Domingo XXIV do Tempo Comum - ano B - 16 de setembro de 2018


1 – "O que tu és fala tão alto que mal consigo ouvir o que tu dizes". É uma frase que escutei, em "Técnicas de comunicação", há uma dúzia de anos e pertencerá a Ralph Waldo Emerson. Imediatamente nos diz que somos mais do que aquilo que dizemos. Por vezes não precisamos de falar para que as nossas atitudes, postura, os nossos gestos digam, falem, gritem por nós! Positiva e negativamente. Podemos dizer uma coisa com os lábios e com a expressividade do corpo dizer outra diferente. As palavras são importantes, aproximam-nos, humanizam-nos, aprofundam os laços que nos unem. Todavia, as palavras podem atraiçoar o que queremos comunicar ou, desde logo, o que somos. Uma pessoa pode dizer um disparate e isso não definir a pessoa, ela é o que diz, mas é muito mais do que as palavras que profere, é o que é também pelas palavras que não diz, pelos silêncios, pelos gestos que faz!

A segunda leitura, da Epístola de São Tiago, lembra-nos precisamente como expressar, como dizer, como transparecer, como testemunhar Jesus, como tornar visível a fé professada, como mostrar a nossa ligação ao Deus de Jesus Cristo. A fé é o ponto de partida. É pela fé que Deus vem até nós, é a fé que nos permite ver Deus em Jesus e ver Deus no nosso semelhante. Mas não é uma fé (somente) minha, exclusiva, intimista, de trazer por casa, feita à minha medida, mas a fé em Jesus, a fé de Jesus, vivida em comunidade. Quando alguém diz "eu cá tenho a minha fé", das duas uma, ou está a desculpar-se por andar arredado da vida comunitária, ou não faz a mínima ideia do que significa ser cristão (talvez possa ser crente, mas crente todos somos e cremos em tantas coisas que nem ao diabo lembra!).

A fé é acolhimento pessoal, encontro com Jesus, morto e ressuscitado, mas vive-se na relação concreta com o outro, na comunidade e na caridade. São muito significativas a palavras do apóstolo: “De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhes disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta”.

Tiago clarifica bem a fé cristã. Se O seguimos, se O amamos, se acreditamos n'Ele, então imitemo-l'O, na opção preferencial pelos mais pobres. "Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé".

 

2 – São Tiago ajuda-nos a responder à pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Agora é Pedro que responde, inspirado pelo Pai, em seu e nosso nome: «Tu és o Messias».

Estamos ainda numa fase muito precoce do discipulado. Depois desta confissão de fé vamos perceber que os discípulos ainda não perceberam o que significa seguir Jesus. As disputas entre eles far-se-ão notar, mesmo que em surdina. Hão de ouvir Jesus a dizer-lhes que quem quiser ser o primeiro será o último e o servo de todos.

Regressemos ao Evangelho. Jesus segue com os Seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. São Marcos dá-nos conta da missão evangelizadora de Jesus, mostrando-O em movimento, por aldeias e cidades, na Judeia e na Galileia, e em outras terras mais distante, algumas fora da "fronteira" religiosa do judaísmo. O caminho, para Jesus, não é apenas um meio de passagem de uma a outra povoação, é também lugar de encontro, de diálogo e de ensino. Ele caminha connosco, vem ao nosso encontro onde quer que nos encontremos para se tornar Ele mesmo o Caminho que nos conduz ao Pai.

Há ocasiões em que Jesus os deixa os discípulos falar sozinhos ou murmurar e só em casa lhes responde ou os repreende ou lhes explica alguma parábola. Hoje é durante o caminho que Jesus lhes pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». E a resposta é imediata: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas». Quer a pergunta quer a resposta não nos implicam, pois apontam para o que os outros dizem e pensam. É uma sondagem sobre a opinião pública. Mas logo Jesus lhes arremessa com outra pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».

 

3 – Esta questão é mais pessoal. Cabe a cada um responder a Jesus. Não esqueçamos que a fé tem sempre duas dimensões, a pessoal e a comunitária. Não é uma fé abstrata, da multidão, é uma fé que resulta de um encontro, cada um de nós com Jesus, e que implica a conversão ao Seu evangelho. Obviamente, se professamos a fé em Jesus Cristo, pessoalmente, seremos impelidos para a comunidade, para junto daqueles que professam a mesma fé, adoram o mesmo Pai, se alimentam do mesmo Espírito!

Pedro toma a dianteira e responde firme: Tu és o Messias. Partindo daqui, Jesus clarifica as coordenadas da Sua missão e as consequências decorrentes das Suas opções, dizendo-lhes que se aproximam tempos conturbados em que o Filho do Homem, o Messias, vai sofrer muito, vai ser rejeitado pelas autoridades (religiosas) e vai ser morto. E, três dias depois, ressuscitará. Depois de notícias preocupantes, já não sobra espaço no nosso coração para escutarmos o que há de positivo!

Perante a clareza com que Jesus fala na Sua morte, Pedro volta a intervir, já não diante dos outros apóstolos, mas à parte, repreendendo-O por dizer tais coisas. É a vez de Jesus o confrontar com os seus interesses: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens».

Para Pedro era inconcebível que o Messias, o Filho de Deus, pudesse sofrer às mãos dos homens. De repente, parece que os seus planos começam a ficar estragados e as expetativas colocados no Mestre parecem não fazer sentido. Contudo, é preciso, ainda assim, remediar a situação e evitar que Jesus diga aquelas coisas, pois isso vai afastar a multidão. É o medo de Pedro, e o nosso também, mas não a postura de Jesus, o Mestre da Sensibilidade.

 

4 – Seguimos Jesus porque nos deixamos encontrar por Ele e a Ele nos convertemos de todo o coração, sabendo que a nossa vida não fica mais facilitada por isso, quando muito a nossa vida fica absorvida na d’Ele, até à eternidade. Se O seguimos, sujeitamo-nos ao que Ele Se sujeitou, a ser injuriado, preso, maltratado e até morto.

Vale para os discípulos presentes e futuros. No diálogo anterior Jesus voltou-Se sobretudo para os discípulos, agora dirige-se a todos, à multidão com os seus discípulos dentro: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».

Pontos nos “is”, tudo em pratos limpos. O seguimento exige tudo de nós, a nossa vida por inteiro, com as suas dificuldades, contratempos, sonhos e projetos, conquistas e fracassos. É pegar na nossa cruz, na certeza que o que se ganha é o que se investe no cuidado e no serviço aos outros, gastando-se totalmente, como faz Jesus, até ao último fôlego, até ao último suspiro. Agora entende-se melhor a pergunta feita por Jesus a cada um de nós. Sabendo o que nos espera se O seguirmos, até que ponto estamos dispostos a testemuhá-l’O e a transparecê-l’O na nossa vida? Pedro professa a fé em Jesus, o Cristo! Tiago revela que a fé se diz (também) com a vida, com as obras. Melhor, a fé que nos une a Jesus Cristo, e em Jesus ao Pai, pelo Espírito Santo, é a mesma fé que nos irmana e nos compromete com todos.

Nem sempre será como desejaríamos. Vale para todos. Nesses momentos façamos também como Jesus, procuremos a sabedoria e a ousadia na oração. «Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração» (coleta).

 

5 – O profeta Isaías antecipa o mistério da entrega do Messias que está para vir! Palavras que, a posteriori, encaixam em Jesus: «O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra e sei que não ficarei desiludido. O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?»

Este é um texto lido na proximidade da Páscoa, precisamente por apontar Jesus como o Servo sofredor, o Cordeiro inocente levado ao matadouro, explicitando os contornos da Sua oferenda pascal. Por um lado, a fidelidade ao projeto de amor, apesar da violência com que é tratado e, por outro, a certeza que Deus virá em Seu auxílio também em momentos de extremo sofrimento. O salmo permite a mesma leitura: «Apertaram-me os laços da morte, caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na dor. Então invoquei o Senhor: ‘Senhor, salvai a minha alma’. O Senhor guarda os simples: estava sem forças e o Senhor salvou-me».

Hoje cabe-nos, a cada um, enfrentando os seus medos e contratempos, falar de Jesus, dizer Jesus em palavras e obras, anunciar Jesus a todos os que encontrarmos na nossa vida, com audácia, alegria e generosidade.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Is 50, 5-9a; Sl 114 (115); Tg 2, 14-18; Mc 8, 27-35.


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