Domingo XXV do Tempo Comum - ano A - 24 de setembro de 2017


1 – Estamos em tempo de vindimas e nesta região do Douro elas ocupam e preocupam muitas pessoas, muitas famílias. Para algumas é uma oportunidade curial para ganhar o pão para uma temporada. Por vezes vai-se sobrevivendo, trabalhando aqui e além, na recolha das cerejas, na apanha da maça, ao dia; mais para a frente a apanha da azeitona. Em finais de agosto começa o rebuliço das vindimas. Para os proprietários, a quantidade, a qualidade e o preço. Para os trabalhadores, apesar do desgaste e do cansaço, a quantidade das uvas é muito importante, pois garante mais dias ou menos dias de trabalho. Estamos obviamente a lembrar-nos de quem quer (e pode) trabalhar e precisa de trabalhar.

O reino de Deus, diz Jesus, pode comparar-se a um proprietário que sai muito cedo para contratar trabalhadores para a sua vinha, ajustando com eles a respetiva remuneração. Hoje os trabalhadores necessários estão previamente contratados. Mas lá vai surgindo espaço para mais alguém, sobretudo se há mais uvas para apanhar ou se é necessário apressar a colheita. Não há muitos anos, algumas pessoas aprontavam-se de manhã cedo e iam para os lugares da partida dos trabalhadores com a esperança que houvesse necessidade de mais alguém. Atualmente existem situações destas, mas com as tecnologias é possível de véspera contactar com quem contrata.

Todos os trabalhos que estão ligados à terra dependem do trabalho humano e da natureza. Se chove em excesso ou em défice vem prejuízo, ou pelo menos não tanto lucro. Uma trovoada com granizo pode estragar o trabalho de um ano. A preocupação dos produtores! Tanto trabalho e para nada. Imaginemos agora os trabalhadores que ficam sem uma fatia importante do seu ganha-pão?!

2 – A vinha é o mundo, onde o reino de Deus imerge. O Senhor toma a iniciativa. De vários modos, pelos acontecimentos, pelas pessoas, pelos profetas, pelo Seu próprio Filho. Vem à nossa procura, vem ao nosso encontro. Pelas praças e vielas, pelas aldeias e cidades. Em Jesus, sai do Seu conforto, do Seu mundo e mistura-Se connosco, vem para o nosso mundo.

No reino de Deus, a vinha do Senhor, há sempre lugar para mais um, há lugar para todos. Há trabalho para quem quiser trabalhar, para quem quiser comprometer-se, para quem quiser "vindimar", cortar uvas, recolhê-las, carregar baldes, descarregar tinas. Este "Senhor" sai várias vezes ao dia. Não desiste de nos procurar e nos rogar: «Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo». A meio da manhã, ao meio dia, pelas três horas da tarde e ao cair da tarde. Vai encontrando pessoas e convoca-as: «Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?». Distração dos próprios ou incúria dos rogadores? «Ninguém nos contratou».

Como faz este nosso "Senhor" caber-nos-á fazer o mesmo. Sair, procurar, encontrar pessoas para a vinha do Senhor, lançar-lhes o convite. É preciso não nos cansarmos de ir, de chamar, de insistir. «Ide vós também para a minha vinha». Pode haver alguém que não escute! Pode haver quem prefira ficar encostado a preguiçar ou à espera que outros façam! Cabe-nos a nós, a mim e a ti, anunciar, envolver, desafiar. Esta é uma missão de que não nos podemos dispensar sob pena de estarmos a trair o nosso compromisso batismal, a nossa identificação com Jesus Cristo.

 

3 – Deus não deixará sem recompensa nem sequer um copo de água dado em Seu nome. A garantia é dada aos jornaleiros: pagar-vos-ei o que é justo. Ao anoitecer, o capataz cumpre o mandato do dono da vinha e paga o salário aos trabalhadores a começar pelos últimos. Atualmente, o pagamento é feito no final da semana ou no final da vindima, isto quando os patrões não optam por pagar apenas quando recebem da venda das uvas! O trabalhador merece o seu salário e a demora pode fazer muita diferença para quem sobrevive com pouco.

A prontidão de Deus em pagar corresponde à insistência com que sai ao nosso encontro para nos contratar. E quanto nos paga? Quanto nos pagam os nossos pais por serem pais? Tudo! Nada menos do que tudo. Sempre. Eles acolhem-nos com alegria nos braços quando nascemos e estão sempre prontos para nos acolher, mesmo que pelo meio tenhamos sido ingratos, distraídos, distantes, mesmo que só tenhamos "trabalhado" quando o dia estava a findar.

Na nossa lógica muito humana e muito sentida, muito justa e generosa, o proceder do dono da vinha é injusto e, talvez quem sabe, maldoso. Os da última hora recebem o mesmo que os da primeira que trabalharam durante todo o dia, que sofreram a dureza do tempo e o calor!

A própria noção de justiça, herdada de Platão, diz-nos que devemos dar a cada um o que lhe é devido. Por outras palavras, tenho direito a receber em conformidade com o meu trabalho. Seria uma justiça retributiva. Mas obviamente que nem todos partem das mesmas condições ou têm as mesmas oportunidades, daí a necessidade, muitas vezes, de compensar, discriminar positivamente, para que os mais frágeis possam ser incluídos, integrados e colocados em situação de igualdade. Estaríamos aqui falar de justiça social.

Mas o dono da vinha parece que age indiscriminadamente, parecendo favorecer os preguiçosos, os desleixados, os que não se importam se têm trabalho ou não! Mas um Pai que ama como Mãe é assim. Não é falta de exigência, é excesso de amor. E o amor autêntico não é divisível, compartimentalizado, ou se ama ou não se ama, ainda que a confiança possa progredir. Não amo um pouquito para não deixar abusar e depois já amo mais para reconquistar.

Ama com tudo, com todas as forças, todo o entendimento, com a vida toda.

 

4 – «O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade... a sua misericórdia se estende a todas as criaturas » (salmo).

A misericórdia de Deus é o Seu principal atributo. Deus é Pai mas é mais Mãe (João Paulo I).

Ele próprio nos garante, como nos deixa ver Isaías, que nos revela que Deus é generoso em perdoar, pela Sua compaixão para connosco. «Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos».

Em Jesus, Deus dá-Se por inteiro, a cada um, a todos nós. Jesus leva a certeza desse amor até ao último sopro. Nada há que O impeça de dar a vida por nós. Nem o medo, nem a ameaça, nem a agressão. Seria mais fácil fazer um atalho perante a certeza que prosseguir o caminho O levará à morte. Opta por nos conduzir até ao Pai. Percebe-se que primeiros e últimos são destinatários da mesma recompensa: o reino de Deus. Na volta cabe-nos (ou não) acolher o Seu Reino de Amor.

É assim que Deus funciona connosco. Assim devemos funcionar com os outros. Mas por vezes fraquejamos. Somos limitados. Exigimos para nós e para os nossos… Não será um absoluto, mas pelo menos uma tentação. De coração sincero peçamos: «Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento, para alcançarmos a vida eterna».

Na oração percebemos que não podemos dirigir-nos a Deus e voltar as costas ao nosso semelhante. A oração é quase espelho, só que ao olharmos não nos vemos, vemos Deus, e ao olharmos novamente não vemos Deus, mas vemos os outros. E se olharmos novamente vemos Deus nos outros.

 

5 – Sabemos como Deus nos reza e nos diz: somos seus filhos bem-amados. E como rezamos Deus em nós? Voltamos à retribuição para a frente: o amor que Deus nos tem devolvemos-Lho no amor ao próximo.

Temos um bom exemplo, o melhor, Jesus Cristo, que procura passar-nos todo o Amor do Pai. O Apóstolo São Paulo, após a conversão, procurou em tudo ser fiel a Jesus e deixar que Cristo transparecesse em todos os seus movimentos. Por conseguinte, pode concluir: «Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal me permite um trabalho útil, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo».

O Apóstolo está tão identificado com Cristo que percebe que a vida comprometida com a humanidade ou a morte como encontro definitivo são viáveis, desde que correspondam a seguir e viver segundo a vontade de Deus.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Is 55, 6-9; Sal 144 (145); Filip 1, 20c-24. 27a; Mt 20, 1-16a.


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