Domingo XX do Tempo Comum - ano B - 19 de agosto de 2018


1 – “O que tens de partir para reunir uma família? Pão, evidentemente” (Jodi Picoult).

O pão é símbolo de todo o alimento biológico, antes de mais, mas também espiritual, afetivo, cultural. Mas em si mesmo o pão é alimento, rico em hidratos de carbono, pobre em açúcares e gorduras, fonte de fibras que ajudam ao equilibro intestinal, fonte de vitaminas (tipo B) e minerais (cálcio, magnésio e fósforo…). O pão tem menos sal que os seus substitutos como bolachas, biscoitos, bolos, cereais prontos a comer… e provoca mais rapidamente a sensação de saciedade, tornando-se parte essencial de qualquer dieta.

Ainda que haja muitas variedades de pão, a sua confeção é muito simples. Farinha, água, sal e fermento, na justa medida! Pode facilmente transportar-se e não precisa de grande esforço para se conservar. Continua a estar presente numa ou em várias refeições. Algum do simbolismo do pão advém do próprio pão: o trigo ou centeio que é lançado à terra, cresce como planta, produz as espigas que a seu tempo darão os grãos maduros. Debulhados, os grãos serão moídos para se transformarem em farinha, tornando-se o ingrediente principal do pão, amassada (juntando o sal, o fermento, a água) e levedada, levada ao forno e, passado algum tempo, estará suficientemente cozido para ser comido, saboreado e saciar a fome de muito. Um pão é feito de muitos grãos. Um pão pode congregar muitos à volta da mesa e ser partilhado por muitos! Trabalho de muitas mãos. Unidade. Partilha e comunhão. Semente, planta, trigo, farinha, massa, pão, pessoas que comem do mesmo pão, condividindo-o!

O pão é um alimento prático, simples e bastante acessível. É nesta simplicidade que Jesus Se nos dá por inteiro.

 

2 – «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».

O Evangelho deste domingo retoma a parte final do domingo passado. A discussão adensa-se. Jesus afirma que é o Pão vivo descido do Céu, e logo acrescenta que o Pão que nos dá é a Sua própria carne. Ser o Pão da vida poderia tratar-se de uma comparação, uma imagem. Agora dizer que é a Sua carne? Como é possível que nos dê a Sua carne? Como é possível comer a Sua carne e beber o Seu sangue? Acaso podemos tornar-nos canibalistas?

«A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: quem comer deste pão viverá eternamente».

As palavras de Jesus são tão vivas e específicas que alguns discípulos seguem outro caminho. A mesma linguagem concreta está presente nas primeiras comunidades ao ponto de os cristãos serem acusados precisamente de canibalismo. Havia insinuações que os cristãos comiam carne humana nas celebrações, o que facilmente se demonstrou ser um absurdo, sem pés nem cabeça, mas a linguagem litúrgica – comer a Carne de Cristo, beber o sangue de Cristo – levou a estes equívocos disparatados.

 

3 – O Verbo encarnou e habitou entre nós. Em Jesus, Deus faz-Se carne, assume a nossa condição humana, sujeitando-se às coordenadas do tempo e do espaço. Carne, corpo, vida humana. No judaísmo quando se fala de carne ou de corpo fala-se precisamente da pessoa como um todo, corpo, alma e espírito. Não é divisível a dimensão corporal da dimensão espiritual, é o todo que constitui a pessoa. Quando Jesus Se consome a favor da humanidade entrega a Sua vida por inteiro.

Mas a expressividade vai ainda mais longe. O Corpo sublinha a vida. O sangue (derramado) aponta para a morte. Jesus oferece-nos a Sua vida e a Sua morte para nos salvar, para nos introduzir no mistério da Sua ressurreição. Oferece-Se de uma vez para sempre e por toda a humanidade.

Na Última Ceia, Jesus clarifica a Sua oferenda, antecipando a Sua morte mas também a certeza que a morte não O encerrará no túmulo, mas voltará VIVO para junto dos Seus discípulos. Durante a Ceia, Jesus toma o pão, dá graças, e entrega aos discípulos. O mesmo faz com o sangue, dizendo-lhes: Isto é o Meu corpo entregue por vós; Isto é o sangue da Nova Aliança... Fazei isto em memória de Mim.

O evangelista São João não descreve a instituição da Eucaristia no decorrer da Ceia, mas apresenta a multiplicação dos pães nos mesmos contornos, com o próprio Jesus a revelar-Se como o Pão vivo, a Carne / Corpo / Sangue / Vida entregue por nós. A Eucaristia torna presente o mistério pascal de Jesus, morte e ressurreição. Faz com que Jesus seja nosso contemporâneo. Oferece-Se de uma vez para sempre, mas por ação do Espírito Santo, em Igreja, podemos participar hoje (sacramentalmente) no Seu mistério pascal. Também a nós Jesus nos diz: a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Eu Sou o Pão da vida. É precisamente no Pão e no Vinho, no mistério da Eucaristia, que Jesus nos dá o Seu Corpo e o Seu sangue, como alimento para esta vida e até à vida eterna.

 

4 – Comungamos Cristo para nos transformarmos n'Ele. Quando comemos, o alimento transforma-se em energia que nos mantém aquecidos, nos faz crescer, pensar, movimentar… Através da digestão, os alimentos serão absorvidos pelo nosso corpo, passam a fazer parte de nós, sendo expelido o que é inútil… Quando comungamos Cristo, como sublinhava Santo Agostinho, somos nós que nos transformamos em Jesus Cristo. Ele assimila-nos. Nas palavras de São Paulo aos Gálatas, “já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim” (2, 20). É, porém, um processo para toda a vida, já que em nós prevalece o homem mortal até ao dia em que entrarmos na eternidade de Deus!

Comungamos Jesus Cristo para nos identificarmos com Ele. Comungar é entrar em comunhão. Os Sacramentos colocam-nos em sintonia com Jesus, trazem-n'O ao nosso tempo e à nossa vida, particularmente a Eucaristia, na qual comungamos o Seu Corpo e o Seu Sangue. Mas não é tudo! A Eucaristia, como relembra o Papa Francisco não é prémio para os justos mas remédio para os pecadores, ainda que haja circunstâncias concretas que podem afastar-nos da comunhão sacramental. Todavia, deve permanecer o desejo da comunhão, da identificação da nossa vida com a de Jesus. O que também se faz com a comunhão da Palavra de Deus proclamada em cada Eucaristia.

Se seguimos Jesus, apesar do nosso pecado… se acreditamos que Ele é o Pão da vida que nos alimenta, apesar das nossas hesitações… se queremos que Ele nos transforme, apesar das nossas fragilidades… então vivamos, como nos desafia São Paulo, de acordo com a Sua vida e a Sua mensagem. «Não vivais como insensatos, mas como pessoas inteligentes. Aproveitai bem o tempo, porque os dias que correm são maus… procurai compreender qual é a vontade do Senhor. Não vos embriagueis com o vinho, que é causa de luxúria, mas enchei-vos do Espírito Santo… dando graças, por tudo e em todo o tempo, a Deus Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo».

 

5 – Toda a palavra de Deus – que nos revela o amor de Deus que vem ao nosso encontro, mas também a resposta que a humanidade, particularmente o Povo Eleito, vai dando a Deus, com avanços e recuos, com aproximações e distanciamentos – nos alimenta e nos compromete com a verdade, com a justiça, com a paz, no acolhimento dos desígnios divinos, procurando que o alimento recebido seja compromisso com todos os que nos rodeiam.

No livro dos Provérbios, o conselho sábio convida a comer o pão e o vinho preparados pela Sabedoria, logo acrescentando: «Deixai a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência». O salmo segue a mesma lógica: «Vinde, filhos, escutai-me, vou ensinar-vos o temor do Senhor… Guarda do mal a tua língua e da mentira os teus lábios. Evita o mal e faz o bem, procura a paz e segue os seus passos».

A oração, por sua vez, implica-nos com aquilo que suplicamos: «Deus de bondade infinita, que preparastes bens invisíveis para aqueles que Vos amam, infundi em nós o vosso amor, para que, amando-Vos em tudo e acima de tudo, alcancemos as vossas promessas, que excedem todo o desejo».

É pelo amor que vamos, é o amor que nos salva, um Amor que é eterno, o Amor que é Deus. Amando-O e acolhendo o Seu amor por nós, para que em dinâmica de amor nos relacionemos uns com os outros e com o mundo que é a casa comum de todos. O amor de Deus vence o nosso pecado, a nossa fragilidade e a nossa finitude.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Prov 9, 1-6; Sl 33 (34); Ef 5, 15-20; Jo 6, 51-58.


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