Domingo XXII do Tempo Comum - ano B - 2 de setembro de 2018


1 – Deus nunca pode ser desculpa para fazer o mal ou deixar de fazer o bem, ainda que a história continue a mostrar como facilmente se conflitua em nome de Deus, se mata em nome de Deus, se espezinha o outro em nome da religião. Para haver conflito basta haver duas pessoas. É verdade em todas as dimensões da vida, mas há temas que podem ter um rastilho mais incendiário. A política, o desporto e a religião estão entre as áreas que mais apaixonam as pessoas, positiva e negativamente.

Da religião espera-se que promova a paz, a harmonia entre as pessoas, a defesa dos mais frágeis, a justiça, o respeito pela dignidade, pela vida humana, a clarificação de tudo quanto humaniza as pessoas e as envolve na transformação do mundo. Ao centro está Deus, único destinatário de adoração. É o primeiro dos mandamentos e dos mais importantes. Tratar Deus como Deus, para tratar as pessoas como imagem e semelhança de Deus, sem as instrumentalizar, diminuir, espezinhar e sem as endeusar. Deus não está contra o Homem. Para exaltar um não é necessário rebaixar o outro. Aliás, quanto menos Deus, menos humanidade e maiores os riscos de ditaduras e totalitarismos, pois mais facilmente se descartam as pessoas mais vulneráveis.

Hoje Jesus depara-se com a hipocrisia de alguns fariseus. Sendo um grupo muito religioso, tendia a levar ao extremo as normas do culto judaico. É sempre perigoso quando as regras e as tradições valem mais que as pessoas. Temos muitos exemplos disso na história da humanidade. Por causa de algumas leis, contextualizadas na história e no tempo, muitas pessoas foram perseguidas, presas, agredidas e mortas. Não é o caso do Evangelho de hoje, mas percebe-se como se vai acumulando lenha para a fogueira. Para alguns, todos os motivos são válidos para atacar Jesus, para O porem à prova, para Lhe armarem ciladas, para tentarem desacreditá-l'O diante das multidões, das pessoas simples e humildes. Por estes dias temos visto como tudo tem servido para atacar o papa Francisco. Porque será que a luz, o bem e a ternura provocam tanta inveja e irritação?

 

2 – Pureza ou impureza?! Lavar ou não as mãos antes das refeições, para nós, é uma questão de higiene e de saúde e não de pureza ou impureza. Mas obviamente a nossa cultura é diferente. Se pensarmos que no século XIX havia pessoas que não tomavam banho ou tomavam apenas uma vez por ano, com medo de adoecerem, ou as intervenções cirúrgicas e os partos efetuados sem sequer lavar as mãos... e quando um médico aconselhou a lavar as mãos foi amplamente criticado por outros médicos, acusado de colocar em risco a vida dos seus pacientes!? Podemos, por aqui, compreender a sabedoria dos judeus que, ao apresentarem as normas de higiene como normas cultuais, religiosas, obrigavam a que todos cumprissem, sem se questionarem demasiado. Se é vontade de Deus, é para cumprir!

Seja como for, a religião há de ser vivida sob a luz e não sob o obscurantismo. Perguntar, informar-se, estudar as razões desta ou daquela tradição, verificar até que ponto uma tradição ajuda as pessoas e as comunidades a viverem melhor. Há o mistério, que se acolhe, se partilha, se vive! Mas nunca às escuras! Não apenas as emoções, mas a vida inteira, com os sentimentos, a reflexão, a oração, o estudo!

Fariseus e escribas vêm de Jerusalém, juntam-se à multidão e perguntam a Jesus pela conduta dos Seus discípulos: «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?» Aparentemente a crítica é feita aos discípulos e não a Jesus diretamente! Mas como sabemos isso é apenas questão de linguagem e pormenor. Ao criticarmos uma criança, adolescente, jovem, na maioria das vezes não criticamos o seu carácter ou o seu proceder, mas os pais ou os professores, ou os catequistas, ou o pároco, porque não souberam ensinar-lhe a comportar-se como deve ser!

 

3 – Jesus supera os limites do puro e do impuro, das tradições e das estruturas para Se fixar na pessoa humana, na intencionalidade das suas ações, na sua responsabilidade pessoal. As estruturas não pecam! As tradições, à partida, não são más, quando muita desajustadas a uma nova realidade. Isso não significa, como defendia São João Paulo II, que não existam estruturas de pecado, conjugação de esforços, de leis, políticas de empresa que promovem, enquanto estrutura, o mal, a corrupção, a destruição da pessoa e da sua dignidade. Porém, a responsabilidade tem de ter um rosto. Acontece, por vezes, que o indivíduo desaparece no grupo, como acontecia nos países comunistas e nos fascistas. Hitler tratou os judeus como um todo, um povo a eliminar! Alguém poderia, em sentido inverso, culpar a Alemanha e todos os alemães pelo crime hediondo perpetrado contra os judeus e contra a humanidade.

As palavras de Jesus são clarividentes: «Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior do homem é que saem as más intenções: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro». Num grupo de adolescentes ou jovens, se alguém é chamado a atenção, vai responder que não foi ele, ou que os outros também disseram ou fizeram o mesmo, ou não foi ninguém, foi o grupo todo. É compreensível para as crianças, talvez para os adolescentes, menos para os jovens e muito menos quanto as desculpas vêm dos adultos.

 

4 – A coerência de vida é um desafio permanente. Nem sempre é fácil. Manter a palavra em todas as circunstâncias, diante de pessoas diferentes. Fazer corresponder o que se pensa e o que se diz àquilo que se faz, sem desculpas ou justificações para os desvios ou para os pecados, não é tarefa acessória. Exige um esforço constante e coloca à prova as nossas limitações.

Aos escribas e doutores da Lei, Jesus dirige palavras duras, que resultam também da contestação, da murmuração e da ardilosidade com que O interrogam, a cada passo, armando-Lhe ciladas para O desacreditarem junto da multidão. «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens».

Será oportuno colocarmo-nos do lado da multidão e na pele dos escribas e fariseus, sabendo das nossas limitações e fragilidades. Por isso rezamos logo a começar a Eucaristia: «Deus do universo, de quem procede todo o dom perfeito, infundi em nossos corações o amor do vosso nome e, estreitando a nossa união convosco, dai vida ao que em nós é bom e protegei com solicitude esta vida nova». Para que Deus venha em auxílio das nossas escolhas e nos mantenha audazes na prossecução do bem.

 

5 – Há oito dias, víamos como Josué, sucessor de Moisés, colocava o Povo diante de uma escolha, seguir o Deus de Israel ou outros deuses. O povo imitou Josué. Hoje, Moisés apresenta-nos as condições para seguirmos os mandamentos do Senhor e para entrarmos no caminho da felicidade. Cumprir os mandamentos de Deus é escolher a vida: «as leis e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus de vossos pais. Não acrescentareis nada ao que vos ordeno... Observai-os e ponde-os em prática: eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos». Na verdade, a sabedoria da Lei do Senhor chegou aos nossos dias. A validade dos mandamentos continua bem atual. O equilíbrio, a justeza e a abrangência da Lei mosaica é extraordinário para o tempo em que foi revelada. Só mesmo por inspiração!

São Tiago, por sua vez, insiste também no compromisso prático e concreto com a Palavra de Deus. «Acolhei docilmente a palavra em vós plantada, que pode salvar as vossas almas. Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, pois seria enganar-vos a vós mesmos. A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo».

Não basta ouvir, é preciso escutar com o coração e fazer com que a vida toda esteja mergulhada na palavra de Deus e na prática do bem!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Deut 4, 1-2. 6-8; Sl 14 (15); Tg 1, 17-18. 21b-22. 27; Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23.


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