Domingo XXIII do Tempo Comum - ano B - 9 de setembro de 2018


1 – O encontro com Jesus há de libertar-nos de todo o mal, abrir-nos os ouvidos, escutando-O, desprendendo-se-nos a língua, para O anunciarmos em toda a parte, com a nossa vida toda. Às vezes fazemos ouvidos de mercador. Outras vezes silenciamos a nossa voz para não nos chatearmos, outras fazemos coro para não acharem que nos achamos melhores! Precisamos de nos aproximar constantemente de Jesus Cristo para nos deixarmos tocar pelo Seu Espírito de amor.

Vivemos numa época de excesso de comunicação. Corrijo, de excesso de informação, pois comunicação implica-nos, faz-nos interagir física, espiritual e afetivamente, envolve-nos, comove-nos, faz-nos reagir e responder (com palavras e com gestos). E o que temos, muitas vezes, são notícias, fofocas, ruído, maledicência, insinuações… Ouvimos muito. Muitas pessoas. Muitas vozes. Mas de tudo quanto ouvimos, o que é que retemos, o que é influencia (positivamente) a nossa vida? Ouvimos muito, mas escutamos pouco! A escuta pressupõe atenção, silêncio, sobretudo interior, aceitação e compreensão, ou pelo menos a tentativa por sintonizarmos com o que nos é dito!

Quando queremos que alguém nos compreenda, por alguma coisa que dissemos ou fizemos menos justa, dizemos-lhe que tente pôr-se no nosso lugar. Do mesmo modo, devemos fazê-lo em relação aos outros. Não é possível em absoluto, pois somos diferentes, o tempo é outro, as circunstâncias não se repetem, mas fazer esse exercício, procurando ver as situações como o outro as vê, pode levar-nos a compreendê-lo. A escuta aproxima-nos. Até fisicamente. Se alguém está a falar e queremos escutar, perceber, reter o que diz, tentamos que nenhum outro ruído atrapalhe ou que a distância dificulte a audição. Se a pessoa está perto e a falar baixo: pedimos que repita uma e outra vez, aproximamos os ouvidos, ou aquele com que ouvimos melhor, para não perdemos nenhuma palavra. Assim também quando queremos que nos escutem, aproximamo-nos, aclaramos a voz, esperamos que não haja muito ruído para falar! E se a pessoa olha para o lado, esperamos que volte a olhar para nós e assim sabermos que está a prestar atenção! É este o exercício que nos cabe em relação a Jesus.

 

2 – Deus criou-nos por amor. O amor deseja o bem do outro. Se Deus nos criou por amor, Deus quer-nos bem. Como um Pai, como uma Mãe, Deus quer a nossa felicidade. Em todos os aspetos da vida. Em situações de doença grave e/ou crónica, é comum ouvirmos pessoas crentes a dizerem que é a vontade de Deus. Deus quer assim, que é que se há de fazer?! Em Jesus, vê-se bem que Deus não quer assim, Deus quer para nós todo o bem. Porém, a vida, a nossa vida é finita, frágil, mortal. Nem tudo é como desejaríamos! A vida depende de nós, mas depende de outros e dos fatores que nos envolvem, muitos dos quais não controlamos. Não somos deuses! Somos humanos. O que se diz da nossa biologia, pode observar-se também na nossa vida mais espiritual, afetiva, social.

Trazem a Jesus um surdo que mal podia falar e suplicam-Lhe que imponha as mãos sobre ele. Encontramos pessoas no nosso caminho que nos encaminham para quem nos pode ajudar. Também nós podemos e devemos exercer esta missão, ajudar ou encaminhar para quem o pode fazer. No campo da vivência cristã, cabe-nos, pessoal e comunitariamente, conduzir os outros a Jesus, falando d'Ele, apresentando-O, criando as circunstâncias para que Ele Se torne visível e acessível.

O bem não precisa de ser badalado, tem luz própria. Claro que o tempo em que vivemos, em que o mal tem honras de primeira página, será bom que as boas notícias sejam visíveis, contrabalançado com a esperança no amanhã e com a confiança na bondade das pessoas, a certeza que nem tudo está perdido. Jesus afasta-Se da multidão. O Seu desejo não é fazer um espetáculo para a multidão, mas atender aquele surdo-mudo. Mete-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva toca-lhe a língua, erguendo os olhos ao Céu. A cura não é automática, exige oração, tempo, perseverança, exige de nós, ligando-nos aos outros! Bem sabemos, como a carícia, o beijo, o toque tem poderes curativos, pois faz-nos sentir vivos!

 

3 – O encontro com Jesus transforma-nos! O encontro com os outros deveria transformar-nos e, como diria a Madre Teresa de Calcutá, deixar os outros mais felizes do que quando os encontramos. Os ouvidos daquele homem despertaram, a sua língua desprendeu-se e quantos o acompanharam testemunharam a ternura e o amor de Jesus. Bem lhes pediu Jesus que não dissessem nada a ninguém. Mas como poderiam calar o que viram, como poderia esquecer o poder que Se faz amor?

 

4 – O Profeta Isaías está mandato para proclamar a esperança aos corações atribulados. Deus não tarda. «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos».

Às palavras de Deus, o Profeta anuncia os sinais que revelam que Deus, o próprio Deus, está no meio de nós para nos salvar. «Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água».

A vinda e a vida de Jesus atestam que a salvação chegou até nós, Deus está no meio de nós. Em Jesus, a salvação está ao alcance da nossa mão. As palavras do Salmo adquirem sentido de realização em Jesus. «O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos. O Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva e entrava o caminho aos pecadores. O Senhor reina eternamente; o teu Deus, ó Sião, é rei por todas as gerações».

A promessa de Deus cumpre-se em Jesus e cumprir-se-á connosco se Lhe abrirmos o coração e a vida.

 

5 – Salvos em Jesus Cristo, no mistério da Sua morte e ressurreição, sendo por Ele assumidos pelo Batismo, e a Ele configurados pelos Sacramentos, especialmente na Eucaristia, mas sempre vigilantes para não descarrilarmos, para que em nós sobrevenha a misericórdia de Deus e não o nosso pecado e as nossas limitações.

Na segunda leitura, São Tiago explicita como a fé, a nossa fé em Cristo, nos leva a agir em conformidade, isto é, a agir ao modo de Jesus. Para Ele não há aceção de pessoas. Para nós também não pode haver. A aparência exterior pode iludir-nos, mas não o coração de Deus que ama cada um de nós com amor eterno, a começar pelos mais desfavorecidos. «Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios? Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?»

Jesus mostra-nos o caminho, melhor, Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida! Sigamo-l'O de todo o coração e com toda a nossa vida.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Is 35, 4-7a; Sl 145; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37.


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