Domingo XXIX do Tempo Comum - ano C - 20 de outubro de 2019


1 – "Levanto os meus olhos para os montes: donde me virá o auxílio? O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra".

Respondermos à Palavra de Deus com a própria Palavra de Deus, no Salmo, colocámo-nos à escuta, predispomo-nos a acolher o que vem de Deus, a acolher o Deus que, em Cristo, vem até nós.

Uma luzinha, por mais pequenina que seja, pode ser suficiente para nos apontar um rumo, nos indicar uma saída, uma direção. Muitas vezes não precisamos de caminhos fáceis ou de quem faça por nós o que nós podemos e devemos fazer. Mas saber que contamos com outro, saber que, mesmo que falhemos, não estamos sós, que há alguém que nos dará a mão, nos acolherá no seu abraço, nos há de escutar, nos incentivará a caminhar, só isso pode ser o bastante para prosseguirmos o caminho com segurança. Não sabemos o que encontraremos pela frente, o que será o futuro, mas sabemos que não estamos sozinhos, não nos perderemos em labirintos de solidão e treva, haverá alguém que espera por nós, que nos incentiva, que nos estende mão e o colo, que nos ajuda a levantar, que nos chama, orientando os nossos passos, que acende aquela luzinha que nos permite ver um pouco mais...

Com o salmista, confiamo-nos nas mãos e no colo de Deus. "O Senhor é quem te guarda, o Senhor está a teu lado, Ele é o teu abrigo. O sol não te fará mal durante o dia, nem a lua durante a noite. O Senhor te defende de todo o mal, o Senhor vela pela tua vida. Ele te protege quando vais e quando vens, agora e para sempre. Não permitirá que vacilem os teus passos, não dormirá Aquele que te guarda".

 

2 – Deus é Pai. Não é Juiz. É Pai e ama-nos com amor de Mãe.

A justiça de Deus, a resposta de Deus é a misericórdia, o amor, o perdão. Deus acaricia-nos para que o mal não nos aniquile, para que não percamos de vista o bem, o amor, a bênção.

Os pais, que o são, não apenas biologicamente, mas por vocação, por missão e compromisso, por amor, não deixam os filhos sem resposta, até onde é possível responder, até onde têm a responsabilidade por eles. Não se substituem aos filhos. Às vezes era mais fácil estar no lugar dos filhos, ficarem doentes em vez dos filhos, sofrerem as maleitas dos filhos para que estes não sofressem. Mas não é possível. Cada vida é única. Não nos podemos substituir uns aos outros. Somos, neste caso, insubstituíveis. Não podemos reduzir o outro a nós ou que o outro nos reduza a si, seja no bem ou no mal. Aniquilar-nos, podemos; ocupar o lugar "humano" do outro, não é possível e não é humano. Dirá Levinas, o outro é, sempre, totalmente outro.

Deus é Pai. E, como para todos os pais, os filhos têm prioridade. Por amor nos chamou à vida e por amor é responsável por nós. Não nos substitui. Não ocupa o lugar que é o nosso. Não somos marionetas nas Suas mãos, somos filhos. O Seu amor é tão, tão grande, que nos deu, nos dá o Seu filho, faz com que o Céu desça à terra, para que a terra seja iluminada pelo Céu; fez com que o divino encarnasse e assumisse a carne humana. Tornou visível o caminho de regresso ao Seu abraço, ao Seu mundo, ao Seu coração.

Não podemos viver a vida uns dos outros. Devemos, na verdade, fazer parte da vida uns dos outros, pois pertencemos uns aos outros, somos parte uns dos outros, irmãos, somos da mesma família, somos filhos do mesmo Pai. Mas não podemos, contudo, viver em vez do outro, fazer por ele. Podemos ensinar, comunicar a vida. Não podemos substituir.

 

3 – A oração traz-nos a certeza do Céu. Deus é Pai, Deus é bom. Sempre nos escuta, sempre nos responde, mesmo que não percebamos de imediato a resposta ou a resposta seja diferente do que estávamos à espera.

A garantia de Jesus é um desafio à persistência na oração. A oração dilata o nosso coração para a escuta, para acolhermos Deus e a Sua vontade, para nos predispormos para os outros. A oração fortalece, alimenta a fé. E esta, como dom, como virtude teologal, interliga-se àquela, pois se é dom de Deus, só Deus no-la concede. A oração é o combustível para a fé e para irrigar a vida que nos liga a Deus e nos liga aos irmãos.

A parábola de Jesus, segundo o evangelista, é sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar: «Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’».

Depois da parábola, Jesus acrescenta, para que não haja dúvidas que está a falar de Deus: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?».

 

4 – A primeira leitura mostra a certeza de que Deus ajuda aqueles que n'Ele confiam. A linguagem é bélica, mas a fé, a confiança em Deus está lá. Deus responde. Deus fortalece-nos para o combate. Entenda-se, o combate que travamos em busca do amor, da ligação aos outros, procurando lidar com os obstáculos que temos pela frente. Por maiores que sejam, por mais que nos pareçam invencíveis.

O grande líder de Israel, Moisés, diz a Josué, seu discípulo e sucessor: «Escolhe alguns homens e amanhã sai a combater Amalec. Eu irei colocar-me no cimo da colina, com a vara de Deus na mão».

Vale a pena debruçar-nos sobre alguns pontos, concluindo desde logo que Deus quer que todos se salvem e não sancionaria a violência sobre os outros, pois não é essa a Sua justiça. O primeiro ponto, a oração é decisiva, mas requer, exige ou pressupõe o compromisso com o que pedimos, conduz às obras. Moisés vai para o cimo do monte rezar e Josué vai para o campo de batalha lutar com todas as forças, sem descanso, até ao pôr do sol. A luta é acompanhada pela oração. Moisés mantém-se vigilante em oração durante todo o tempo em que decorre a batalha. Há uma ligação direta entre a oração e a vitória sobre o mal. Então, não cessemos de rezar, em tempos específicos, individual e comunitariamente, e mesmo nos nossos afazeres não deixemos de voltar o olhar, o coração e a vida para Aquele que nos recria constantemente.

Temos, também nós, de desbaratar os nossos inimigos. Os nossos inimigos não são os outros. Os nossos inimigos estão cá dentro da nossa casa, do nosso coração: o egoísmo, o ódio, a inveja, o ciúme doentio e possessivo, a vontade, por vezes férrea, de vingança, de retaliação! Paguemos o amor com amor (São João da Cruz). O amor que Deus nos tem, revelado em Jesus Cristo, como pleno e incondicional, há de conduzir-nos ao amor aos outros, na fidelidade à Sua vontade.

 

5 – A oração sustenta, alimenta, amadurece a fé. A fé insere-nos na vida divina. Pelo Batismo, somos imersos na morte e na ressurreição de Cristo, morrendo para o pecado e tornando-nos novas criaturas. A oração faz-nos, em todo o tempo, também ou sobretudo nas adversidades, permanecer firmes nesta vida nova, que recebemos pela fé, na água e no Espírito Santo, em Igreja.

Quando amamos identificamo-nos com a pessoa amada. Sintonizar, sincronizar vontades, a nossa à da pessoa amada, para sermos (mutuamente) fiéis ao que sentimos pela pessoa e ao que ela sente por nós. Então temos que a escutar, não apenas ouvir. Não podemos adivinhar o que sente, o que deseja, o que a torna confortável e segura. Ama e faz o que quiseres. Amar é como se bebêssemos da mesma água, nos alimentássemos do mesmo pão. Isso é possível acolhendo o outro (e o Outro) como é, com a sua história, com os seus dramas e com as suas qualidades.

Oração e escuta da Palavra de Deus. A fé nutre-se da oração, nutre-se da Palavra de Deus.

Paulo diz claramente a Timóteo: "Permanece firme no que aprendeste... Conheces as Sagradas Escrituras; elas podem dar-te a sabedoria que leva à salvação, pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura, inspirada por Deus, é útil para ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça. Assim o homem de Deus será perfeito, bem preparado para todas as boas obras. Proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e doutrina".

A oração dilata o nosso coração para acolhermos Deus. A Sua Palavra ajuda-nos a perceber o Seu amor. A oração e a Palavra de Deus dão forma à nossa fé, revelada e encarnada, em plenitude, em Jesus Cristo. A fé que nos salva faz-nos irmãos, insere-nos na mesma família, compromete-nos com todos, a começar pelos mais frágeis e por aqueles que Deus colocou mais perto de nós para cuidarmos com fidalguia.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Ex 17, 8-13; Sl 120 (121); 2 Tim 3, 14 – 4, 2; Lc 18, 1-8.


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