Domingo XX do Tempo Comum - ano C - 18 de agosto de 2019


1 – Creio, firmemente, que as pessoas mais simples e generosas, são pessoas em constante inquietação pelos outros, procurando, quanto possível, minorar o seu sofrimento, ir em seu auxílio, inteirando-se constantemente do bem-estar do seu semelhante. Sentem-se responsáveis pelos outros e pelo mundo e, por conseguinte, mesmo vivendo em paz, sentem-se inquietas, preocupadas, envolvidas com a felicidade de quem as rodeia.

A humildade de uma pessoa não tem a ver diretamente com a abundância ou escassez de bens, até porque, todos conhecemos, pessoas avarentas pobres e pessoas avarentas ricas. Seja como for, a humildade e a pobreza são opções de vida. Tudo tem a ver com a forma como usamos os meios de que dispomos para favorecer ou prejudicar os outros.

Materialmente, uma pessoa que vem de uma família pobre ou remediada saberá o que custa a vida e procurará estar atenta àqueles que a rodeiam, mas também, talvez por medo, pode guardar tudo para si. Uma pessoa que venha de uma família rica poderá não perceber o que é viver com dificuldades, mas pode igualmente ter aprendido, no seu bem-estar, que nem todos tiveram a mesma oportunidade ou nasceram com as mesmas possibilidades. Por aqui se vê, que a generosidade para com os outros é sobretudo opção e compromisso, que pode ser amadurecido na família, na comunidade, pela educação e pela fé.

Comprometidos com Jesus, maior será a paz, maior será a inquietação. Contradição? Nem por isso! A paz funciona como chão, atapetado de fé e de esperança, de confiança na bondade de Deus que não nos falha; paz que Ele, Jesus, nos traz da eternidade. Maior inquietação, porque a vida dos outros diz-nos respeito e basta que uma única pessoa no mundo não esteja bem para que nos preocupemos com ela. Por outro lado, uma pessoa sem paz, não tem forças para se inquietar, para se preocupar com os outros!

 

2 – Palavras expressivas e contundentes de Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

Depois de termos ouvido Jesus a dizer que n’Ele podemos encontrar o repouso, o descanso, a paz, vemo-lo agora a afirmar que vem trazer, não a paz, mas o fogo! Vamos lá entender Jesus! Dou-vos a paz, mas não vo-la dou como a dá o mundo! A paz esteja convosco! A paz social, ao longo do tempo, tem sido uma paz negociada e, muitas vezes, imposta pela força, pela imposição dos vencedores em relação aos vencidos. A paz com muitas variantes, condições, reservas e exigências. A paz do mundo é assegurada pelas leis, pelo medo, pela força e pelo poder. É, tantas vezes, o intervalo entre guerras, enquanto se descansa de uma e se prepara a seguinte.

A paz que nos dá Jesus não se impõe, é dom, cabe acolhê-lo, vivê-lo, partilhá-lo, como todos os dons. Não é negociável! Se é dom, na falta da paz, importa rezar, uma e outra vez, para que a paz volte ao nosso coração e se estabeleça nas nossas relações familiares, sociais e comunitárias.

O que alimenta a paz que vem de Cristo é o amor, o fogo do amor que arde em nós impelindo-nos para os outros, para os mais frágeis, para os que se encontram em situação de exclusão e de pobreza. O amor quer sempre mais, faz-nos querer e procurar o bem, o bem de todos, em toda a parte, sempre. Ao amor e o bem ligam-se a verdade e a justiça. Voltámos às inquietações anteriores: o amor gera pessoas inconformadas com o mal e com a miséria, com o sofrimento, com a indiferença e com a injustiça. O compromisso com a verdade, com o trabalho honesto, com a justiça, trar-nos-á insinuações, acusações e inimigos. Quem faz o bem será apontado, por ciúme ou por inveja ou, simplesmente, porque desinstala os que que vivem na mentira e na arrogância.

 

3 – É sintomático o caso do Profeta Jeremias. Torna-se incómodo não tanto pelo que diz, mas pela vida honesta, séria e verdadeira que leva, expondo – como a luz que incide na escuridão e torna visíveis as nódoas, as manchas ou as humidades – aqueles que vivem nas trevas, no pecado, maquinando dia e noite como roubar os pobres, explorando os órfãos e as viúvas.

As palavras do Profeta são uma espada de dois gumes, anunciam o bem, denunciam os abusos de poder, a corrupção e a instrumentalização do povo, a começar pela instrumentalização religiosa. Jeremias é um alvo a abater. É a paz ao jeito de Jesus, que incomoda, que incendeia, que lança luz sobre as trevas, que desafia para a justiça, para a autenticidade e para o serviço aos mais desfavorecidos.

Os ministros do rei de Judá, Sedecias, têm uma solução lapidar acerca dos incómodos que sentem: «Esse Jeremias deve morrer, porque semeia o desânimo entre os combatentes que ficaram na cidade e também todo o povo com as palavras que diz. Este homem não procura o bem do povo, mas a sua perdição».

O rei, tal como alguns séculos mais tardes Pilatos em relação a Jesus, como que lava as mãos e entrega Jeremias às mãos dos seus ministros que decidem descê-lo a uma cisterna. Contudo, a cisterna não tinha água, apelas lodo, no qual se atola Jeremias. Entretanto, um estrangeiro, Ebed-Melec, o etíope, chama à razão o rei, alertando-o para a situação de Jeremias, mas também do Povo de Judá. Quantas vezes são os que estão de fora que nos fazem perceber as incongruências que vivemos. O importante é perceber os desígnios de Deus nas palavras e nas ações dos homens.

 

4 – O ponto de partida, a referência e a meta é Jesus, no mistério do Seu amor infinito para connosco, vivendo como um de nós, caminhando connosco, assumindo o mal, o sofrimento e a morte por nós, para nos redimir, fazendo-nos participantes da Sua vida e da Sua oferenda, tornando-nos novas criaturas para Deus, comprometendo-nos no Seu reino de amor, de paz e de justiça.

Com efeito, diz-nos o autor da Carta aos Hebreus, Cristo, “renunciando à alegria que tinha ao seu alcance, Ele suportou a cruz, desprezando a sua ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus”.

São muitos os que O seguiram e d’Ele dão testemunho, em palavras e em obras e, por vezes, com a própria vida. Agora cabe-nos a nós viver em Cristo, na Sua paz e no Seu amor. “Ponhamos de parte todo o fardo e pecado que nos cerca e corramos com perseverança para o combate que se apresenta diante de nós, fixando os olhos em Jesus, guia da nossa fé e autor da sua perfeição. Pensai n’Aquele que suportou contra Si tão grande hostilidade da parte dos pecadores, para não vos deixardes abater pelo desânimo. Vós ainda não resististes até ao sangue, na luta contra o pecado”.

Estamos a caminho e será desejável que nunca cessemos de caminhar, juntos, partindo de Jesus, em direção a Jesus, com a força do Espírito Santo que nos habita e que faz com que Jesus continue a habitar em nós. Como Ele, persistindo além de todo o mal, de toda a ofensa, de toda a adversidade, até à última gota de sangue, até sermos provados pelo fogo, pelo sangue!

 

5 – Peçamos ao Senhor que venha em auxílio das nossas limitações, insuficiências e hesitações: «Deus de bondade infinita, que preparastes bens invisíveis para aqueles que Vos amam, infundi em nós o vosso amor, para que, amando-Vos em tudo e acima de tudo, alcancemos as vossas promessas, que excedem todo o desejo».

O amor é o caminho que nos salva, que nos foca no essencial: servir, cuidar, perdoar, dar a vida, gastando-a em prol dos outros! Ao jeito de Jesus! Sem tréguas. N’Ele, a paz faz-nos persistir e confiar; com Ele e como Ele, a inquietação e o fogo pelos outros e a preocupação pela abundância das suas vidas.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Jer 38, 4-6. 8-10; Sl 39 (40); Hebr 12, 1-4; Lc 12, 49-53.


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