Domingo XXIII do Tempo Comum - ano A - 10 de setembro de 2017


1 – Deus nunca desiste de nós. Esta é a história de Deus com os homens. A história da criação e da salvação. Deus não desiste de nós. Criou-nos por amor e por amor nos sustenta na vida. Quer-nos bem, tão bem como um Pai, como um Mãe a um/a filho/a.

A Sagrada Escritura coloca em evidência a ligação íntima de Deus com a Humanidade. As alianças renovam-se. Com Adão e Eva. Com Caim. Com Noé. Com Abraão. Com Isaac e Israel (Jacob). Com Moisés e com Josué. Com David e com Salomão. Com os Juízes e com os Profetas. Deus não desiste. Insiste sem forçar. Uma e outra vez. Quebrada uma Aliança, poderia alhear-Se para sempre! Mas como poderia abandonar a obra criada pelas Suas mãos?

Chegada a plenitude dos tempos envia-nos o Seu próprio Filho para n'Ele nos mostrar o Seu amor, a Sua ternura, a Sua complacência. Em Jesus Cristo visualiza-Se Deus, a Sua misericórdia, a Sua bondade. Sem arrogância, sem vícios de poder e prepotência. Pelo serviço, pela humildade, pela compaixão. Sempre. Em todos os momentos. Resistindo a todos os ataques e a todas as armadilhas. Levando a Boa Notícia a todos os recantos, aos pobres, às mulheres, aos estrangeiros, aos publicanos e pecadores. Sem medo de contágios! Pelo contrário, tentando a todos contagiar para o Reino de Deus, que se anuncia e se testemunha pela atração, como desafia Bento XVI, por atração materna, como acrescenta o Papa Francisco.

Jesus é acusado de comer com publicanos e pecadores, de andar em má companhia, com pessoas de índole duvidosa, com gestos que revoltam as autoridades políticas e religiosas. Faz-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, pobreza que nos coloca no coração de Deus, dilatando o nosso coração e estendo o nosso amor para todos, a começar pelos que estão à nossa beira, dentro de portas.

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2 – Perdoar? Sempre. 70X7. Em todas as ocasiões. Só o pecado contra o Espírito Santo não tem perdão, ou por outras palavras, a contumácia, o orgulho, a autossuficiência, a sobranceria, o ensimesmamento, o fechar-se conscientemente a qualquer luz, a toda a verdade, a toda a ajuda.

Quando Pedro pergunta a Jesus se se deve perdoar até 7 vezes, ele julga que está a ser muito generoso. Perdoar uma vez é razoável. Perdoar duas vezes é bondade. Perdoar três vezes é a conta que Deus fez, já começa a ser abuso. Ora a resposta de Jesus vai muito além. Sete vezes já era perdoar sempre. Perdoar 70X7? É melhor não fazer as contas! Jesus também não as faz. Por alguma razão dizemos que errar é humano e perdoar é divino. Ainda que humano seja amar e errar seja, muitas vezes, desumano. Perdoar eleva-nos, projeta-nos para outro nível de compromisso, que nos obriga a superar gostos e preferências, a tolerar nos outros o que gostávamos que tolerassem em nós, a compreender as fragilidades alheias e amar além dos defeitos e insuficiências.

As comunidades cristãs dos primeiros tempos, concretamente a comunidade de onde Mateus escreve e nos dá a sua versão do Evangelho, procura ser fiel à mensagem de Jesus: perdoar sempre. Não julgueis. Não condeneis. A quem te bater numa face oferece também a outra. Reza por aqueles que te maldizem. Abençoa os que te perseguem. A quem te pedir a capa dá também a túnica. Não matarás. Não te irrites contra o teu irmão. Se o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta no altar e vai reconciliar-te com ele. A Eucaristia reconcilia-nos, senta-nos à mesa com Jesus, une-nos aos outros. Mas a Eucaristia vale enquanto nos converte, nos irmana e nos faz dar passos concretos para vivermos em harmonia, como família, apesar das dificuldades, das diferenças e das fragilidades que nos caracterizam.

 

3 – O texto do Evangelho exprime não apenas a Mensagem de Jesus, mas o acolhimento das Suas palavras por parte da comunidade cristã, daqueles e daquelas que decidiram segui-l'O e viver como comunidade, pondo em prática os Seus ensinamentos e imitando o Seu proceder.

A comunidade procura ver, traduzir, atualizar e concretizar tudo o que vem da parte do Senhor Jesus: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano».

O Mestre da Sensibilidade dirige-se aos Seus discípulos. Melhor, aqueles que se apresentam como Seus discípulos têm de considerar (sempre) a opção pelo perdão, pelo serviço, pela reconciliação. Uma e outra vez. E outra vez ainda! Descrição. Bom senso. Equilíbrio. Respeito pela pessoa que está à frente. Já me cansei de repetir que quem enche a boca com a própria frontalidade, entendida como dizer sempre tudo o que lhe dá na real gana, independentemente de quem esteja à frente, não passa de uma criança mimada, que diz tudo, sempre oportuna e inoportunamente, uma criança a quem tiraram o brinquedo. Mas a criança é criança, é ingénua, está a aprender, a crescer. No adulto essa atitude revela infantilidade. Quem está à nossa frente não é um saco de boxe em quem descarregamos a nossa azia, o nosso azedume com a vida. Ser frontal não é isso. Ser frontal é ser verdadeiro, mas respeitar o outro como pessoa, como rosto e presença de Deus. E a azia com que tratamos os outros, não é azia com que tratemos Jesus.

Correção fraterna. Se tens que corrigir, corrige a sós, discretamente. Se não houver avanços, pede ajuda a uma ou duas pessoas. Não, não desistas, nem à primeira nem à segunda. Recorre à Igreja, será mais uma ajuda. Falamos habitualmente em segunda oportunidade. A comunidade cristã daqueles dias percebe que terá que dar segundas e terceiras oportunidades e não desistir às primeiras dificuldades e contratempos.

 

4 – Com efeito, somos responsáveis uns pelos outros. Sempre. Se nos calarmos por preguiça ou por conveniência; ou se as nossas palavras afastarem, maldizendo e excluindo, contribuímos para a perda dos nossos irmãos.

Temos o poder para unir, para ligar a própria terra ao Céu. «Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu». A comunidade continua a escutar a mensagem de Jesus: «Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles». Se num primeiro momento se vislumbra a necessidade da comunidade, formada por pessoas, ter regras, para persistir e sobreviver como comunidade, logo depois sobrevém o ensinamento de Jesus: se nos unirmos para nos ajudarmos mutuamente também Deus nos ajudará, Ele está no Meio, congregando-nos. Poderíamos começar por aqui: colocar Jesus no centro, no meio, e reunirmo-nos à Sua volta.

O Profeta Ezequiel, na primeira leitura, mostra a responsabilidade para todos, especialmente para com o pecador. Não nos cabe dizer mal, mas alertar, cuidar, prevenir. Se não o fizermos, sabendo que está no mau caminho, Deus responsabiliza-nos por tal. «Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte».

 

5 – O Salmo e a segunda leitura afinam pelo mesmo diapasão. Com o salmo respondemos à palavra de Deus com a própria Palavra de Deus. Mas fica o desafio: se hoje ouvirmos a voz do Senhor não fechemos os nossos corações. Os ouvidos até podem já não ajudar, mas que o coração não dificulte.

A segunda leitura aviva o mandamento novo, lembrando-nos as palavras de Jesus e dizendo-nos que todos os mandamentos nos ligam aos outros e nos levam a amá-los como a nós mesmos. Vale a pena reter e sublinhar a expressividade do apóstolo: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei... A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei». Tudo dito!


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