Domingo XXV do Tempo Comum - ano B - 23 de setembro de 2018


1 – «Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento, para alcançarmos a vida eterna». A oração inicial da Eucaristia prepara-nos para escutar a Palavra de Deus e para, à partida, percebermos o fio condutor da mensagem nela contida, iluminando as nossas opções de vida. A Palavra de Deus é sempre desafio, é sempre luz, que nos provoca e compromete, nos envolve e nos transforma. Só assim é viva e eficaz. Qual espada de dois gumes, põe a descoberto as nossas insuficiências, manias e fracassos, interpela-nos a dizer e a fazer o bem ou a melhorar e aglutinar o que já fazemos em prol uns dos outros.

Rezamos dirigindo-nos a Deus. A oração pressupõe humildade de quem se reconhece na sua fragilidade, invocando o poder e o amor de Deus. Em algumas situações, a oração pode ser contraproducente, quando nos coloca numa atitude de sobranceria, de prepotência, quando agradecemos a Deus porque somos melhores que os outros e por não precisarmos ninguém. Ou, em alternativa, só precisamos de Deus, garantia que sairemos vencedores. Os que estão ao nosso lado, mais que companhia ou ajuda, são um estorvo, fazem-nos perder tempo, incomodam-nos. Eu cá tenho a minha fé. Eu e Deus é que sabemos, os outros não importam!

Como releva São Tiago, a fé sem obras é oca. Do mesmo modo a oração. Se rezamos voltados para Deus, mas sem ligação e sem abertura ao nosso semelhante, então a oração é um palavreado inútil, vazio, pois corta um pé do tripé em que assenta: Deus, o próximo e cada um de nós. Amar a Deus implica amar os que Ele ama, logo, a humanidade inteira, concretizável em cada pessoa que Ele coloca à nossa beira. Rezar com o coração fechado à conversão, convictos que não há nada que em nós possa mudar e que Deus não precisa de agir em de nós, estamos bem como estamos, sem abertura aos outros, seria, de facto, uma oração contraditória, pois rezar implica abertura para acolhermos a vontade de Deus.

 

2 – Ao amor de Deus para connosco respondemos com amor em relação aos outros, em forma de serviço, de cuidado e de ajuda. É a nossa identidade, a nossa missão, o nosso compromisso. Não temos como fugir se a nossa opção de vida é seguir Jesus. Seguir Jesus, com efeito, é a nossa primeira vocação. Fomos batizados na Sua morte e ressurreição, para sermos plasmados pelo Seu Espírito.

Fácil dizer! Dizemos muitas vezes. Difícil fazer! Dizemos outras tantas! Há momentos em que vem ao de cima a nossa fragilidade, o nosso pecado, o nosso egoísmo, mas também o medo, a desconfiança e a vontade de fazermos tudo à nossa maneira, e talvez que os outros se sujeitem aos nossos interesses. Não é de hoje.

Logo depois da confissão de fé de Pedro, Jesus diz-lhes ao vem, ou melhor, diz-lhes o que vai acontecer daqui para a frente. «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».

Pedro reagiu da forma que vimos, repreendendo Jesus. Ao anúncio da paixão, Jesus acrescenta imediatamente o anúncio da ressurreição. Mas já tinha feito estragos, os discípulos já não O escutaram direito. Nem sequer compreenderam. Mas tiveram receio de perguntar. Chegados a Cafarnaum, já em casa, Jesus interroga-os sobre o que vinham a discutir pelo caminho. Percebemos então que os discípulos discutiam sobre qual deles era o maior. Se o reino de Deus se vai manifestar, se Jesus vai ser morto, então há que avaliar qual é o mais importante, o mais apto para Lhe suceder nesse novo reino.

Num primeiro momento poderíamos pensar que a repreensão de Pedro a Jesus era muito dele, afinal os outros afinam pelo mesmo diapasão.

 

3 – Jesus parece deixá-los estender ao comprido. Durante o caminho, desta vez, mantém-se em silêncio. Parece não ouvir. Talvez fosse a falar com os seus botões (se os houvesse naquele tempo!), ou a rezar! Já num ambiente mais tranquilo, Jesus toma a iniciativa a responde-lhes.

As respostas de Jesus não se pautam pelo excesso de palavras, por explicações complexas, por tentativas de convencer. Frequentemente recorre a imagens ou a situações concretas vividas na presença dos discípulos.

Sem rodeios, nem margem para equívocos, Jesus diz-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». Entre os líderes das nações, dir-lhes-á noutra ocasião, discutem-se os lugares e o poder de cada um; não seja assim entre vós, quem quiser ser o mais importante coloque-se ao serviço dos outros. Vale para eles, vale para nós. E mesmo os que detêm autoridade, devem exercê-la como serviço, desde o Papa ao mais simples trabalhador da vinha do Senhor. Aliás, o Papa apresenta-se como o Servo dos Servos de Deus, o que vai à frente em dinâmica de serviço.

Vem então o exemplo. Jesus toma uma criança, coloca-a no meio dos discípulos, abraça-a e diz-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou». Simplicidade, alguma ingenuidade, pobreza, despojamento, dependência, vulnerabilidade. Serviço, cuidado. Ao tempo de Jesus, as crianças não eram tidas nem achadas, faziam parte do número dos pobres, dos últimos, dos invisíveis. Mas é deles, dos simples e dos pobres, dos humildes e dos puros de coração, o Reino de Deus. Quem quiser seguir Jesus terá de ser como as crianças, com a alegria e a espontaneidade de quem se entrega, com a humildade de quem pede ajuda, com a candura de quem se aproxima de todos sem preconceitos!

 

4 – Vamos crescendo e vamo-nos dando conta que perdemos muito da espontaneidade, da capacidade de sonhar, de rir e de brincar, a certeza que de que poderíamos ajudar a construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, em que todos pudessem viver lado a lado sem medos nem desconfianças. Já não somos crianças, tornamo-nos adultos e, no entanto, Jesus exige que sejamos como crianças.

O mundo aparentemente é dos poderosos, dos que detém o poder e o dinheiro, dos que agem na sombra, ágeis nas maquinações, especialistas em corrupção, controlando as pessoas e as situações para se eternizarem nos seus castelos e palácios, imunes à pobreza, às dificuldades, escondendo as suas fraquezas no uso da força, da violência e da chantagem.

Na primeira leitura, do livro da Sabedoria, vemos como os ímpios se sentem ameaçados pelo justo e por isso procuram todos os meios para o desacreditar, pondo-o em causa, «porque nos incomoda e se opõe às nossas obras... Vejamos se as suas palavras são verdadeiras, observemos como é a sua morte. Porque, se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá e o livrará das mãos dos seus adversários. Provemo-lo com ultrajes e torturas, para conhecermos a sua mansidão e apreciarmos a sua paciência. Condenemo-lo à morte infame, porque, segundo diz, Alguém virá socorrê-lo».

A luz incomoda quem se move na escuridão, pois pode expor as trapaças e um modo de vida feito à custa dos outros.

 

5 – A Epístola de São Tiago é incisiva, clara, provocadora. Há oito dias dizia-nos resolutamente que a fé se expressa, se vive, se concretiza e amadurece pelas obras. Hoje mostra o que nos torna ímpios e o que pode fazer com que sejamos como crianças.

«Onde há inveja e rivalidade, também há desordem e toda a espécie de más ações. Mas a sabedoria que vem do alto é pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e de boas obras, imparcial e sem hipocrisia. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. De onde vêm as guerras? De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois invejosos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras. Nada tendes, porque nada pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, pois o que pedis é para satisfazer as vossas paixões».

Deixemo-nos guiar pela sabedoria que vem do alto, não cessemos de rezar, pedindo a Deus que nos dê a capacidade de sonhar e de agir em conformidade com Jesus Cristo, imitando-O na Sua entrega, na Sua pobreza, e no Seu serviço a todos, especialmente aos mais frágeis, aos pobres e desvalidos, aos pecadores e aos excluídos do nosso tempo. Com Ele, construamos um Reino de justiça e de paz, de amor reconciliado e de misericórdia.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Sab 2, 12. 17-20; Sl 53 (54); Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37.


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