Domingo XVII do Tempo Comum - ano C - 28 de julho de 2019


1 – «Senhor, ensina-nos a orar». Pedido feito pelos discípulos a Jesus, lembrando que também João Batista ensinou os seus discípulos a rezar. Jesus terá oportunidade de vincar que a oração há de expressar uma atitude permanente de escuta da voz de Deus, de diálogo com essa Voz, sem muitas palavras, ou pelo menos, cientes que não é a quantidade de palavras que conta, como que por magia e convencimento de Deus, mas o que conta é o coração, a confiança, a relação. A sinceridade confiante de quem se coloca nas mãos, no colo, no coração de um Pai.

E "Pai" é precisamente a primeira palavra da oração que Jesus lhes/nos ensina. Diríamos que não é necessário muito mais. Quem se coloca em postura de oração, dirigindo o olhar, os ouvidos, o coração e a vida para Deus, reconhecendo-O e acolhendo-O como Pai, assume-se, desde logo, como filho e, simultaneamente como irmãos dos outros filhos do Pai. Quando se pede algo ao Pai/Mãe já se sabe que pedimos também para os nossos irmãos, pois não vamos receber e os outros ficarem a olhar. A oração é súplica, mas imediatamente, compromisso com o que pedimos.

«Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação».

A versão lucana do Pai-Nosso, mais simples, mas contém o conteúdo essencial. Mateus acentuará mais a dinâmica do perdão, São Lucas mais a dimensão da confiança e da resposta certa de Deus.

Como se pode verificar, o reconhecimento que tudo deve partir e assentar em Deus, que é Pai, que seja o Seu reino e a Sua soberania a implementar-se na terra, garante de que Deus é Deus e que mais ninguém é colocado nessa categoria, para que não haja nem instrumentalização nem idolatria. É sempre um risco alguém endeusar-se ou deixar-se endeusar, colocando-se num patamar superior; igualmente, deixar-se instrumentalizar como joguete ou instrumentalizar os outros, usando-os como meios para atingir algum fim.

 

2 – Na continuação, Jesus insiste na persistência da oração e na confiança em Deus que é Pai.

Jesus utiliza uma imagem muito sugestiva: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa».

O próprio Jesus sublinha a resiliência na oração: «Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á».

E a resposta positiva de Deus: «Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».

A questão colocar-se-á sempre na pressa e no automatismo das repostas que queremos obter. Eu rezo, e lá estaria a multiplicação das palavras, e a minha oração há de convencer Deus de que o meu pedido é justo e merece ser despachado quanto antes. A promessa de Jesus: Deus responderá como Pai e dar-nos-á coisas boas, antes de mais, o Espírito Santo. E aqui tudo se joga, o Espírito Santo ilumina a nossa vida e enche-nos de sabedoria para deixarmos Deus agir em nós, para prosseguirmos no caminho que nos cabe fazer, e na aceitação das nossas limitações e fragilidades.

 

3 – Abraão é considerado o Pai na Fé, por ter sido o primeiro a acreditar num Deus pessoal: Alguém com Quem poderia dialogar e de Quem poderia obter respostas. As três grandes religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, consideram-no como tal, daí que também não se entenda muito bem que haja guerras religiosas. Sabemos que o motivo religioso pode ser aglutinador, mas na maioria das vezes estão por detrás outras razões, políticas, económicas, de disputa de poder.

O Papa Francisco apresenta Abraão como modelo da oração persistente. Abraão não desiste de rezar, de implicar e comprometer Deus. Intercede pelo povo. É quase uma negociação. Bem dizemos nós que não devemos "negociar" com Deus, nem de utilizar muitas palavras, mas Abraão mostra-nos, sobretudo, que confia em Deus e que Deus não deixará de compreender e responder favoravelmente. Com Abraão compreendemos também que não é Deus que nos destrói, somos nós, com o nosso pecado e com o nosso egoísmo que destruímos, que separamos, que criamos ruturas.

«O clamor contra Sodoma e Gomorra é tão forte, o seu pecado é tão grave que Eu vou descer para verificar se o clamor que chegou até Mim corresponde inteiramente às suas obras. Se sim ou não, hei de sabê-lo». Os homens que tinham sido acolhidos por Abraão, dirigem-se a Sodoma, mas o Senhor continua perto de Abraão que começa a sua oração: «Irás destruir o justo com o pecador? Talvez haja cinquenta justos na cidade. Matá-los-ás a todos? Não perdoarás a essa cidade, por causa dos cinquenta justos que nela residem? Longe de Ti fazer tal coisa: dar a morte ao justo e ao pecador, de modo que o justo e o pecador tenham a mesma sorte! Longe de Ti! O juiz de toda a terra não fará justiça?»

O Senhor Deus responde com misericórdia e perdão. Abraão, para que não fique esgotada nenhuma possibilidade, insiste, colocando na balança os justos que podem contrabalançar com os pecadores: 45, 40, 30, 20, 10. A resposta de Deus é igual: em atenção a esses justos não destruirei a cidade. Os justos, os homens bons, sensatos, generosos e altruístas, tementes a Deus, edificam, constroem as cidades sobre os alicerces da justiça e da verdade, da harmonia e da sã convivência. Sem homens de bem não é possível que a cidade dos homens sobreviva. Mas aqui o que está em causa é mesmo a oração confiante, persistente, negociadora de Abraão em relação a Deus, em Quem confia.

 

4 – Logo no início da Eucaristia, a oração de coleta, isto é, a oração que recolhe as intenções, as orações e os propósitos da assembleia celebrante, coloca-nos, todos, em sintonia com Deus. É tempo para superar distanciamentos e dispersões.

A oração sincroniza-nos também com a temática da liturgia da Palavra: «Deus, protetor dos que em Vós esperam, sem Vós nada tem valor, nada é santo. Multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos».

O caminho que percorremos, uns com os outros, encaminha-nos para o Senhor, até à eternidade.

 

5 – Na segunda leitura, São Paulo lembra-nos precisamente esta sintonia com a vida nova que recebemos pelo Batismo e nos faz estar ligados ao Céu. Mortos com Jesus para o pecado, para o mal e para a morte, tornamo-nos novas criaturas, ressuscitando com Ele. «Quando estáveis mortos nos vossos pecados e na incircuncisão da vossa carne, Deus fez que voltásseis à vida com Cristo e perdoou-nos todas as nossas faltas. Anulou o documento da nossa dívida, com as suas disposições contra nós; suprimiu-o, cravando-o na cruz».

Cabe-nos tornar visível esta pertença à ressurreição que nos habita, envolvendo-nos e envolvendo os outros nesta peregrinação da pátria provisória até à pátria definitiva, cuja vida vamos experimentando.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 18, 20-32; Sl 137 (138); Col 2, 12-14; Lc 11, 1-13.


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