Domingo XXII do Tempo Comum - ano C - 1 de setembro de 2019


1 – Gaba-te cesto que amanhã vais para a vindima. Já que ninguém te gaba... gabas-te tu! Em tom de brincadeira, mas também as brincadeiras podem ser lições para a vida, estas expressões dizem-nos que as qualidades que temos e o bem que fazemos não precisam de ser badalados, serão visíveis por si mesmos.

Claro que uma dose equilibrada de autoestima e confiança é positiva. Como em tudo, os excessos desviam-nos da nossa identidade e, pior ainda, da fraternidade a que pertencemos. A prepotência e a arrogância fecham-nos e afastam-nos dos outros, consideramo-los adversários, dispensando-os como estorvo ou instrumentalizando-os. Uma humildade sem personalidade impede qualquer tipo de diálogo ou relacionamento saudável. Se não sabemos quem somos e os valores que nos caracterizam, como podemos saber ou fazer a diferença e a aproximação em relação aos outros? Uma falsa humildade não difere muito da sobranceria, disfarçar-se para se impor ou para ser endeusado!

No reino de Deus, como discípulos de Jesus, o que conta não é o que temos em bens materiais ou em títulos académicos, nem tampouco as competências que possuamos, o decisivo é o que somos e o que fazemos com os dons que Deus nos dá. Não importa discutir os méritos de cada um, o essencial é o serviço aos irmãos, o amor comprometido com os outros e traduzido em ações concretas.

 

2 – Os ditadores são os que mais falam em liberdade. Os arrogantes só têm uma palavra na boca: humildade. Os egoístas são das pessoas que mais falam em partilha e solidariedade, como proposta para os outros.

Refira-se, também aqui, que a vida não é a preto e branco, tem muitas matizes, é multicolor. As máximas catalogam as pessoas, mas não as exprimem com toda a justiça, pois cada pessoa é um mundo e um mistério. Em cada um de nós convive o bem e o mal, a luz e as trevas, a santidade e o pecado, a verdade e o medo, o trigo e o joio. A consciência de que somos humanos, de que estamos a caminho, de que somos pecadores, é a oportunidade para crescermos, para nos abrirmos aos outros e aprendermos com eles, e de deixarmos que o amor de Deus encaixe na nossa vida e nos converta. A conversão é um desafio e um compromisso para todos os dias.

Precisamos de ver e ser vistos, de ser reconhecidos pelo bem ou pelo mal. Mais vale dizerem mal de nós do que nos ignorarem, sublinham alguns. Com Cristo, porém, aprendemos a assumir o que somos, as nossas limitações e hesitações, e a procurarmos a afirmação pelo amor, pelo perdão e pelo serviço. Como Ele, seguindo-O, amando, servindo, dando a vida!

Paradigmática é a cena da Última Ceia, em que Jesus Se prostra diante dos Apóstolos e lhes lava os pés. Para que, assim como Eu fiz, vós façais também uns aos outros. Dei-vos o exemplo. O Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos.

 

3 – O Evangelho mostra-nos Jesus, a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. Todos O observam. Jesus não faz aceção de pessoas. Quando toma a iniciativa vai ao encontro das multidões, dos pobres, doentes, dos mais pequenos da sociedade. Se convidado ou interpelado, Jesus não deixa de entrar no coração, na casa, na vida dos "ricos", dos fariseus, dos escribas. Ele veio para salvar-nos, a todos! Salva-nos do orgulho, da sobranceria, da soberba. Abramos-Lhe uma nesga e Ele irradiará de luz da nossa vida!

Tendo havido vários momentos de crispação, de confronto, de discordância de Jesus, especialmente, com os fariseus, estranha-se que Ele aceite o convite de uma figura proeminente dos fariseus para uma refeição. No mundo judaico, sentar-se com alguém à mesa implica familiaridade e proximidade, diria, supõe comunhão de ideias e de vida. É normal que os olhos se fixem em Jesus para ver o que Ele dirá ou o que fará.

Também Jesus os observa e não Se sente constrangido por estar em casa deste homem "importante", e também aí não deixará de dizer o que pensa e ao que vem. O anúncio do Reino de Deus não tem pausas, nem conveniências, é para todo o tempo e todas as situações.

Vendo que os convidados escolhem os primeiros lugares, aproveita e diz-lhes algo de muito prático: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

Um conselho muito útil para uma convivência social salutar, mas apontando também para as opções do Reino de Deus.

 

4 – Na primeira leitura é-nos oferecida a sabedoria de Ben-Sirá, que está em sintonia com as palavras proferidas por Jesus, apontando a humildade como caminho para o reconhecimento, alertando que o estatuto ou a responsabilidade devem levar ainda a uma maior humildade: "Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória". A abertura aos outros, o reconhecimento que podemos aprender com eles, a missão do serviço ao próximo, segundo o mandato do Senhor, ajuda-nos a amadurecer e torna-nos verdadeiramente irmãos.

Pelo contrário, diz o sábio de Israel ao seu filho e nós também, "a desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes". A soberba e a arrogância impedem-nos de reconhecer a sabedoria que nos encaminha para o bem e nos liga aos outros.

 

5 – Logo de seguida, Jesus acrescenta: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos».

Clarividente, nestas palavras, a opção preferencial de Jesus: os mais pobres, aqueles que a sociedade colocou de parte ou que as circunstâncias da vida atiraram para as margens. Uma Igreja pobre, humilde, transparente, disponível, lunar, deixando que a Luz brilhe através das suas opções, ao serviço dos mais pobres, ao lado dos injustiçados, a favor da vida e da paz, da conciliação e de um mundo mais fraterno.

 

6 – Com o Batismo, tornamo-nos novas criaturas. Mortos para o pecado, ressuscitamos com Cristo para vivermos na dinâmica do Reino de Deus, na paz e na alegria, no amor e no serviço, na justiça e na verdade. A oração dilata o nosso coração e predispõe-se a acolher a vontade de Deus que, por sua vez, nos compromete uns com os outros. «Deus do universo, de quem procede todo o dom perfeito, infundi em nossos corações o amor do vosso nome e, estreitando a nossa união convosco, dai vida ao que em nós é bom e protegei com solicitude esta vida nova».

Como nos recorda a Epístola aos Hebreus, no mistério pascal de Jesus Cristo, aproximamo-nos da eternidade, pelo que devemos prosseguir até atingir a perfeição de Cristo, mediador da Nova Aliança, oferecendo-Se e oferecendo-nos ao Pai para que tenhamos vida em abundância.

 

Pe. Manuel Gonçalves

___________________________

Textos para a Eucaristia (C): Sir 3, 19-21. 30-31; Sl 67 (68); Hebr 12, 18-19. 22-24a; Lc 14, 1. 7-14.


Todos os direitos reservados © PARÓQUIA DE TABUAÇO 2017
Realizado por Terra das Ideias

Política de Privacidade