para os bens prometidos, nos tornemos um dia participantes da felicidade celeste».

Constatamos que o poder de Deus está no perdão e suplicamos a Sua graça, para que possamos caminhar para a felicidade eterna.

Na primeira leitura, o Profeta Ezequiel faz-nos ver a misericórdia e a complacência de Deus. A nossa exigência com a justiça leva-nos a perder as pessoas. Queremos ser tão justos que fechamos a porta à capacidade de regeneração, correndo o risco de deitarmos fora a água suja com o bebé lá dentro. Há que deixar crescer juntamente o trio e o joio, até chegar o tempo da ceifa e deixar que o Senhor seja o único Juiz. O nosso juízo é imediato, pelo que vemos, influenciado pelo que sabemos e pelo que sentimos. O juízo de Deus vai além da aparência e como aposta tudo em nós, connosco usa de misericórdia e de paciência, esperando, esperando, esperando o tempo necessário.

Há espaço para o arrependimento e para a conversão, como o filho mais velho da parábola deste domingo, ou como o filho pródigo na parábola lucana do Pai misericordioso. Através do Profeta, Deus faz saber que se o ímpio, «abrir os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, há de viver e não morrerá». Em definitivo, Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva. A glória de Deus é o Homem vivo (Santo Ireneu).

 

4 – O que é que hoje me diz a Palavra de Deus? Como é que respondo às interpelações de Jesus? Como é que o Evangelho pode enformar e iluminar as minhas escolhas? De que lado nos colocamos? Sentimo-nos desafiados por Jesus? Dizemos sim com as palavras e com a vida, com a voz e com as obras? Estamos conscientes das nossas fragilidades e disponíveis para acolher a misericórdia de Deus?

O salmo ajuda-nos a responder a Deus com a Sua Palavra, a invocar a Sua benevolência e a comprometer-nos para vivermos segundo a Sua justiça, na qual impera o amor e o perdão.

«Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, ensinai-me as vossas veredas. Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, porque Vós sois Deus, meu Salvador: em vós espero sempre. Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças que são eternas. Não recordeis as minhas faltas e os pecados da minha juventude. Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência, por causa da vossa bondade, Senhor. O Senhor é bom e reto, ensina o caminho aos pecadores. Orienta os humildes na justiça e dá-lhes a conhecer os seus caminhos».

No coração misericordioso de Deus cabe a minha miséria e a tua, cabe o meu pecado e o teu, cabem as minhas hesitações e despropósitos, cabem os meus amuos e a minha indiferença perante o sofrimento dos irmãos, cabem as minhas reticências e, as tuas, em relação à Sua presença naqueles e naquelas que Ele colocou na minha e na tua vida.

 

5 – São Paulo ilustra o fundamento da salvação: Jesus e o Seu abaixamento, trazendo-nos o amor de Deus. «Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Obedeceu até à morte e morte de Cruz e, pelo amor, gastou a vida a favor da humanidade. Então Deus Pai O eleva acima de todas as potestades. De junto do Pai atrai-nos e desafia-nos a viver na mesma lógica, do mesmo jeito, garantindo-nos a mesma coroa de glória, a comunhão final e definitiva no coração do Pai.

O Apóstolo apela então à identificação com Jesus, mais não seja por alguma consideração para com o ele, Paulo, algum sentimento de ternura e misericórdia. Pede o Apóstolo: «completai a minha alegria». Depois do trabalho árduo, como Jesus, andando por cidades e aldeias, Paulo apela novamente às comunidades: tende «entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração». O apelo vale para todos. Vale para mim e vale para ti. Vale para nós. Vale para todos, vale muito mais para aqueles, como eu e tu, que se assumem cristãos. «Não façais nada por rivalidade nem por vanglória; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros. Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus».

 

6 – Isso mesmo é a história de vida de Santa Teresa do Menino Jesus (Santa Teresinha), cuja festa ocorre a 1 de outubro, mês dedicado especialmente às Missões. Procurou ser pequenina e em cada gesto viver segundo a vontade de Deus, procurando não se ensoberbecer, respondendo com um sorriso a quem a ofendia, e com alegria procurava executar cada tarefa com perfeição, de modo a agradar a Jesus. O seu testemunho de vida faz dela a Padroeira das Missões.

A doença será a sua coroa de espinhos, a sua cruz, o seu calvário, que penosamente carrega. Reza, insiste com Deus. Luta como o intempestivo Job, perante a "partida" que Deus lhe pregou. Há momentos de aflição e trevas, momentos de escuridão, ao ponto de chegar a dizer que lhe falta a fé. Ainda que falte a fé, nunca faltará o amor, a Deus e aos outros. O amor é a sua vocação.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 18, 25-28; Sl 24 (25); Filip 2, 1-11; Mt 21, 28-32.


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