Domingo XXI do Tempo Comum - ano B - 26 de agosto de 2018


1 – «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

Mais uma vez Simão Pedro, aquele Apóstolo que é sempre dúvida, mas que nos granjeia simpatia, pois é um dos nossos, em muitos aspetos. Quem não se revê na sua espontaneidade, nas suas dúvidas e incertezas? E na sua adesão demasiado rápida? E na sua frontalidade demasiado ingénua e infantil? Quem diria que Pedro, mais à frente, será um dos rostos mais visíveis da traição a Jesus, abandonando-O, negando conhecê-l'O, mantendo-se distante para estar seguro?

Pedro chega-se à frente, tem o coração ao pé da boca, muitas vezes diz o que convém e o que não convém. Mas é genuíno! Por isso Jesus o escolheu, por isso não desistiu dele! Como não desiste de nós, como não desistiu de Judas! Por cada um deles, por cada um de nós, não tanto pelos nossos méritos, mas sobretudo pelo Seu amor por nós.

As palavras de Jesus são duras! Não se deve ter medo das palavras firmes, clarividentes, numa linguagem de verdade, sem subterfúgios ou reservas. Jesus não Se esconde atrás das palavras! Ele é a Palavra encarnada, concreta, real, Pessoa! É curioso que por vezes nós gostamos que nos mintam ou "dourem a pílula", para não apanharmos um choque. Acabamos por dizer que gostávamos que nos dissessem de outra maneira ou nos deixassem mais algum tempo na ignorância! Compreendendo que, em situações gravosas, umas a seguir às outras, quando isso acontece, precisemos de retemperar forças e não precisamos imediatamente que a tempestade regresse! Em todo o caso, nunca saberemos se seria melhor adiar o que é inevitável.

Ao longo da Sua vida, Jesus, sendo dócil e atencioso, compassivo e benevolente, não deixa de ser transparente, inequívoco, numa frontalidade que Lhe é reconhecida como autoridade, coerência de vida. Perante as autoridades, perante as multidões, perante os Seus discípulos: ide dizer a essa raposa... sois sepulcros caiados, belos por fora, podres por dentro, o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça, sereis levados a tribunais, perseguidos, presos, mortos... quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos!

 

2 – «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?».

Com o tempo vamos percebendo que a verdade, a honestidade, a frontalidade nos fazem bem à saúde. Não confundir frontalidade com arrogância, prepotência, sobranceria. Alguns de nós, depois de destilarmos ódio sobre os outros, colocando-nos acima e à parte do comum dos mortais, ficamos aliviados: eu cá sou assim, digo o que tenho a dizer, seja a quem for! Isso não é frontalidade, isso é infantilismo e complexo de superioridade! Só isso! Custa-me sempre ouvir alguém defender-se por atacar os outros com a desculpa esfarrapada que é frontal. As ditaduras e os ditadores, segundo os próprios, foram os que mais promoveram a liberdade! Alguém acredita na estória da carochinha?

A frontalidade de Jesus não destila fel nem superioridade! A frontalidade de Jesus parte da verdade e da justiça, do perdão e do amor, desafia à conversão, à partilha, à comunhão e ao serviço. Daí a sua delicadeza compassiva, mas que não foge às questões!

«Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do homem subir para onde estava anteriormente? O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».

O discurso sobre o Pão, a Carne, o Corpo, o Sangue derramado chega ao fim, provocando feridas, ou melhor, ruturas. O evangelista informa-nos que "a partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele".

É nesse momento que Jesus testa as convicções dos seus discípulos, nomeadamente os Doze: «Também vós quereis ir embora?». Deus queira que tenhamos a alegria e a sabedoria de respondermos como Pedro: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna».

 

3 – Seguir Jesus nem sempre será fácil. É Ele próprio que no-lo diz: quem quiser seguir-Me renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me. A oração da santa Missa faz-nos suplicar pelo Seu auxílio: «Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias».

O que Ele nos manda é que nos amemos uns aos outros como Ele nos ama, dando, gastando a vida, servindo e cuidando. Nem sempre é fácil. O amor não está isento de dor, de espinhos, de sofrimento, porque somos diferentes e porque as circunstâncias do tempo são, muitas vezes, desfavoráveis. O ditado popular é explícito: quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer. Contudo, só o amor nos humaniza, só o amor nos salva, só o amor nos eleva para Deus.

 

4 – Se Deus, pelos profetas, pelos sacerdotes, pelos reis e pelos juízes nos manda amar, não é para nos destruir, para nos sacrificar ou para nos espezinhar! Sabemos que o que nos sabe melhor é o que exigiu mais de nós. A vida de mão-beijada é vida pouco valorizada! Tendemos a valorizar (sobretudo) o que exigiu esforço e sacrifício. Mas é sempre uma opção!

Jesus coloca os seus discípulos diante de uma escolha: segui-l'O com todas as dificuldades inerentes, na certeza da salvação temporal e eterna, ou seguir outro caminho. Muitos não percebem a exigência de Jesus e abandonam o discipulado. Outros percebem que as adversidades não destroem um projeto desafiador!

Josué, no seu tempo, como líder do Povo de Deus, coloca os seus membros diante de dois caminhos: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família serviremos o Senhor». Josué não tem dúvidas e a resposta do povo vai no mesmo sentido: «Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão. Foi Ele que, diante dos nossos olhos, realizou tão grandes prodígios e nos protegeu durante o caminho que percorremos entre os povos por onde passámos. Também nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus».

 

5 – Na Carta de São Paulo aos Efésios, que temos vindo a escutar, o Apóstolo explicita, concretizando, desta vez em relação aos casais, o que implica seguir Jesus Cristo e optar por ser seu discípulo. A condição é igual para todos: amar ao jeito de Jesus.

Na linguagem paulina, no seu enquadramento cultural e histórico, sobressai o amor ao outro, da mulher para com o marido e desta para com aquela, como se fora extensão do próprio corpo, pois ninguém «odiou jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo... É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja».

O que se diz e se recomenda aos maridos e às esposas, é extensível para qualquer cristão, para mim e para ti, para todos.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Jos 24,1-2a.15-17.18b; Sl 33 (34); Ef 5, 21-32; Jo 6, 60-69.


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