Domingo XXI do Tempo Comum - ano A - 27 de agosto de 2017


1 – «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pergunta que Jesus nos dirige. É uma pergunta direta e que envolve uma resposta mas sobretudo uma opção de vida. Diante de Jesus que Lhe respondemos? E que é que dizemos d'Ele? E como dizê-l'O a Ele na minha, na tua, na nossa vida?

O ministério de Jesus começa a dar sinais ambíguos quanto ao desfecho final. Há multidões que O seguem, O aplaudem e que estão dispostos a expor-se por causa d'Ele. Por aldeias e cidades, Jesus espalha magia, não a arte de iludir através de truques, as a magia do amor, da proximidade, do sorriso fácil, da compaixão, da ternura, a magia do perdão e da cura, a magia do serviço, da bondade e da misericórdia. N'Ele é visível o amor de Deus como Pai. No Seu olhar, no Seu sorriso, nas palavras meigas, doces, acolhedoras para todos, preferencialmente para os que andam cansados e abatidos como ovelhas sem pastor. A Sua delicadeza há de levá-l'O à morte! As autoridades dos judeus estão atentas e preocupadas. Jesus, como João Batista, coloca-se ao lado dos mais pequenos. Isso implica denúncia de quem se serve dos mais pobres e indefesos, de quem criou leis para se proteger e escravizar os outros. João é ríspido, frontal, as suas palavras são como lâminas bem afiadas, reclamando o castigo. Jesus é dócil, reclama a misericórdia e a compaixão, mas isso é uma afronta ainda mais vincada, porque deixa marcas mais profundas nas pessoas. Tem de ser morto!

O messianismo de Jesus segue uma dinâmica muito própria: amor, serviço e perdão, proximidade e misericórdia. O messianismo esperado é bem diferente: poder, morte, destruição, substituição de uns pelos outros, revolução pela força. Há momentos em que as pessoas querem fazê-l'O Rei. A ideia é que Jesus substitua as autoridades imperiais, liderando uma força letal. Aos discípulos, Jesus vai prevenindo, o Filho do Homem vai ser entregue às autoridades e vai ser morto.

 

2 – «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?» Será que Jesus tem curiosidade acerca da opinião pública? Não temos todos? Alguns vivem em função disso e uma opinião desfavorável tira-lhes o sono; para outros é algo de secundário, ainda que sirva de referencial para corrigir posturas e/ou desvios. Todos, no entanto, gostamos de ser bem vistos! Há quem aja em função do que os outros dizem e pensam, ao ponto de se tornar algo doentio e há quem aja apesar e além do que os outros dizem e pensam.

Sondagens, opinião pública, estudos de opinião, fazedores de opinião (opinion makers) estão na ordem do dia. Há quem decida não pelas convicções mas em prol do que os outros vão pensar. Há quem pense pela própria cabeça e quem espere para saber qual a opinião dos outros para formular a própria opinião. O ideal talvez se encontre a meio caminho! É importante ter opiniões próprias, convicções, princípios. É importante escutar a opinião dos outros e acolher o bem que vem deles, para crescermos em sabedoria e humildade. Um debate entre dois políticos não tem muito interesse, o que interessa sãos os argumentos e conclusões dos fazedores da opinião pública. Noutro contexto, o desportivo, os comentadores que vestem as cores dos seus clubes. Com cartilhas ou não, nenhum dos comentadores desportivos discorda dos mentores e dirigentes dos seus clubes, alinham pelo mesmo diapasão e acertam com eles a opinião que hão de assumir nas discussões televisivas e/ou radiofónicas ou nos artigos que saem nos jornais.

«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?» Que responderíamos hoje a Jesus? É o Filho do Homem? O carpinteiro? Um revolucionário? Uma pessoa importante do passado? Alguém um tanto ou quanto exótico? Alguém que marcou uma época? Um personagem da história como tantas outras? Os discípulos foram meigos a responder: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». A amizade e a proximidade fez com que filtrassem a informação. Por vezes precisamos de amigos assim, sobretudo quando a informação é acessória, desnecessária e desonesta.

 

3 – «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Como responder ao que Jesus nos pergunta? Com palavras? Com a vida? Hoje somos os Seus discípulos. Então é a nós que Jesus pergunta.

O que estranhos ou conhecidos dizem a nosso respeito é, ou deveria ser, relativo e, de certa maneira, dispensável. Não nos deveria tirar o sono. Já a opinião dos que estão à nossa volta, familiares, amigos, pessoas com quem trabalhamos é muito importante, pois ajuda-nos a caminhar, a crescer, a corrigir erros, a colmatar insuficiências. É uma informação fiável e chega a nós apenas a que é útil à nossa vida pessoal, familiar, profissional.

A pergunta de Jesus refere-se, segundo a reflexão tradicional, ao que sabem os discípulos a Seu respeito e que importância tem para eles. Dessa forma, cabe-nos responder: quem é Jesus para mim? Que relevância tem na minha vida, nas minhas decisões? A minha vida é diferente por conhecer, por seguir Jesus? No meu dia-a-dia há alguma diferença por ser cristão?

Na abordagem de D. António Couto, Bispo de Lamego, o questionamento cola-nos à profissão de fé, isto é, o que é que dizemos acerca de Jesus. Pedro responde em seu e nosso nome: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». É o credo cristão dito pelos lábios de Pedro. É um dizer novo, diferente, atual, presente. Antes dizia-se, os outros dizem! Agora somos eu e tu, nós, que dizemos Jesus, que O anunciámos, que O vivemos, que O transparecemos nas nossas palavras, na nossa vida? Este DIZER é para agora e não é uma retransmissão, somos nós a implicar-nos com Jesus, é a nossa identidade cristã; é Deus a inspirar-nos. «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus». Antes de dizermos Jesus, Cristo, Filho de Deus, é Deus que nos diz, que nos revela: Este é o Meu filho muito amado, escutai-O. O que dizemos não vem de nós, mas vem através de nós, não vem de fora, mas de dentro, não vem dos lábios, mas do coração, vem de Deus que habita em nós, no nosso coração.

 

4 – «Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».

Deus não Se impõe. Criou-nos livres. Não age desde fora. Conta connosco. O mistério da Encarnação é a certeza que Deus não se mantém à distância, mas também não atua de forma mágica ou automática. Ele conta comigo e contigo, conta connosco. Jesus vem e identifica-Se connosco, com o nosso sofrimento, com o nosso pecado, com as nossas dificuldades, despertando-nos para a nossa origem – Deus – em busca de desenvolver os dons e talentos que nos aproximam e irmanam. Caminha. Vive. Morre. Deus Pai ressuscita-O sancionado o Seu modo de viver e Se dar. A ressurreição permite que Ele permaneça entre nós, de um modo novo, pela ação do Espírito Santo.

No Evangelho, através de Pedro, Jesus confia-nos a missão de abrirmos as portas do Seu Reino de amor. É um "poder" que implica riscos mas sobretudo responsabilidades de uns pelos outros. Não vale tudo. A Igreja é Povo de Deus ao serviço do Seu Reino, ao serviço do Evangelho. A Igreja, de fundação divina, tem implantação sociológica, está sujeita às coordenadas do espaço e do tempo, pelo que necessita de diretrizes, orientações, regras. Não vale tudo. Se cada um vale, vale tudo, em comunidade não vive cada um por si. Ligar e desligar mais que um poder é uma missão, é um serviço. Assim deve ser entendido, assim deve ser vivido. A Lei maior, alicerce e fundamento, é o Amor, assumido ao jeito de Jesus Cristo. Ele amou a Igreja e deu a vida por ela. O mesmo é dizer, amou-nos ao ponto de gastar a Sua vida connosco, entregando-Se até ao fim.

Cada um segundo a sua missão, em diferentes tarefas e responsabilidades, mas todos havemos de prestar contas, como se vislumbra também na primeira leitura. «Vou expulsar-te do teu cargo... E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim, filho de Elcias. Hei de revesti-lo com a tua túnica... Porei aos seus ombros a chave da casa de David: há de abrir, sem que ninguém possa fechar; há de fechar, sem que ninguém possa abrir». O chamamento de Deus privilegia o serviço preferencialmente aos mais frágeis.

Se não conduzirmos os outros a Jesus Cristo, pelo menos não os impeçamos de prosseguirem! Se não abrimos portas e janelas, não criemos muros, saiamos da frente!

 

5 – Em Jesus Cristo, Deus revela-Se em plenitude, mas o mistério não deixa de ser mistério, mesmo que sejamos envolvidos por ele. A sabedoria e a ciência de Deus continuam a ser insondáveis, relembra São Paulo, mas com a confiança que caminhando com Jesus Cristo, na fidelidade ao Seu Evangelho, estaremos no encalço do Reino de Deus.

 

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 22, 19-23; Sl 137 (138); Rom 11, 33-36; Mt 16, 13-20.


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