Domingo XXIII do Tempo Comum - ano C - 8 de setembro de 2019


1 – Preferir não é excluir. Quem não tem preferências, não tem gostos, não tem paixões, fica sempre nas encruzilhadas, não é capaz de fazer opções.

António Damásio, neurocientista, português radicado nos EUA, no livro que o deu a conhecer, "O Erro de Descartes", sustenta o princípio "sinto, logo existo", contraposto à máxima de Descartes "Penso, logo existo" (cogito, ergo sum). Ao longo da obra, o autor procura mostrar que o pensamento é precedido do sentimento e das emoções. Antes de falarmos, sentimos. Num dos capítulos, o neurologista defenderá que o amor é mais que um sentimento, quando muito, um sentimento de fundo, que está na base de todos os sentimentos, é essencial à sobrevivência da humanidade e identifica-nos como pessoas.

Partindo da observação de pessoas que lesionaram as partes do cérebro associadas às emoções, António Damásio, exemplifica que estas pessoas são capazes de evitar um acidente num dia de gelo na estrada, pois racionalizam o que têm de fazer, sem nervosismos, medos ou ansiedades, mas se tiverem que decidir o dia da próxima consulta com o médico já não são capazes, qualquer dia serve, nada os motiva para que seja na quarta ou na sexta.

Quem não tem um amor único, raramente tem um único amor! Por outras palavras, quem não ama no concreto, não tendo um amor fundante, dificilmente saberá o que é amar. Posso amar o mundo inteiro, mas se não sei lidar, cuidar, acarinhar quem está perto, estarei apenas fixado no mundo das palavras e não da vida. Difícil não é ter muitos amores, difícil é optar por um amor, único, aglutinador. No tempo que vivemos, há uma enorme dificuldade em assumir compromissos para a vida, mais ou menos definitivos, duradouros. Assusta-nos o que nos humaniza e engrandece: o amor primeiro e único – Deus.

 

2 – Numa das cenas comoventes do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, a mulher de Pilatos solidariza-se com a dor de Nossa Senhora. Enquanto Jesus está a ser severamente chicoteado, a mulher de Pilatos aproxima-se de Maria e entrega-lhe um pano de linho, para limpar o sangue... ou para servir de mortalha. É uma criação cinematográfica, mas muito bem conseguida. São Mateus apenas refere que a mulher de Pilatos lhe disse para não se prender com Jesus, pois teve um sonho terrível com Ele (cf. Mt 27, 19). O argumento destaca a presença de Cláudia, nome não referido nos Evangelhos, sempre por perto de Pilatos. O seu olhar parece condenar a fraqueza de Pilatos, focando-se na dor de Maria. Antes de lavar as mãos, Pilatos volta a olhar para a sua esposa, perdido e indeciso! Só uma mulher compreenderá a dor de outra mulher ou, melhor, só uma mãe (ou futura mãe) será capaz de perceber o que significará a perda de um filho.

Mas fixemo-nos novamente nos Evangelhos, nomeadamente no de São João, no momento da Paixão. Junto à Cruz de Jesus está Maria, Sua Mãe, de quem celebramos hoje o seu nascimento, e o discípulo amado. Jesus volta-Se e dá-nos Maria por Mãe: eis a tua mãe. E a Maria nos entrega como filhos: eis o teu filho. A maternidade de Maria é carnal, gera Cristo, mas o seu amor de Mãe amadurece e estende-se à humanidade, tornando-se Mãe espiritual de cada um de nós. A unicidade do amor de Maria multiplicar-se-á pela humanidade.

Mas também a Encarnação de Deus, que Se faz Homem no seio da Virgem Maria, implica que o universal se concretize e realize no tempo, na história, o divino no humano. Por amor, só por amor, Deus Se "desdobra" para salvar a humanidade, encarnando, assumindo-nos, fazendo-Se um de nós, para nos impelir a fazer parte da Sua vida, como no princípio, levando, em Jesus Cristo, esse amor até ao limite, até à última gota de sangue, até ao último fôlego.

 

3 – Há uma multidão que segue Jesus, uma multidão que ainda não é comunidade, é um seguimento somente geográfico, provisório e/ou por curiosidade. Jesus interpela a multidão, para que as pessoas que a integram possam transformar-se em comunidade. «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo».

Poderíamos ter começado por aqui... Jesus sublinha claramente a preferência, a precedência e a prioridade do seguimento. Quem não se dispuser a gastar a vida, a segui-l'O, com a cruz de todos os dias, a vida por inteiro, nos seus sonhos e projetos, com as suas dores e dificuldades, não pode ser Seu discípulo. Segui-l'O provisoriamente, quando dá jeito, quando as coisas correm bem, quando há tempo (cronológico) disponível, quando preciso, não se coaduna com o discipulado. O discípulo segue o Mestre com o intuito de O imitar, decalcando os Seus passos, a Sua postura de vida. Ora, já o sabemos de cor(ação): Jesus dá-Se totalmente, um único amor, pela humanidade, gastando-Se por inteiro, sem reservas nem condições! Entenda-se: a Sua prioridade, a precedência, é o amor do Pai, o amor ao Pai. É o amor maior, o amor único. Eu vim para fazer a vontade d'Aquele que Me enviou, o Meu alimento é fazer a vontade de Meu Pai. E por aqui vemos que a exclusividade do amor ao Pai não é excludente, pelo contrário, inclui e dá primazia à humanidade.

Desta forma, o seguimento de Jesus, a qualidade e a intensidade do amor que Lhe devotamos há de caracterizar e enformar precisamente a capacidade e disponibilidade para os outros. É que amar Jesus implicará amar os que Ele ama e agir como Ele (isso é o que significa ser discípulos). Quando amamos mais a vida do que a Ele, guardamo-la para nós, fechar-nos-emos, com o risco bem conhecido de instrumentalizarmos os outros em favor da nossa vida ou de os endeusarmos. Fixarmos o nosso coração em Deus, como preferência e prioridade, é a melhor garantia do cuidado e do serviço (desinteressado, quanto possível) aos outros, também à família, com a "agravante" de não podermos guardar nada para nós. A prioridade por Deus leva à radicalidade pelos outros, pois essa é a prioridade de Deus.

 

4 – Se a prevalência for por Deus, não corremos o risco da corrosão, da desilusão e do desencanto. Reconhecer que só Deus é Deus e só a Ele adoramos, permite-nos caminhar em frente, enfrentar a alegria e o sofrimento, sem adular ou culpar os outros, sem nos sentirmos culpados por termos sido exigentes ou desleixados.

A abertura do nosso coração à sabedoria de Deus ajuda-nos a viver na disponibilidade para fazermos o bem e projetarmos a nossa vida até à eternidade. "Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo? Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão na terra, os homens aprenderam as coisas que Vos agradam e pela sabedoria foram salvos".

Alimentando-nos da sabedoria de Deus seremos salvos por Ele. Por conseguinte, a oração há de ser constante e também hoje Lhe rezamos: «Senhor nosso Deus, que nos enviastes o Salvador e nos fizestes vossos filhos adotivos, atendei com paternal bondade as nossas súplicas e concedei que, pela nossa fé em Cristo, alcancemos a verdadeira liberdade e a herança eterna». A fé em Jesus Cristo, amando-O e seguindo-O, faz-nos viver na Sua sabedoria, que nos guia, orienta e ilumina na prática do bem.

 

5 – Foi pela fé que o Apóstolo São Paulo, na bonança e na adversidade, se manteve firme, deixando-se conduzir pela sabedoria de Deus. A fé de Paulo, a minha e a tua fé, não é uma fé qualquer, mas a fé na morte e ressurreição de Cristo que nos liberta do poder das trevas, do pecado e da morte, e, simultaneamente nos insere na comunidade. Pela Batismo, tornamo-nos Corpo de Cristo e como membros cuidamos para que outros estejam bem, saudáveis, felizes.

O Corpo é um só. Vários os membros. Se um sofre, sofrem todos. Se a um se presta mais cuidado, todos se devem sentir agraciados pelo bem feito a um dos membros, pois todos acabarão por beneficiar.

O Apóstolos aperfeiçoou o amor por Cristo, para que não restassem resquícios na sua vida do homem velho. Para mim viver é Cristo. Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em Mim. Fiz-me tudo para todos, para ganhar alguns para Cristo.

É nesta lógica de entrega, de prioridade, de exclusividade que Paulo se preocupa e ocupa de todos, concretizando-o nas pessoas que Deus coloca diretamente ao seu cuidado. Até na prisão, o amor ao Evangelho, a Jesus, é tão grande que não cessa de O anunciar. E o escravo, pelo anúncio do Evangelho, pela conversão, torna-se irmão.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Sab 9, 13-19; Sl 89 (90); Flm 9b-10. 12-17; Lc 14, 25-33.


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