Domingo XXIX do Tempo Comum - ano A - 22 de outubro de 2017


1 – Opção preferencial pelos pobres. Preferencial, não excludente. Os que estão bem não precisam de tanta atenção. Funciona assim na família. Quando um filho está doente ocupa a atenção dos pais; quando um filho está fora muito tempo absorverá os mimos no seu regresso. Isso não significa excluir ou esquecer os outros filhos. Também a opção preferencial pelos pobres nos remete para uma prioridade: o cuidado a quem mais precisa.

Esta expressão ganhou corpo na América Latina, de onde é originário o Papa Francisco. É uma expressão e um compromisso dos Bispos e das comunidades católicas daquela região do mundo. Aí imergiu a chamada Teologia da Libertação, movimento eclesial que procurava a libertação das situações de pobreza e de exclusão, se necessário com as mesmas armas político-partidárias que outros movimentos. O risco era que a Teologia da Libertação não passasse de mais uma opção política, numa dinâmica sociológica, identificando-se sobretudo com o marxismo e não tanto com o Evangelho, que envolve e exige e enforma a libertação da pessoa toda e não apenas a dimensão material.

O então Cardeal Ratzinger, depois Papa Bento XVI, deu à Teologia da Libertação a fundamentação (cristológica) necessária, tornando visíveis as suas raízes no Evangelho, no proceder de Jesus e nas Suas opções pelos mais pobres. Sendo rico fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza. Nos gestos e nas palavras, Jesus assume-Se pobre, próximo, amigo dos mais pobres. Já no Magnificat, Maria podia rezar a Deus que «derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 46-56)

Em vez de Teologia da Libertação, o Papa Francisco prefere a expressão Teologia da Salvação, purificando-a do risco sociológico e marxista, pois a fé procura a libertação integral, para o tempo e até à eternidade, humanizando as estruturas mas comprometendo as pessoas em projetos em que se sintam atores da própria história.

2 – «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Segundo o sacerdote e teólogo espanhol, José Antonio Pagola, os pobres são de Deus, não são de César. Não podem ser instrumentalizados pelos poderes, pelo debate político-partidário. Os pobres são filhos queridos, amados de Deus, que ninguém pode utilizar para se promover, para disputar lugares. É um compromisso de todos. A começar pelos seguidores de Jesus, os seus discípulos, que nesta HORA somos nós, eu e tu. Não podemos olhar para o lado à espera que alguém resolva. Como disse alguém acerca dos incêndios que assolaram o país e ceifaram a vida a mais de uma centena de pessoas, destruindo sonhos, projetos, famílias, destroçando comunidades, todos temos um quinhão de responsabilidade. Também para com os pobres.

De fora fica, num primeiro momento, a dimensão moral. Não ajudamos esta pessoa ou aquela família porque merece. Emocionalmente prontificamo-nos a ajudar quem faz pela vida. Temos dificuldade em ajudar quem espreguiça a vida e está sempre à espera de ser ajudada, dispensando-se a qualquer esforço. A Teologia da Salvação (Papa Francisco) ou Teologia do Povo preconiza a envolvência dos pobres na resolução dos seus problemas. Não se fazem projetos para eles, mas com eles. Devem estar envolvidos na procura de soluções e na sua execução.

 

3 – Jesus, antes de perguntar, ajuda, dá-Se, entrega-Se, aproxima-Se. É o proceder do Bom Samaritano que dá forma ao lema e ao ano pastoral da nossa mui nobre diocese de Lamego. Vai, e faz tu também do mesmo modo. É um modo de ser e de agir, de viver e de se corresponsabilizar por todos. Como Jesus, como samaritanos deste tempo, aproximamo-nos para ver, para sermos próximos de quem precisa. O Samaritano não pergunta a origem daquele homem vítima de salteadores. Aproxima-se, vê, inclina-se sobre o homem caído por terra, trata-lhe das feridas, coloca-o na sua própria montada, deixa-o ao cuidado do estalajadeiro, como quem agrafa outros para o cuidado dos irmãos, e assegura-se que será bem tratado na sua ausência.

Quem era aquele homem violentamente agredido? Seria alguém honesto? Qual era a sua religião, a sua nacionalidade? Era trabalhador ou também salteador? Jesus não o caracteriza, fala apenas do que fez o Samaritano e desafia-nos a fazer do mesmo jeito.

A armadilha lançada a Jesus é ardilosa. Os judeus estão colonizados pelo grande império romano. É sabido que a elevada carga de impostos, até para assegurar o domínio, mormente pela presença de soldados e oficiais, gera pobreza, dificuldades, exige mais sacrifícios do que se fosse um povo independente. Cá está a utilização de uma arma poderosa: os pobres! Os ricos safam-se com alguma facilidade, pelo que têm e pelas influências que vão granjeando. Os pobres nem têm bens nem têm como se defender das exigências. Os fariseus e os herodianos parecem colocar-se ao lado dos pobres. Devemos ou não pagar os impostos ao imperador? Não pagando, a carga que pesava sobre os trabalhadores, sobre as famílias mais pobres, seria aliviada. Sublinhe-se, porém, que alguns dos impostos são a favor das castas dirigentes, beneficiam os amigos de Herodes e todos aqueles que circulam perto do poder. Se quisessem ajudar os mais pobres renunciavam ou diminuíam os impostos para o Templo, abdicando de alguns privilégios.

Se Jesus respondesse que não se deveria pagar tributo ao imperador seria acusado de instigar à revolta. Se dissesse que se deveria pagar, então sancionava uma situação insustentável de pobreza.

 

4 – Para responder, Jesus devolve a pergunta: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Ora, nas moedas está o rosto de César e assim Jesus lhes responde lapidarmente: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».

Jesus confronta-os com a hipocrisia com que se apresentam a armar-lhe mais uma tramoia. Surgem sorrateiramente. Como sói dizer-se, perguntar não ofende, depois logo se vê a resposta. Sabem que estão a tramar Jesus, a colocá-l'O entre a espada e a parede. Ele terá que responder sim ou sopas! Para Alguém que Se rodeia de pelintras e convive com pobres, doentes, coxos, cegos, leprosos só pode estar contra o poder e contra medidas que dificultem a vida a quem tem muito pouco.

O Mestre dos Mestres já tinha repreendido os seus discípulos pela disputa de lugares e de poder: quem entre vós quiser ser o primeiro seja o servo de todos. Os chefes das nações exercem o seu poder como senhores sobre os demais; o poder dos discípulos é o serviço. Jesus não entra em debates filosóficos ou políticos. Aponta o jeito de ser discípulo: servir amando, amar servindo, gastando a vida. Os poderes políticos têm os seus ritmos e os seus tempos e na ordenação das sociedades são necessários. Diz Jesus a Pilatos: nenhum poder terias se não te tivesse sido dado! Também César devia agir em lógica de serviço e de cuidado, mas essa é a missão primordial dos discípulos de Jesus que hão de levar essa dinâmica a todos os recantos do mundo, a todas as dimensões da vida.

 

5 – Só Deus é Deus e, como tal, não O podemos aprisionar nos limites da nossa racionalidade, nem O podemos utilizar para nos impormos ou para dominar sobre o nosso semelhante. «Eu sou o Senhor e mais ninguém», diz-nos Deus através do Profeta. A divindade de Deus assegura, em lógica de amor, a nossa dignidade, a nossa sobrevivência. A Deus o que é de Deus. Nós somos de Deus. Eu e tu. Existimos, desde sempre, no pensamento de Deus, como diria Bento XVI, e num pensamento que nos ama e nos chama à vida. Todos estamos no mesmo barco. Se por momentos, algum de nós se fizer passar por Deus o equilíbrio do universo corre o risco da desintegração, como aconteceu no passado, com diversos líderes a autoproclamar-se como senhores absolutos sobre os seus povos, procurando subjugar pessoas e nações.

O Senhor Deus lembra a Siro como lhe abriu as portas para proteger e cuidar do Seu povo. «Eu sou o Senhor e não há outro». É Deus que sustenta o poder dos homens, ainda que não os subjugue como marionetas. Criou-nos livres e concedeu-nos a possibilidade de O recusarmos e de O negarmos. Mas continua a amar-nos como um Pai com coração de Mãe.

 

6 – Na segunda Leitura, São Paulo saúda a comunidade de Tessalónica. É uma saudação habitual no Apóstolo sublinhando a confiança em Deus, agradecendo o trabalho dos fiéis das diversas comunidades a quem se dirige, lembrando que o centro é Jesus, o motivo é Jesus, a razão de ser apóstolo é Jesus. É sempre Deus Pai, pelo Seu amado Filho, Jesus Cristo, no Espírito Santo.

A oração e a fé que unem o apóstolo e a comunidade são a garantia que Deus continua a operar no mundo, através dos Seus escolhidos. Hoje, cabe-nos acolher o Espírito Santo, para anunciarmos Jesus Cristo e o Seu Evangelho de perdão e de amor, para integrarmos o Reino de Deus, nosso Pai.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Is 45, 1. 4-6; Sl 95 (96); 1 Tes 1, 1-5b; Mt 22, 15-21.


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