Domingo XXII do Tempo Comum - ano A - 3 de setembro de 2017


1 – A primeira e única vocação do cristão é seguir Jesus, amar Jesus, viver Jesus, transparecer e testemunhar Jesus. Em todos os momentos da vida, em toda a parte, diante de todas as pessoas, nas situações favoráveis e nos momentos adversos. Sem pausas, nem reservas, nem adiamentos. Não somos cristãos a meio tempo, quando nos dá jeito, quando é mais oportuno, ou aos Domingos.

Somos cristãos sempre, quer vivamos quer morramos, como refere o Apóstolo Paulo, no trabalho ou em férias, diante das panelas, diante de um ecrã de televisão, no meio do grupo de amigos, quando falamos sobre tudo e ou sobre coisa nenhuma, quando nos encontramos com os/as vizinhos/as, quando falamos de futebol ou da novela, quando falamos de política ou de religião, quando silenciamos para cuidar ou quando calamos para não nos incomodarem.

Seguir Jesus implica-nos por inteiro. De corpo e alma. Como se nos pudéssemos dividir! Seguir Jesus envolve-nos totalmente. Não há regiões sombrias na nossa vida que não possam e não devam ser iluminadas por Jesus Cristo e a Ele oferecidas. Como diria Santo Ambrósio, se nada mais tivermos para Lhe oferecer, ofereçamos-Lhe o nosso pecado, as nossas faltas e hesitações, os nossos egoísmos e esquecimentos, ofereçamos-Lhe as nossas distrações e descuidos em relação aos outros.

Seguir Jesus não tem horário, porque em todas as horas, minutos e segundos nos cabe acolher, seguir e anunciar Jesus. Somos discípulos missionários. Sempre a aprender de Jesus, sempre disponíveis para O testemunhar, para falar d'Ele, para O mostrar nas nossas palavras, nos nossos gestos, nas nossas escolhas e na nossa postura diante da vida e do mundo, perante os outros.

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2 – Não somos originais ao seguirmos Jesus. A originalidade e o fundamento está no próprio Jesus. É Ele que nos chama, nos convoca, é Ele que nos faz discípulos e nos envia como missionários a levar a Boa Nova a todo o mundo, a ensinar e a fazer discípulos de todas as nações, a batizar e a formar comunidade. Não somos originais, pois não vivemos ensimesmados, a partir de nós e do nosso umbigo, do nosso mundo! A origem é Jesus. A origem é Deus, Fonte de todo o bem e de todo o amor, que em Jesus, Se dá por inteiro, por amor, até Se gastar totalmente, até à última gota de sangue, até ao último fôlego. Tudo por amor. Sempre por amor.

Ao longo da Sua vida, Jesus respira Deus, transparece o amor do Pai, diz as Palavras do Pai e realiza as obras do Pai. Sem complexo de inferioridade. O Pai é Maior do que Eu, chega a dizer Jesus, ainda que se perceba que Ele e o Pai são Uma só coisa. Amar como quem serve. Servir como quem ama e no amar se consome como pavio até ao fim, quando já não houver mais nada para arder! Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade. O meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou. Faça-Se não a minha, mas a Tua vontade, não como Eu quero e é (momentaneamente) mais fácil, mas como Tu queres, para que melhor corresponda ao amor.

Poderemos ver como Jesus mantém uma ligação íntima, profunda e permanente ao Pai. É visível nas Suas Palavras, vislumbra-se nos Seus gestos. Retira-Se para lugares desertos, sobretudo ao cair da noite, para rezar. Por vezes, a oração estende-se pela noite e até de madrugada. Esta intimidade de Jesus com o Pai fortalece-O no ânimo de prosseguir no anúncio do Reino e nos prodígios que realiza. A qualidade do tempo passado na companhia e no conforto do Pai não Lhe rouba tempo para as pessoas. Algumas vezes encontramos Jesus cansado, a retirar-Se para descansar e parar orar, mas logo surgem as multidões e Jesus esquece a fome e o cansaço e começa a ensiná-las, pois são como ovelhas sem pastor.

 

3 – Aproximam-se horas conturbadas, nuvens carregadas surgem no horizonte, a missão terrena de Jesus encaminha-se para o fim, o futuro desponta incerto, com grandes probabilidades falhanço. Há que retemperar forças, mas sobretudo de avaliar a firmeza do seguimento. Víamos no domingo passado a pergunta de Jesus dirigida diretamente aos discípulos: E vós quem dizeis que Eu Sou? Jesus teve a oportunidade de tomar o pulso aos que O seguiam mais de perto, procurando saber até que ponto estavam amadurecidos para O testemunhar em ambientes adversos.

O ensino e os alertas de Jesus continuam. É fácil segui-l'O quando tudo corre bem. É fácil a fé quando a vida e o mundo nos são favoráveis. É difícil a fé e o seguimento quando tudo corre mal, quando parece que o mundo está todo contra nós!

Depois da confissão de fé de Pedro, Jesus explica a obrigatoriedade de descer para Jerusalém, terra dos Profetas, onde vai sofrer muito, onde será morto, para ressuscitar ao 3.º dia. Com uma notícia tão negativa deixa de haver espaço para boas notícias. Pedro é o primeiro a reagir. É o assessor político ou o chefe de gabinete: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». Pedro tem o cuidado de contestar Jesus de forma discreta, chamando-O à parte. A resposta de Jesus é contundente, sem margem para segundas leituras: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».

Para Jesus, a vontade do Pai está em primeiro lugar, ainda que isso comporte riscos, medos, sofrimentos. Pedro e os demais discípulos vivem à sombra de Jesus. Quem está perto da árvore pode beneficiar da sua sombra. Estando perto de Jesus, os discípulos podem beneficiar do Seu poder e garantir um lugar de primeira apanha no Reino que Ele está a instituir.

 

4 – O que Jesus diz a Pedro é para nós também. Vai-te daqui Satanás! É para nós quando sobrevém o medo, a impaciência, quando nos colocamos como centro, adiantando-nos à vontade de Deus. Hoje em dia aceita-se que Judas tenha pecado por excesso de zelo e de fé em Jesus. Judas achava que Jesus estava a ser lento e a seguir por um caminho de destruição, quando tinha poder para seguir por um caminho mais veloz, impondo-Se e impondo o Seu reino. Colocado perante o confronto violento com as autoridades, talvez Jesus se visse obrigado a agir e a invocar todo o poder de Deus. Judas enforca-se ao perceber o seu erro, antecipando o encontro com Cristo na eternidade!

Atempadamente, Jesus alertou os discípulos que o caminho era o da Cruz, do sacrifício, do trabalho árduo – Eu e o Pai trabalhamos em todo o tempo – do serviço. Sem cessar!

São palavras clarificadoras: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la». Numa leitura apressada poderíamos pensar que existe algum desprezo pela vida! Não está em causa a vida biológica, mas a vida entendida como dom e como tarefa. Se guardarmos os ovos durante meses, ou um vinho espumante, ou um chocolate, quando dermos conta já passou de validade e o que guardávamos com tanto carinho afinal não nos serviu de nada. A vida que não se gasta perde-se. Jesus gasta a vida por inteiro, até à última gotícula de sangue e assim nos abre em definitivo as portas da eternidade e da vida que não tem fim.

Na verdade, prossegue Jesus, «que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras». No final, seremos compensados pelo que tivermos feito uns pelos outros e não por termos ficado de braços cruzados!

 

5 – Na primeira leitura, o profeta Jeremias fala da sua vocação. Foi Deus que o seduziu, que o chamou. Porém, a resposta ao chamamento e vivência da sua vocação fazem-no percorrer um caminho tortuoso, sendo vilipendiado em todo o tempo, objeto de escárnio, zombaria e insulto.

Com tandos dissabores, o Profeta pondera desistir e calar-se. Mas logo sobrevém a missão: «Havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia». Fala mais alto o chamamento de Deus.

 

6 – Na segunda leitura encontramos uma belíssima síntese da Liturgia da Palavra para este domingo: «Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito».

Se voltarmos ao Evangelho, vemos o desafio de Jesus: gastar a própria vida, oferecer-nos como sacrifício vivo, não nos conformamos com o mundo, mas procurando em tudo seguir Jesus e como Ele procurar viver segundo a vontade de Deus.

 

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano A): Jer 20, 7-9; Sl 62 (63); Rom 12, 1-2; Mt 16, 21-27.


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